Moagem Desacelera com Encerramento da Safra em Parte das Usinas
Reflexões dos fatos e números do agro em novembro/dezembro e o que acompanhar em janeiro
Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva, Beatriz Papa Casagrande e Rafael Barros Rosalino
Na cana, no acumulado da safra 2025/2026 até 1º de dezembro, a moagem alcançou 592,27 milhões de t, recuo de 1,9% frente às 603,86 milhões de t registradas no ciclo anterior. Somente na 2ª quinzena de novembro, o processamento somou 16,0 milhões de t, volume 21,1% menor que o observado no mesmo período da safra 2024/2025 (20,27 mi de t) de acordo com a UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar).
Ao todo, 144 unidades permaneceram em operação na última metade de novembro (eram 196 no mesmo período do ano passado), ante 173 unidades com safra finalizada desde abril. Segundo Luciano Rodrigues, diretor de Inteligência Setorial da entidade, “até o início de dezembro, aproximadamente dois terços das unidades do Centro-Sul já haviam concluído o processamento”.
Em relação à qualidade da matéria-prima, o ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) quinzenal subiu 6,8%, atingindo 133,78 kg/t, reflexo de condições climáticas mais favoráveis no final do ciclo. No entanto, no acumulado da safra, o indicador ainda apresenta retração de 2,5%, com 138,33 kg/t.
O mix produtivo seguiu se deslocando em favor do etanol: o percentual da cana destinado ao açúcar caiu de 38,6% para 35,5% na última quinzena (-3,1 p.p.), enquanto o etanol alcançou 64,5% da destinação da matéria-prima (7ª quinzena consecutiva de avanço para o biocombustível). O movimento é atribuído à menor atratividade do açúcar (preços globais mais baixos) e à piora da qualidade da matéria-prima no fim da safra.
Segundo boletim de dezembro do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a produtividade média dos canaviais do Centro-Sul na safra 2025/26 (abril a março) acumula queda de 4,9% frente ao mesmo período do ciclo anterior, atingindo 74,7 t/ha, refletindo principalmente os efeitos do tempo seco e de incêndios que atingiram áreas relevantes no ano passado. No mesmo balanço, o indicador de qualidade da matéria-prima, o Açúcar Total Recuperável (ATR), também recuou no acumulado, com média de 136,1 kg/t (-0,9%). Apesar do desempenho mais fraco no acumulado, novembro mostrou melhora pontual: a produtividade do mês foi de 63,3 t/ha (+0,7% ano a ano) e o ATR subiu 8,6%, para 134,3 kg/t.
A safra 2026/27 do Centro-Sul deve ter reação na oferta de cana, com a moagem podendo chegar a 635 milhões de t, movimento atribuído principalmente ao aumento da área de cana-planta e à expectativa de condições climáticas mais próximas da normalidade, segundo estimativa do Pecege. Na leitura da instituição, esse “rebote” vem depois de uma temporada 2025/26 estimada em torno de 609,6 milhões de t e estaria apoiado em uma melhora gradual dos indicadores agrícolas: o TCH (t de cana por ha) projetado para cerca de 77,2 t/ha (+3,4%), com indicação de que o ATR médio também tende a avançar.
No açúcar, a fabricação somou 724,1 mil t na segunda quinzena de novembro, queda de 32,9% em relação ao mesmo período do ciclo anterior (1,1 milhão de t). No acumulado da safra, a produção do adoçante totalizou 39,9 milhões de t, ligeiramente acima do valor registrado no ano passado (39,5 milhões).
Nas exportações, o açúcar bruto totalizou US$ 1,1 bilhão (-24,5%) e 2,9 milhões de t (-4,2%), influenciado pela queda de 21,1% nos preços médios de exportação, diante do aumento global da oferta. A China, entretanto, ampliou suas compras (+199,6%), sendo o principal destino.
O relatório mais recente do USDA para o mercado do açúcar destaca que o balanço global em 2025/26 tende a ficar mais folgado, com a produção mundial projetada em 189,3 milhões t (alta anual de 8,3 milhões t), puxada pelo Brasil e Índia, o que deve elevar a disponibilidade e aumentar os estoques finais globais (estimados em 44,5 milhões t). Nesse cenário, o Brasil aparece como a principal âncora de oferta e exportação: com produção projetada em 44,4 milhões t (+700 mil t), com melhor rendimento por clima favorável, o que sustenta exportações previstas em 35,7 milhões t. Ao mesmo tempo, a queda de produção na União Europeia (para 15,5 milhões t) e a recomposição de oferta na Ásia (Índia e Tailândia) redesenham a competição nos destinos, abrindo espaço para o Brasil em mercados onde a UE recua, mas o aumento de oferta/estoques também eleva o risco de pressão baixista em preços.
O relatório Agro Mensal de dezembro do Itaú BBA destacou que a revisão da safra brasileira para cima, somada a uma boa perspectiva de colheita no Hemisfério Norte (com destaque para a Rússia, cuja beterraba já estava 95% colhida e com volume +~6% a/a), aumenta a leitura de superávit global em 2025/26 para 2,7 Mt, deixando o mercado mais refém do que acontecer com o etanol no Brasil: se a paridade e a demanda doméstica por sustentarem um mix mais alcooleiro, o açúcar ganha suporte; se não, a tendência é maior oferta exportável.
Em Nova Iorque, o contrato do açúcar para mar/26 ficou em 14,76 cent/lb (-0,4%). Enquanto isso, no mercado interno, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 109,65/sc (50 kg), alta de 2,3% em relação ao mês passado.
