Análise mensal | Cana de açúcar | Janeiro 2021

As Perspectivas para a Cana Ficaram Ainda Melhores

Boletim Cana30: resumo de dezembro e os pontos selecionados para janeiro

Prof. Dr. Marcos Fava Neves

Vamos aos nossos fatos relevantes do mês de dezembro e as perspectivas para janeiro. Na cana…  A moagem de cana-de-açúcar na região Centro-Sul atingiu 596,93 milhões de toneladas em sua posição acumulada até 16 de dezembro, o que equivale a um aumento de 3,21% em relação ao mesmo período do ciclo passado, segundo dados da Unica. A produção de etanol totalizou 29,14 bilhões de litros (-8,95%) com mix de 53,76%, enquanto que no açúcar foram produzidas 38,18 milhões de toneladas (+44,24%), representando 46,24% do mix. O ATR chegou à marca de 145,16 kg/tonelada, contra os 139,20 kg/tonelada da safra 2019/20. 

Até o final da safra, a Unica estima um processamento total de 605 milhões de toneladas na região Centro-Sul. O mix de produção deverá fechar em 46,04% para a açúcar (34,33% na safra 2019/20) e 53,96% para o etanol.

Para os próximos três meses, a pluviosidade no estado de São Paulo deve ser até 250 mm, superior à média histórica, o que favorecerá os canaviais em desenvolvimento – segundo a Safras & Mercados. A consultoria alerta que a atenção deverá ser voltada à outras regiões produtoras no Centro-Sul, onde as condições devem ser de déficit hídrico.

Segundo dados da B3, cerca de 17,9 milhões de CBios foram emitidos pelos produtores até o final de dezembro, sendo que 13 milhões (87% da meta) estariam já nas mãos das distribuidoras. Para 2021, a ANP projeta emissões de CBIOs na faixa de 30,9 a 32,4 milhões de títulos, bem acima da meta de 24,8 milhões estipulada para o ano. Segundo a organização, cerca de 60% das usinas devem estar certificadas ao final do primeiro semestre (atualmente são 56%). 

A situação atual do setor sucroenergético tem levado a uma onda crescente de consolidação. De acordo com levantamento do RPA, Datagro e Valor, oito usinas já foram adquiridas em 2020, em consequência principal de falências e recuperações judiciais.  Em 2021, as usinas de cana-de-açúcar devem encontrar condições mais positivas, segundo a agência Fitch Ratings. A organização prevê um leve aumento nos preços do açúcar, uma recuperação do barril de petróleo (de US$ 41 para US$ 45) e câmbio ainda desvalorizando o real.

A UISA e YEB estão lançando a Certify 2B, um sistema que busca reduzir as burocracias e riscos no processo de homologação de fornecedores de cana, a partir da utilização de big data, inteligência artificial e machine learning. A certificação funciona por meio de consulta pública em mais de 300 bases de dados oficiais e registros de fornecedores.

Na safra atual, a BP Bunge deve faturar em torno de R$ 6 bilhões, com moagem de 28 milhões de toneladas de cana. A empresa tem elevado seus resultados em produtividade em vistas a utilização de tecnologias de big data, inteligência artificial, IoT, robótica e outras.

A Jalles Machado fechou o 2º trimestre do ciclo 2020/21 com um lucro líquido de R$ 48,7 milhões, 173% a mais que no mesmo período da safra passada. Já a receita bruta da usina somou R$ 580,08 milhões, crescendo 15,5%. A empresa é a maior exportadora global de açúcar orgânico.

A Socicana, associação de produtores de cana de Guariba – SP, concluiu as primeiras vendas de créditos de cana-de-açúcar certificada pela Bonsucro à uma organização do exterior. É a primeira vez que uma associação formaliza esse tipo de transação em nível global.

No açúcar…Novas estimativas da Unica apontam para uma safra de 38,4 milhões de toneladas no Centro-Sul, volume 43,5% maior que no ciclo anterior. Já a Conab estima um total de 41,8 milhões de toneladas em todo o país (+40,4%). O teor de ATR deve fechar a safra em 144,70 kg por toneladas de cada, valor mais alto desde a safra 2013/14. Segundo a Unica, o aumento no índice do ATR contribuiu para produção adicional de 2,5 milhões de toneladas de açúcar.

O Brasil bateu recordes nas exportações de açúcar, fechando o ano com 31 milhões de toneladas. Foram 12 milhões a mais que as 19 milhões exportadas em 2019. As exportações renderam US$ 8,831 bilhões quase 65% a mais que os US$ 5,368 bilhões de 2019. No acumulado desta safra (abr-nov), as vendas externas já somam 23,7 milhões de toneladas, 79,2% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Apenas em dezembro foram praticamente 3 milhões de toneladas, o dobro em relação ao dezembro do passado. 

O governo indiano aprovou a liberação de 35 bilhões de rúpias (US$ 475,78 milhões) para subsidiar a produção de açúcar no país e garantir a exportação de 6 milhões de toneladas no ciclo 2020/21. Nos dois primeiros meses do ciclo comercial (out-nov), as usinas da Índia já produziram 4,29 milhões de toneladas de açúcar, crescimento de 107% frente ao mesmo período de 2019. 408 usinas iniciaram a moagem até o final de novembro, número bastante superior as 309 no ano passado. Este subsídio foi abaixo do que esperava o setor, mas como sempre fará estrago no mercado, prejudicando principalmente o Brasil. 

