Valorização do real e queda do petróleo pressiona preço da gasolina

Reflexões dos fatos e números da cana em setembro/outubro e o que acompanhar em novembro

Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva, Beatriz Papa Casagrande e Rafael Barros Rosalino

Na cana, a moagem acumulada da safra 2025/26 até 1º de outubro somou 490,9 mi de t, queda de 3,0% frente às 506,0 mi de t registradas no mesmo período do ciclo anterior, de acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar). Ao final de setembro, 259 unidades produtoras estavam em operação no Centro-Sul, sendo 238 processando cana-de-açúcar, 10 fabricando etanol de milho e 11 usinas flex. Já a qualidade da matéria-prima, medida pelo ATR, foi de 136,04 kg/t no acumulado da safra (-3,6%).

O mix de produção destinado ao açúcar foi de 52,7% (era 48,8% na safra passada), enquanto para o etanol foi de 47,3% (era 51,2%). O direcionamento para o açúcar apresentou recuo pela terceira quinzena consecutiva, alcançando 51,2% na segunda metade de setembro, ante 53,5% na quinzena anterior. A retração foi mais intensa nas usinas do Centro-Oeste (-3,5 p.p.), refletindo maior atratividade do etanol na região.

De acordo com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a produtividade da cana-de-açúcar na região Centro-Sul caiu 6,5% na safra 2025/26 em relação à anterior, alcançando média de 77,7 t/ha entre abril e setembro, contra 83,2 t/ha no mesmo período do ciclo passado. Em setembro, o desempenho foi semelhante ao de 2024, com 71,9 t/ha ante 70,4 t/ha, mas a qualidade da matéria-prima recuou levemente. Esses dados indicam que, embora a produtividade e a qualidade da cana tenham se mantido estáveis no curto prazo, o rendimento médio da safra atual segue abaixo do observado no ano passado, refletindo os desafios climáticos e agronômicos enfrentados pelo setor.

A safra 2025/26 no Centro-Sul deve encerrar com moagem de 596,9 mi de t, segundo a média de 19 empresas e consultorias ouvidas pelo NovaCana, queda de 4,0% em relação à temporada anterior e o menor volume desde 2022/23. A produção de açúcar deve permanecer praticamente estável, enquanto o etanol deve registrar retração mais acentuada, acompanhada por um recuo de 1,2% no ATR. Apesar da desaceleração, as projeções indicam recuperação em 2026/27, com aumento  de 3,1% na moagem, para 615,2 mi de t.

No açúcar, a produção acumulada do adoçante se robusta, atingindo 33,5 mi de t até 1º de outubro, levemente acima do volume registrado no ciclo anterior (33,2 mi de t), mesmo com redução no ATR.

As exportações brasileiras de açúcar registraram queda em volume e receita em setembro, mesmo com a China assumindo o posto de principal compradora após a imposição da tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Segundo a Secex, o Brasil exportou 3,2 mi de t no mês, recuo de 16,4% em relação a setembro de 2024, com preço médio de US$ 403,3/t e receita de US$ 1,3 bilhão, 26,6% menor que no ano anterior. A taxação reduziu as exportações para os EUA em mais de 80%, passando de 133 mil t em setembro de 2024 para 21 mil t neste ano, embora o preço médio tenha subido para US$ 706/t. A medida deve gerar custos extras de cerca de US$ 27,9 mi anuais e ameaça principalmente o segmento de açúcar orgânico, cujo principal mercado é o americano. No acumulado de 2025, o Brasil exportou 23,4 mi t, queda de 17,2%, com receita de US$ 10,16 bilhões (-26,7%), refletindo o impacto das barreiras comerciais e a reconfiguração do destino das vendas, com destaque crescente para China, Índia e países árabes.

Em setembro, o mercado de açúcar manteve estabilidade internacional, sustentado pela produção recorde no Brasil e pela demanda aquecida da China e do Oriente Médio, segundo o relatório Agro Mensal do Itaú BBA. O balanço global do açúcar tende ao equilíbrio, com leve superávit de 1,7 mi de t previsto para 2025/26, o que mantém o prêmio do açúcar sobre o etanol positivo, porém menor que em anos anteriores.

Em Nova Iorque, o contrato do açúcar para mar/26 ficou em 15,24 cent/lb (-4,2%). Enquanto isso, no mercado interno, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 114,80/sc (50 kg), retração de 4,1% em relação ao mês passado.

No etanol, a fabricação acumulada da safra soma 23,0 bilhões de litros (-8,8%), com 14,4 bilhões de hidratado (-10,9%) e 8,6 bilhões de anidro (-5,0%). Desde o início do ciclo, foram produzidos 4,5 bilhões de litros de biocombustível a partir do milho (+18,4%), ainda de acordo com a UNICA.