No etanol, no acumulado da safra, o total produzido chegou a 29,5 bilhões de litros, representando retração de 5,4% em relação ao ciclo anterior. Deste volume, 18,3 bilhões correspondem ao hidratado (-7,9%) e 11,2 bilhões ao anidro (-1,2%). A produção de etanol de milho, desde o início da safra foi de 6,0 bilhões de litros, avanço de 15,1% sobre 2024/2025. Os dados também são da UNICA.
As vendas de etanol somaram 2,7 bilhões de litros em novembro. O etanol anidro cresceu 2,4% (1,1 bilhão de litros), enquanto o etanol hidratado registrou queda de 13,8% (1,6 bilhão de litros). No mercado interno, foram comercializados 1,6 bilhão de litros de hidratado (-11,1%) e 1,0 bilhão de litros de anidro (+7,6%). No acumulado da safra, as vendas alcançaram 23,3 bilhões de litros (-2,4%), sendo 14,5 bilhões de hidratado (-6,1%) e 8,8 bilhões de anidro (+4,4%).
Até 15/12, os produtores de biocombustíveis haviam emitido 40,9 milhões de Créditos de Descarbonização (CBios), de acordo com dados da B3. Do total, 24,5 milhões permanecem disponíveis para negociação. A oferta já é suficiente para cobrir 116% da meta de descarbonização estabelecida para 2025, incluindo o saldo devedor acumulado de metas anteriores. “A indústria chega ao final do ano com uma folga considerável para cumprimento das metas, fruto do avanço das práticas sustentáveis e do aumento na eficiência do setor”, destaca Rodrigues, da UNICA.
Os preços do etanol devem seguir em trajetória de alta nos próximos devido a oferta mais restrita, segundo projeções do Itaú BBA. Mesmo com a revisão para cima da moagem e da produção, a estimativa ainda indica queda de oferta total em 2025/26: o Centro-Sul produziria 24,1 bilhões de litros de etanol de cana (-10,1%) e 9,6 bilhões de litros de etanol de milho (+16,6%), somando 33,6 bilhões de litros (-3,9% vs. 2024/25). Olhando para 2026/27, a projeção é de recuperação de produção tanto no etanol de cana (26,1 bi L, +8,4%) quanto no de milho (10,8 bi L, +12,6%), levando o total a 36,8 bi L (+9,6%), sugerindo um cenário de oferta mais confortável adiante. Mas, no curto prazo, o mercado segue apertado e com preços firmes na entressafra.
No informativo de etanol divulgado pela SCA Brasil no dia 18/12, os preços estavam em R$ 3,55/l para o hidratado e em R$ 3,52/l para o anidro, considerando a praça de Ribeirão Preto (SP) e já incluindo os impostos.
Valor do ATR: com o assunto ainda em discussão, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR) pelo Consecana. Nossa expectativa é de que o ATR feche a safra atual ao redor de R$ 1,10-1,15/kg, com esta queda recente no etanol.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em janeiro na cadeia da cana:
- Acompanhar a consolidação do fechamento da safra 2025/26, com dois terços das unidades já encerradas até o início de dezembro. Vamos ficar atentos no volume total da moagem (que já vinha abaixo do ano anterior) e o quanto as perdas de produtividade (TCH) e a pressão no ATR ficarão no acumulado, mesmo com melhora pontual no fim da colheita.
- Mix mais alcooleiro e impacto na oferta/exportação de açúcar. Com o mix já deslocado para etanol (sequência de altas na destinação), é preciso observar se essa escolha se mantém e como isso se traduz em produção final de açúcar, ritmo de embarques e formação de preços no físico. Como o pano de fundo global segue com expectativa de superávit (USDA/Itaú BBA) e preço internacional em patamar baixo para o adoçante, o mercado deve continuar sensível.
- No momento, há menor oferta de etanol de cana e suporte do etanol de milho (em crescimento, mas insuficiente para folgar o balanço). No início de dezembro (01/12), os estoques de etanol do Centro-Sul estavam em 8,7 bilhões de litros, 17% abaixo do observado um ano antes, sustentando preços mais firmes. Ao mesmo tempo, o petróleo voltou a subir com o anúncio dos EUA de bloqueio a navios/tanqueiros sancionados ligados ao óleo venezuelano, elevando a percepção de risco de oferta e empurrando Brent e WTI para altas de cerca de 2% em um único pregão. Precisamos acompanhar esses desdobramentos para saber o comportamento dos preços do etanol.
- No açúcar, com o Centro-Sul mostrando resiliência e revisão de safra que mantém a produção brasileira firme e boas projeções para o Hemisfério Norte (colheita da Rússia praticamente encerrada e volumes maiores), o mercado volta a olhar para um superávit global estimado em 2,7 Mt em 2025/26. Nesse cenário, o que vale monitorar de perto é: bom ritmo de produção na Índia após o efeito de antecipação; confirmação do balanço tailandês e mexicano conforme a moagem; e o comportamento do etanol no Brasil (paridade, demanda e decisão de mix), porque é ele que passa a funcionar como válvula de escape do açúcar.
- De olho na safra 2026/27: plantio/renovação, investimento e clima. O mercado passa a precificar o quanto a próxima temporada pode reagir. Com estimativas apontando moagem potencial na casa de 635 milhões t em com maior área de cana-planta e expectativa de normalização climática, é importante validar se essa recuperação irá se concretizar.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
