Análise mensal | Cana de Açúcar | Setembro 2020

A Escalada no Valor do ATR

(Boletim Cana30: resumo de setembro e os pontos selecionados para outubro)

Prof. Dr. Marcos Fava Neves

Vamos aos nossos fatos relevantes do mês de setembro e as perspectivas para outubro. Segundo a UNICA, o total de cana-de-açúcar processada até a primeira quinzena de setembro, no Centro-Sul, chegou a 44,39 milhões de toneladas, aumento de 12,08% ante o mesmo período do ano passado. No acumulado, a safra 2020/21 apresenta crescimento de 4,56%, totalizando 459,45 milhões de toneladas. Com os resultados, estima-se que tenham sido processados 80% da safra atual.

De acordo com estimativas do Rabobank, a safra 2020/21 da região Centro-Sul deverá atingir de 585 a 600 milhões de toneladas. O banco ainda aponta uma tendência de consolidação do setor, visto que, de um lado existem usinas capitalizadas e com grande capacidade de estocagem, e por outro existem aquelas com saúde financeira preocupante.

O aumento na moagem de cana-de-açúcar na safra atual está relacionado principalmente ao avanço da colheita por parte das usinas, em função do clima seco dos últimos meses. Atualmente, 258 unidades encontram-se em operação, um a mais que o registrado no mesmo período do ano anterior.

O setor sucroenergético exportou, em agosto, US$ 1,10 bilhão, registrando aumento de 75,6% em suas vendas em relação ao mesmo mês de 2019.

O governo brasileiro anunciou a renovação da cota de importação de etanol dos Estados Unidos em um volume de 187,5 milhões de litros, sem tarifas, para os próximos 90 dias. A medida seria uma moeda de troca para aumentar o acesso a mercado do açúcar brasileiro no país norte-americano, visto que atualmente existe uma tarifa de 140% sob o adoçante vindo do Brasil. Caso o Brasil exporte todo o volume da cota de açúcar para os EUA, a receita seria de US$ 23 milhões, enquanto que o país americano poderia arrecadar três vezes mais em vista da cota de etanol concedida pelo governo brasileiro.

A meta de Cbios para 2020 foi reduzida pelo MME em 50%, ou seja, 14,5 milhões de créditos, em consequência dos impactos da pandemia. Já para 2021, houve redução de 41% com relação à proposta inicial, ficando estabelecida em 24,8 milhões de Cbios. Atualmente, há 8 milhões de Cbios disponíveis para venda. A meta de aquisição de cada distribuidora para 2020 foi divulgada: BR precisa comprar 3,93 milhões, Ipiranga 2,88 milhões e Raízen 2,6 milhões. Dados apontam que a Copersucar poderá emitir até 6 milhões de CBios por ano, por meio de suas 34 usinas associadas. As vendas de Cbios foram recorde na primeira quinzena de setembro, com mais de 250 mil certificados sendo adquiridos pelas distribuidoras a preços variando entre R$ 23 a 32.

A Raízen iniciou tratativas para aquisição das operações da Biosev, subsidiária da Louis Dreyfus Company. As conversas ainda são preliminares, mas o mercado financeiro já respondeu positivamente à notícia com aumento das ações da Biosev em quase 22%. A BP Bunge espera fechar a safra 2020/21 com receita entre R$ 5 bilhões a R$ 5,5 bilhões. A companhia deve voltar seus esforços para investimentos na produção agrícola, algo em torno de R$ 1,25 bilhões por ano, sendo que 80% desse valor deve ser direcionado aos tratos culturais e outros 20% a equipamentos e manutenções.

No açúcar… o consumo global de açúcar sofreu redução de 2,5 milhões de toneladas na temporada 2019/20 (out-set) em consequência da pandemia, segundo a S&P Global Platts. Assim, o déficit global deve ser de apenas 260 mil toneladas na atual temporada, e de 1,14 milhão na próxima.

A produção de açúcar na safra 2020/21 (UNICA) chegou ao acumulado de 29,07 milhões de toneladas até a primeira quinzena de setembro, volume 9,00 milhões de toneladas superior a safra anterior. O mix de produção alcançou 47,01%, frente a 35,43% do ciclo anterior.

O Brasil exportou, em agosto, 3,5 milhões de toneladas de açúcar, incremento de 118,8% frente ao mesmo mês do ano anterior. Isso devido as quedas de produção na Índia e na Tailândia, abrindo a janela de oportunidades. Em volumes financeiros, atingiu-se o valor de US$ 960 milhões (+107%). Já em setembro as vendas foram de 3,621 milhões de toneladas, 112% maiores que setembro de 2019.

O teor de ATR da matéria-prima chegou a 159,09 kg por tonelada em 2020, frente aos 154,23 kg do ano anterior (3,15% maior). No acumulado, tem-se na safra atual 141,5kg de ATR por tonelada, 4,49% maior que no ciclo 2019/20.

Outra boa notícia para o açúcar foi a ampliação, pelos Estados Unidos, da cota de importação de açúcar do Brasil em 80 mil toneladas, apesar do volume significar apenas 0,3% das exportações brasileiras. A medida é considerada uma resposta do governo americano à concessão, pelo Brasil, de cota de importação de 187,5 milhões de litros do etanol isento de tarifa, por 90 dias. Porém, há argumentos que isto já seria automático nas relações do Brasil com os EUA, portanto não foi uma concessão.

Todo o açúcar a ser comercializado pela BP Bunge nessa safra já teve o preço fixado. Segundo a empresa, 60% do total para a safra 2021/22 e 30% da safra 2022/23, também já tiveram seus valores definidos. Os preços negociados pelo grupo foram de 10% e 8% maiores para a próxima safra e a seguinte, respectivamente.