As vendas em setembro somaram 3,1 bilhões de litros. O anidro teve crescimento de 16,4% (1,2 bilhão de litros), enquanto o hidratado recuou 2,1% (1,9 bilhão de litros). No mercado interno, o anidro somou 1,2 bilhão de litros (+15,3%) e o hidratado 1,7 bilhão de litros (+0,4%). No acumulado da safra, as vendas totalizam 17,5 bilhões de litros (-2,0%), sendo 11,0 bilhões de hidratado (-5,5%) e 6,5 bilhões de anidro (+4,4%).

Até 15/09, foram emitidos 33,6 mi de Créditos de Descarbonização (CBios). A quantidade disponível para negociação soma 31,0 mi. Segundo a UNICA, mesmo faltando mais de dois meses para o fim do prazo, o volume já supera as exigências do Programa para 2025, incluindo créditos pendentes de anos anteriores.

O mercado do etanol enfrenta oferta restrita pela menor disponibilidade de cana e pela maior destinação à produção açucareira, além da concorrência com a gasolina mais barata, pressionando os preços no curto prazo. O relatório Agro Mensal do Itaú BBA aponta, contudo, que o biocombustível pode se valorizar na entressafra caso a gasolina não reduza mais. No campo climático, o início do fenômeno La Niña deve trazer chuvas mais regulares ao Centro-Oeste e Sudeste, favorecendo a soja, enquanto o Sul, historicamente mais sujeito à seca, deve ter condições melhores que em anos anteriores.

As negociações entre Brasil e Estados Unidos sobre o chamado “tarifaço” de 50% imposto pelo governo de Donald Trump às importações brasileiras incluem o etanol. O governo brasileiro pretende propor alternativas para reduzir a tarifa e restabelecer um regime de cotas para a entrada do biocombustível dos EUA. Além disso, o Brasil deve sugerir que as importações norte-americanas cheguem por portos do Sudeste, a fim de proteger as usinas do Nordeste, mais vulneráveis à concorrência do etanol de milho subsidiado pelos Estados Unidos.

No informativo de etanol divulgado pela SCA Brasil no dia 21/10, os preços do biocombustível estavam em R$ 3,36/l para o hidratado (queda de 0,3% no comparativo semanal) e em R$ 3,30/l para o anidro (manutenção), considerando a praça de Ribeirão Preto (SP) e já incluindo os impostos.

 

Valor do ATR: com o assunto ainda em discussão, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR) pelo Consecana. Nossa expectativa é de que o ATR feche a safra atual ao redor de R$ 1,10-1,15/kg, com esta queda recente no etanol.

 

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em novembro na cadeia da cana:

  1. Acompanhar o andamento da moagem, com parte das unidades reduzindo o ritmo e outras ainda processando para aproveitar as últimas janelas de clima seco. Até 1º de outubro, o setor havia moído 490,9 mi de t (-3%), e a safra deve encerrar com 596,9 mi de t, o menor volume desde 2022/23. A produtividade média caiu 6,5%, para 77,7 t/ha, refletindo o impacto do estresse hídrico e da renovação limitada de áreas.
  2. Ficar de olho no clima. A atenção agora se volta ao La Niña, que tende a trazer chuvas mais regulares ao Sudeste e Centro-Oeste, favorecendo o desenvolvimento dos canaviais para 2026/27, mas com risco de excesso de umidade no final da colheita em algumas regiões. As condições observadas até dezembro serão determinantes para o rebrote e o perfilhamento das áreas colhidas, influenciando o potencial produtivo da cana 2026/27. O produtor deve aproveitar esse período para avaliar as perdas de TCH e ATR e planejar tratos culturais que recuperem o vigor dos canaviais após uma safra de rendimento abaixo do histórico.
  3. No açúcar, mesmo com menor disponibilidade de cana, o bom desempenho se mantém com 33,5 mi de t produzidas (+0,9%) até outubro. Porém, as exportações caíram 16,4% em setembro, afetadas pela tarifa de 50% dos Estados Unidos, que reduziu em mais de 80% os embarques para esse destino, e pela reconfiguração dos fluxos comerciais, agora mais dependentes de China e Oriente Médio. O mercado global projeta leve superávit de 1,7 mi de t, o que sustenta preços moderados no mercado interno. É preciso monitorar se o prêmio do açúcar sobre o etanol continua positivo e se novas medidas comerciais ou diplomáticas podem mitigar o impacto das tarifas americanas.
  4. No etanol, a produção acumulada soma 23,0 bilhões de litros (-8,8%), com retração tanto no hidratado (-10,9%) quanto no anidro (-5,0%), mas crescimento de 18,4% no etanol de milho. As vendas em setembro reagiram (+16,4% no anidro e +0,4% no hidratado), impulsionadas pela mitura obrigatória de 30% (E30) e pela demanda interna firme.
  5. Momento de atenção aos preços do petróleo (Brent em US$ 61,6) deixando a gasolina mais barata. Esse cenário continua pressionando os preços do biocombustível e o valor do ATR. O mercado aguarda a evolução das negociações entre Brasil e EUA para o etanol, que pode abrir espaço para revisão de cotas de importação e maior competitividade das usinas nacionais.

 

 

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).

Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.

Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

Análises e conjunturas

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