Vendas do Etanol Seguram Baixa no Preço do Açúcar
Reflexões dos fatos e números do agro em julho/agosto e o que acompanhar em setembro
Na cana, o processamento acumulado desde o início da safra 2024/25 até o dia 01/08 atingiu 332,9 mi de t, refletindo um avanço de 6,6% frente o observado na mesma época do ciclo anterior (312,1 mi de t). No entanto, em um recorte da 2ª quinzena de julho, a moagem foi de 51,3 mi de t, obtendo uma queda de 3,3% (53,1 mi de t em 2022/23). Os dados são da União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica).
A produtividade da cana-de-açúcar ficou em uma média de 87,5 t/ha na região Centro-Sul do país, o que indica uma queda de 10,5% em relação à safra passada. Enquanto isso, no acumulado da temporada corrente (de abril a julho), também houve retração no rendimento, porém menor, em torno de 5,0%.
Até o final de julho, 257 usinas estavam em operação, sendo 238 unidades com processamento de cana-de-açúcar, 9 com fabricação de etanol a partir do milho e 10 usinas flex. Já olhando para a qualidade da matéria-prima, medida pelo nível de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), desde o início do ciclo o indicador é de 133,1 kg/t (+0,14% frente 2023/24). Apenas na última metade de julho, o ATR foi de 146,9 kg/t (+1,9%).
Enquanto isso, o mix de produção em 2024/25 na posição acumulada se encontra em 49,2% para o açúcar (alta anual) e 50,8% para o etanol (queda anual). No entanto, nas 2 últimas semanas de julho, a proporção de cana-de-açúcar destinada à fabricação de etanol foi 49,7% (alta) e para o adoçante foi de 50,3%, abaixo dos 50,6% registrado no ciclo passado, reflexo da menor qualidade da matéria-prima. Embora o ATR tenha registrado 3kg/t a mais nesse período, o teor de sacarose/t é quase o mesmo de 2023, com queda de 2 p.p. na pureza do caldo em comparação anual.
A safra 2023/24 foi marcada por recordes de moagem de cana, redução nos custos de produção e bons preços do açúcar. No entanto, o cenário para 2024/25 será mais desafiador, com uma possível queda na produtividade e uma entressafra prolongada. Até julho, a safra atual mostrou crescimento, mas a tendência é de desaceleração, com problemas como a menor idade média dos canaviais e condições climáticas adversas, desenhando um cenário de “morte súbita” na temporada, segundo o Pecege Consultoria. A expectativa é de uma moagem de cerca de 605,0 mi de t, uma redução de 7,4%. Essa queda pode impactar a produção de açúcar e elevar os preços, especialmente devido à menor diluição dos custos fixos.
As fontes renováveis continuam a ganhar espaço na matriz energética do Brasil, representando 49,1% do total em 2023, um aumento de 1,7 p.p. em relação ao ano anterior, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A cana-de-açúcar, após 2 anos de queda, voltou a crescer e mantém-se como a principal fonte renovável, compondo 16,9% da matriz energética (era 15,4% em 2022). Em termos de volume energético, a cana gerou 52,9 mi de t equivalentes de petróleo (Mtep) em 2023, um crescimento de 13,1% sobre o ano anterior.
No açúcar, a fabricação da safra 2024/25 até o dia 01/08 totalizou 20,7 mi de t, um avanço de quase 8,0% ante as 19,2 mi de t da temporada anterior. Na 2ª quinzena de julho o total foi de 3,6 mi de t (-2,1%), de acordo com dados da Unica.
Já as exportações do adoçante pelo nosso país alcançaram, em julho, um volume de 3,8 mi de t (+28,5% acima do mesmo período do ano passado) e uma receita de R$ 1,7 bi (+16,0%), o que implica um preço médio de US$ 457,1/t (-9,7%), segundo dados da plataforma Agrostat do Mapa.
Na safra 2024/25, as usinas de cana do Brasil estão adicionando uma capacidade industrial de produção de 5 mi de toneladas de açúcar, conforme estimativa da consultoria FG/A. Esse aumento resulta de investimentos em novas fábricas em usinas que antes produziam apenas etanol e de melhorias no processo produtivo para direcionar mais cana à produção de açúcar. As novas fábricas em construção devem contribuir com 2,3 mi de t, enquanto as melhorias operacionais somam mais 2,8 mi de t. Esse movimento de ampliação de capacidade já havia começado na safra anterior, mas com volumes menores. O mix açucareiro continua historicamente elevado, mantendo a produção em alta neste ciclo.