A BP Bunge fixou os preços de 60% de suas vendas de açúcar para 2021, e outros 40% para 2022. Segundo a companhia, a alta de preços em Nova York e a desvalorização da moeda local foram os fatores que motivaram a ampliação nas vendas em mercado futuro.

No etanol…no acumulado da safra 2020/21, a comercialização de etanol sofreu queda de 11,2%, totalizando 21,75 bilhões de litros até a 16 de dezembro (UNICA). Se por um lado as vendas domésticas caíram 13,2%, somando 19,96 bilhões de litros, as exportações cresceram 38,6%, totalizando um volume de 2,05 bilhões de litros. No entanto, as exportações ainda não são expressivas a ponto de equilibrar a balança para o etanol.

As estimativas apontam para o fechamento da safra com uma produção de 30,4 bilhões de litros, redução de 8,4%. Em nível nacional, a Conab projeta uma produção total de 32,8 bilhões de litros até o fim do ciclo atual.

Nas exportações, entre janeiro e novembro, foram embarcados 2,43 bilhões de litros de etanol (+36%), rendendo ao Brasil cerca de US$ 1,1 bilhão, 17% a mais que no mesmo período de 2019. Apenas em novembro foram exportados US$ 141 milhões, 54,4% superior ao de novembro do ano anterior. Já o volume comercializado externamente foi de 253 milhões de litros (+74,5%).

 A FS Agrisolutions anunciou a captação de mais de US$ 550 milhões em títulos verdes, ou “green bonds”. Essa é a primeira vez que a companhia realiza emissão no mercado internacional. Os títulos têm vencimento em 5 anos e uma taxa de retorno de 10%.

Segundo o IMEA, a demanda de milho para a produção do etanol no Mato Grosso deve crescer 17,96% na safra 2020/21. Com isso, a organização estima aumento de produção em segunda safra, com volume total de 36,29 milhões de toneladas, 2,38% maior que o registrado na safra passada.

Entre janeiro e outubro, o consumo de combustíveis caiu 10,1% em relação ao ano passado, com um volume de gasolina equivalente de 39,8 bilhões de litros, segundo a ANP. Os biocombustíveis representam 47% do total, que era de 48,3% em 2019. Para o etanol hidratado, o consumo entre janeiro e outubro caiu 15,6% (16,6 bilhões de litros), e para o mês de outubro, a redução foi de 9,1% em relação ao mesmo mês de 2019, com 1,87 bilhão de litros vendidos. Boa notícia, a queda tem ficado menor. 

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar agora em janeiro na cadeia da cana:

  1. O consumo de etanol no mercado interno agora nas férias e a evolução dos estoques. Ao fechar esta coluna pelos dados da SCA o litro do hidratado estava R$ 2,50 com impostos nas usinas e o anidro a R$ 2,55. O barril do petróleo tipo Brent estava em US$ 54, uma grande recuperação no mês, que deve trazer aumento no preço da gasolina e dar mais espaço ao etanol.
  2. Acompanhar os impactos do coronavírus no consumo mundial do açúcar. Ao fechar a coluna o açúcar a cerca de 15,6 cents/libra peso na tela de março de 2021. Com o câmbio atual, é um elevado preço em reais. Produções menores na Europa e Tailândia e na próxima safra brasileira podem compensar a produção maior da Índia. Observar também as compras chinesas, que foram muito boas em 2020, se serão mantidas em 2021. A Alvean, trading da Copersucar e Cargill projetou dois anos seguidos de déficit na produção, totalizando 11 milhões de toneladas (5 milhões em 20/21 e 6 milhões em 21/22). A Copersucar aposta em 580 milhões de toneladas de cana no Centro Sul na safra 21/22.
  3. Efeito do clima na produção da safra 2021/22. Dezembro e o início de janeiro trouxeram excelentes chuvas no Centro Sul, torcer pela recuperação dos canaviais para quem sabe chegar mais perto do tamanho da safra 2020/21.
  4. Exportações de açúcar do Brasil que estão incrivelmente altas e estoques caindo, o que pode refletir na situação da próxima safra e preços no mercado interno;
  5. Políticas de Joe Biden nas questões ambientais, de uso do etanol de milho e nas pressões internacionais. 

Valor do ATR: Começamos em abril com o ATR a R$ 0,70/kg. Em maio, caiu para R$ 0,6934 continuando a cair em junho para R$ 0,676 e em julho para R$ 0,66, trazendo o acumulado para a mínima do ano, R$ 0,676. A partir de então os ganhos vêm sendo expressivos, com agosto fechando a R$ 0,694 e setembro próximo a R$ 0,73, outubro com pouco mais de 0,79 e novembro/dezembro ao redor de 0,82. Com isto o acumulado já chegou em R$ 0,73. Hoje creio que encostaremos no R$ 0,75 até o final da safra (valor acumulado).

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, e outros materiais no site doutoragro.com e vídeos no canal do YouTube (marcos fava neves) e no Market Club da Credicitrus, a quem agradeço pelo apoio. Este texto contou com a inestimável ajuda de Vinicius Cambaúva e Vitor Nardini Marques, co-autores. 

Análises e conjunturas

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