No etanol…os dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) dos oito primeiros meses do ano (janeiro a agosto) mostram um consumo de combustíveis no ciclo Otto em 30,8 bilhões de litros. É um número 12,3% menor no mesmo período de 2019. Interessante notar que o etanol tem participação de 47% neste total, mas chega a atingir 68% no MT, 62% em GO e 63% em SP. A participação é menor em MG (54%) e no PR (47%). Dois estados produtores onde, se caso a participação fosse para mais de 60%, seria grande oportunidade.  A ANP mostrou que em agosto foram vendidos de hidratado 1,56 bilhão de litros, sendo o quarto mês seguido de aumento de consumo. Mas neste ano o consumo caiu 16% de janeiro a agosto.

De acordo com a UNICA, o volume produzido de etanol na primeira quinzena de setembro foi de 2,29 bilhões de litros, 4,65% menor que o mesmo período do ano passado. No acumulado, a produção chegou a 21,26 bilhões de litros, sendo que 70% (14,9 bilhões de litros) corresponde ao etanol hidratado e 30% (6,36 bilhões de litros) ao anidro.

Já as vendas externas de etanol em agosto caíram 13,3% frente ao mesmo mês do ano passado, chegando a US$ 141 milhões. No total, o volume comercializado de etanol até a primeira quinzena de setembro de 2020 chegou a 11,82 bilhões de litros (19,5% menor). Nos primeiros 15 dias do mês, foram 1,33 bilhão de litros vendidos, mesmo volume registrado no ano anterior. As exportações alcançaram 1,25 bilhão de litros (34,05% maior).

A produção de etanol de milho na safra atual chegou a 1,01 bilhão de litros, volume 94,5% superior que o registrado em setembro de 2019.

A renovação da cota de importação do etanol dos EUA pode ser um problema para o setor sucroenergético, que já tem 43% dos estoques acima do ano anterior e aguarda o aumento do volume por conta da safra no Nordeste, de acordo com a UNICA. A medida é encarada pelo setor com duas visões: uma seria a de buscar um equilíbrio entre as cotas do etanol americano e do açúcar brasileiro; e a outra seria uma medida para favorecer a campanha de eleição de Donald Trump. Entretanto, o etanol dos EUA, mesmo sem as tarifas de importação, perde competitividade por conta do dólar elevado. No Nordeste, principal região importadora, o etanol anidro importado pode chegar a R$ 2,49 o litro, segundo a Argus. Os dados do Cepea/USP, apontam que, nas usinas do estado, o preço sem impostos e frete é de R$ 2,16.

Segundo a Datagro, o preço interno do etanol para a segunda metade de setembro deve ficar em US$ 85,00 o m³, valor inferior a um produto importado. A consultoria aponta que, entre janeiro e fevereiro, o etanol importado poderá apresentar preços US$ 50 superiores em comparação ao nacional. Outro fator registrado é o valor do dólar que, para tornar o produto importado competitivo, deveria cair a R$ 4,60, algo difícil neste momento.

Para se chegar a uma produção de 50 bilhões de litros até 2030, o setor estima investimentos adicionais de R$ 90 bilhões e geração de 400 mil postos de trabalhos direta ou indiretamente precisam ser feitos. Com uma produção total estimada em 33,5 bilhões de litros para 2020, estima-se que o país estaria deixando de produzir 85 milhões de toneladas de gases do efeito estufa. Grandes ganhos ambientais proporcionados pelo setor!

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar agora em outubro na cadeia da cana:

  1. A recuperação do consumo no mercado interno com a volta da atividade econômica. Ao fechar esta coluna pelos dados da SCA o litro do hidratado estava R$ 2,28 com impostos nas usinas e o anidro a R$ 2,31. Ao fechar esta coluna o barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 41,4 por barril. A Arábia Saudita dando declaração que acredita em preços médios de US$ 50 nos próximos 3 anos.
  2. Acompanhar os impactos do coronavírus no consumo mundial do açúcar. Ao fechar a coluna o açúcar a cerca de 13,1 cents/libra peso na tela de outubro. Com o câmbio atual, é um elevado preço em reais. 
  3. Os impactos desta seca e elevado calor no rendimento desta safra e principalmente no desenvolvimento da safra 2021/22.
  4. O comportamento das exportações de açúcar do Brasil, que vêm surpreendendo as melhores apostas agora em outubro com a desvalorização do real.
  5. Observar o que deve acontecer com as tarifas e cotas para o etanol americano entrar no Brasil e se teremos contrapartidas de acesso às necessidades de açúcar dos EUA, que seria a minha estratégia.

Valor do ATR: Começamos em abril com o ATR a R$ 0,70/kg. Em maio, caiu para R$ 0,6934 continuando a cair em junho para R$ 0,6765 e em julho para R$ 0,6588, trazendo o acumulado para a mínima do ano, R$ 0,6761. A partir de então os ganhos vem sendo expressivos, com agosto fechando a R$ 0,6939 e setembro a algo próximo a R$ 0,73. Com isto o acumulado já chegou perto de R$ 0,69. Minha previsão feita no inicio da safra de valor final de R$ 0,707 está hoje conservadora. Hoje creio que encostaremos no R$ 0,73 até o final da safra (valor acumulado)

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, e outros materiais no site doutoragro.com e vídeos no canal do YouTube (marcos fava neves) e no Market Club da Credicitrus, a quem agradeço pelo apoio. Este texto contou com a inestimável ajuda de Vinicius Cambaúva e Vitor Nardini Marques.

Análises e conjunturas

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