Produção de açúcar nos Estados Unidos pode atingir um recorde histórico de 9,5 mi de t em 2024, segundo o USDA. Esse aumento é atribuído aos bons rendimentos tanto da beterraba quanto da cana-de-açúcar. O USDA revisou sua previsão para a produção de açúcar de beterraba para 5,3 mi de t, e a produção de açúcar de cana também foi ajustada para cima para 4,1 mi de t.
O panorama para os preços do açúcar ainda é mais baixista no médio prazo, apesar da recente valorização do adoçante. O impacto do La Niña continua preocupando. No entanto, a relação entre o La Niña e a precipitação sugere que seus efeitos sobre a região Centro-Sul do Brasil possam ser limitados, com um verão mais frio, mas sem grandes impactos adversos na cana. A Índia e a Tailândia também mostram baixa correlação entre o fenômeno e a precipitação. Assim, espera-se que a Índia aumente sua disponibilidade de açúcar e retorne ao mercado de exportação, o que pode levar a uma moderação dos preços. Mas a cana do Sudeste está muito judiada com a seca.
A Czarnikow crê em superavit de 5,9 milhões de toneladas na temporada 2024/25 (outubro de 2024 a setembro de 2025). A boa notícia é que esta estimativa caiu quase 3 milhões de toneladas em relação à de junho. O Brasil e a Rússia contribuíram para esta queda. A produção seria de 186 milhões de toneladas e consumo em 180 milhões.
Com a demanda de açúcar geralmente resiliente, especialmente em países em desenvolvimento, o crescimento global deve se manter em torno de 1,0%. Mesmo com expectativa de superávit para 2024/25, deve ser mais modesto, com menos de 1 mi de t. Assim, o comportamento de compra da China será crucial para o mercado, pois a disponibilidade doméstica esperada poderá reduzir suas necessidades de importação, contribuindo para uma perspectiva de preços mais baixos.
Com a alta recente do real frente ao dólar, a indústria exportadora de açúcar se viu desencorajada, reduzindo os embarques e impactando diretamente nos preços. No fechamento da nossa coluna, o contrato out/24 na Bolsa de Nova York estava cotado em 18,02 centavos de dólar por libra-peso; e o de mar/25 em 18,37/lb. Em Londres, a cotação de out/24 era de US$ 513,70/t. No mercado interno, a saca de 50 kg do açúcar cristal branco (Cepea/Esalq) era cotada a R$ 128,73, queda mensal de 3,8%.
No etanol, a produção chegou a 15,7 bi de litros (+8,6%) desde o início do ciclo até 01/08. Destes, 9,9 bi de litros são de etanol hidratado (+19,4%) e 5,7 bi de litros são de anidro (- 6,0%). No recorte da 2ª quinzena de julho, a fabricação do biocombustível na região Centro-Sul alcançou 2,5 bi de litros: 1,6 bi de litros hidratado (+8,2%) e 947,1 mi de litros anidro (-3,7%). Na posição acumulada para o etanol proveniente do milho, a produção foi de 2,5 bi de litros, um avanço de 26,3% em comparação ao mesmo período de 2023, segundo dados da Unica.
Em relação as vendas de etanol, chegaram a 2,9 bi de litros em julho (+16,6% na comparação com 2023/24). De novo, o hidratado registrou crescimento, agora ainda mais expressivo, refletindo a sua competitividade em grande parte do mercado consumidor, de 42,8% (1,9 bi de litros), enquanto o anidro obteve queda de 11,2% (1,1 bi de litros). No acumulado desde o início da safra até 01/08, a comercialização do biocombustível totalizou 11,6 bi de litros (+20,7): 7,5 bi de litros do hidratado (+42,9%), e 4,1 bi de litros do anidro (-6,3%).
Dados da B3 (Bolsa de Valores do Brasil) até 09/08 mostram que, neste ano, os produtores de biocombustíveis emitiram 25,4 mi de créditos. No total, 26,8 mi de CBios estão disponíveis para negociação, incluindo os detidos por partes obrigadas, não obrigadas e emissores. Ao somar os CBios disponíveis para comercialização com os créditos já aposentados para cumprir a meta de 2024, alcançamos aproximadamente 75,0% dos títulos necessários para atingir a meta do ano.
Os estoques de etanol na região Centro-Sul continuam a crescer, embora em um ritmo mais moderado. No final de julho, atingiram 7,0 bi de litros (+0,7% em comparação ao ano anterior e +16,9% em relação à primeira metade do mês), segundo o Mapa. O aumento é impulsionado pela moagem elevada e crescimento do consumo, porém, especialistas indicam uma possível retração na produção de cana (pouco acima de 600 mi de t) e, consequentemente, nos estoques do biocombustível durante a safra 2024/25. A produção total de etanol para esta safra pode cair 4,9%, para 31,9 bi de litros.
O combustível sustentável de aviação (SAF), que pode ser produzido a partir do etanol, tem o potencial de transformar a indústria aérea até 2030. Atualmente, o SAF representa apenas 0,5% a 1,0% do combustível global, mas pode chegar a 20,0% da frota mundial operando exclusivamente com esse combustível. Um estudo apresentado pelo Acordo de Cooperação Mobilidade de Baixo Carbono para o Brasil (MBCB) aponta que a combinação de biocombustíveis e veículos elétricos pode gerar impactos econômicos positivos significativos, como um acréscimo de R$ 2,8 tri no PIB e a criação de 1,6 mi de empregos em comparação ao cenário que favorece veículos 100,0% elétricos.
São Martinho observa que a ampliação da unidade de produção de etanol de milho em uma de suas usinas faz mais sentido econômico do que aumentar a capacidade de produção de açúcar. A usina de etanol está apresentando bom desempenho operacional e deve começar a gerar retorno ainda este ano, especialmente devido ao baixo consumo de energia e à disponibilidade de biomassa da cana. A empresa está considerando dobrar a capacidade da planta de etanol de milho se o cenário desse mercado permanecer favorável.
Segundo dados da SCA Brasil, os preços do etanol hidratado (já com impostos) no município de Ribeirão Preto (SP) estavam em R$ 3,10/l na data de fechamento da nossa coluna (19/08), uma leve queda de 2 centavos no comparativo com a semana anterior. Já o anidro estava em R$ 3,08/l, também redução semanal.
Valor do ATR: em julho, o preço do Açúcar Total Recuperável, divulgado pelo Consecana, fechou o mês em R$ 1,1759/kg, alta mensal de 1,0%. O histórico da safra 2024/25 é composto de: em abr/24, os preços estavam em R$ 1,1879/kg; mai/24 com R$ 1,1684/kg; jun/24 com R$ 1,1635; e agora em jul/24 foi aos R$ 1,1759/kg. O acumulado deste ciclo está em R$ 1,1711. Acreditamos em um valor entre R$ 1,15/kg a R$ 1,17/kg até o final da safra, dependendo de como será o clima e os impactos na produtividade nos próximos meses.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em setembro na cadeia da cana:
- Seguir acompanhando o clima e os eventos na transição para o La Niña. Na região Centro-Sul, picos de seca prolongada e de ondas de frio tem impactado diretamente as lavouras.
- Acompanhar a produtividade dos campos de cana-de-açúcar, que já registram quedas recentes, e os desdobramentos na moagem total da matéria-prima neste ciclo. Estimativas recentes já reduzem a safra para 600 milhões de t; no início do ciclo variavam de 620 a 640 milhões de t.
- No açúcar, apesar das preocupações com a redução na safra brasileira, o clima positivo na Índia e Tailândia (que sofrem menos os efeitos do La Niña) e a previsão de alta na oferta do adoçante em outros países produtores (como os EUA) tem mantido os preços estáveis e sem previsão de alta. Vamos avaliar os impactos também do câmbio nas exportações e os eventos que podem impactos os preços.
- O etanol segue em recuperação após o início de safra desanimador. As vendas do último mês cresceram na comparação com o ano passado e a recente baixa nos preços tem estimulado o consumo. Na data de fechamento da nossa coluna, o biocombustível era mais vantajoso em 15 estados, frente a gasolina.
- Por fim, seguir acompanhando os preços do petróleo, que podem alterar a dinâmica do etanol e mudar o mix do açúcar, por conta dos preços inferiores. Em 20 de agosto, o Brent estava cotado em US$ 77,23/barril e o Crude em US$ 73,94, queda mensal de 5,1% e 5,6%, respectivamente. A baixa possibilitou que a paridade do preço da gasolina brasileira frente ao mercado internacional. Vamos avaliar os impactos nos postos e no comportamento de consumo no próximo mês.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) da FGV (São Paulo – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é consultora na Markestrat Group, aluna de mestrado em Administração de Organizações na FEA-RP/USP e especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
