Marcos Fava Neves / Vinícius Cambaúva

Vitor Nardini Marques / Daniel Bocca Mancini

No âmbito internacional, o relatório de oferta e demanda global de commodities agrícolas, divulgado pelo USDA, trouxe poucas novidades para o ciclo 2021/22 neste mês. Assim, segundo a previsão, a produção global de milho deve alcançar 1,195 bilhão de toneladas, revelando ajustes de +5 milhões de toneladas em comparação a junho e incremento de 6,6% frente ao ciclo passado, enquanto os estoques foram para 291,18 milhões de toneladas (+4,0%). A colheita do cereal no Brasil está estimada em 118 milhões de toneladas (+26,9%), enquanto que Estados Unidos e Argentina devem produzir, respectivamente, 385,21 milhões (+6,9%) e 51 milhões de toneladas (+5,2%). Na soja, são esperadas 385 milhões de toneladas (+6,0%) com estoques de 94,49 milhões de toneladas (+3,3%). O Brasil deve liderar a produção da oleaginosa, colhendo 144 milhões de toneladas (+5,1%), seguido pelos Estados Unidos com 119,88 milhões de toneladas (+6,5%), e pela Argentina, com 52 milhões de toneladas (+11,8%).

Ainda na esfera global, o índice da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que mensura os preços internacionais das commodities, evidenciou retração 2,5%, depois de 12 meses consecutivos de alta, atingindo agora 124,6 pontos. Essa queda é consequência da redução dos preços de óleos vegetais (-9,8%) e cereais (-2,6%). Mas, mesmo assim, o indicador segue 33,9% superior ao valor do mesmo mês de 2020.

Com relação à previsão nacional, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima que a produção brasileira de grãos no ciclo 2020/21 deva alcançar 260,8 milhões de toneladas, um aumento de 1,5% em comparação ao ciclo anterior. O fechamento dos dados ainda depende da colheita das culturas de segunda, terceira safra, e de inverno. No milho safrinha, a produção deve atingir quase 67 milhões de toneladas, queda de 4,3% em comparação à previsão de junho e de 10,8% frente à safra passada. Dessa forma, a produção total do cereal deve ser de 93,4 milhões de toneladas, 9% a menos que em 2019/20. Para soja (dados quase fechados), espera-se recorde de 135,9 milhões de toneladas (+8,9%) em 38,5 milhões de hectares (+4,2%) e, no algodão, a expectativa é de se produzir 2,3 milhões de toneladas de pluma (-22%) em uma área 1,37 milhão de hectares (-17,9%).

Mesmo com o cenário de queda na oferta de milho safrinha e risco de alguns contratos de fornecimento não serem cumpridos, a indústria de etanol de milho mantém sua expectativa de produzir 3,3 bilhões de litros no ciclo 2021/22. As usinas operam com um estoques mínimos de segurança do cereal, em alguns casos superiores a 70%, garantindo a utilização da capacidade instalada em mais de 85%.

Outra atualização divulgada pela Ministério da Agricultura no início de julho foi o VBP (Valor Bruto da Produção Agropecuária), que em 2021 deve atingir a incrível marca de R$ 1,099 trilhão, superando o do ano anterior, de R$ 955 bilhões, em 10,5%. O faturamento das lavouras está estimado em R$ 753,2 bilhões (+13,8%), sendo que o milho deve representar 12% desse montante, ou seja, o R$ 131,5 bilhões (+15,7%).

Nas exportações, mais um mês bastante favorável ao agro brasileiro. Os embarques do de junho somaram US$ 12,1 bilhões, o que representa um crescimento de 25% em comparação ao mesmo mês de 2020. Os preços estão em média 30,4% superiores, explicando o resultado consistente. O complexo soja foi o destaque do mês, exportando US$ 6,2 bilhões (+24%), sendo que 85% desse valor corresponde à soja em grão. As carnes aparecem na segunda posição vendendo US$ 1,8 bilhão (+27%); na sequência aparecem os produtos florestais, com embarques de US$ 1,2 bilhão (+24%); complexo sucroenergético, com US$ 1,1 bilhão (+27%); e café, que alcançou US$ 454 milhões (+40%).

No primeiro semestre de 2021 o Brasil já exportou US$ 61,5 bilhões (+20,8%), deixando um saldo de US$ 54 bilhões na balança do agro. A China foi nosso principal parceiro comercial, representando quase 40% de nossas vendas totais.

Enquanto isso, as vendas externas de milho totalizaram apenas US$ 18,96 milhões (-62%) em junho. Já as receitas mensais ficaram em torno de US$ 18,9 milhões, queda de 62,1% em comparação a junho passado, onde a receita ficou em US$ 49,9 milhões. O atraso no plantio e, consequentemente, na colheita da safrinha devem alterar o fluxo de exportações do cereal. Algumas empresas estão deixando de cumprir seus contratos de exportação (firmados em R$ 40 a 45/saca), pagando o valor de liquidação à contraparte, mecanismo conhecido como “washout”, para redirecionar o produto para o mercado doméstico, visto os preços praticados nas praças nacionais (próximos a R$ 90/saca). Especialistas apontam que podemos viver a maior onda de cancelamento de embarques brasileiros dos últimos cinco anos.

No estado do Paraná, as geadas ocorridas entre junho e julho devem prejudicar a oferta de milho safrinha do ciclo 2020/21. De acordo com o Departamento de Economia Rural do estado, apenas 12% das lavouras estão em condições boas, enquanto que 42% apresentam condições ruins e os outros 46%, intermediárias. Dessa forma, a expectativa de produção é de 9,82 milhões de toneladas, 19% a menos que no ciclo passado.  Quanto ao rendimento médio, espera-se queda de 22%, de 5.166 para 4.020 kg/hectare.

Partindo para o Nordeste, na Bahia, o governo estadual reduziu de 12% para 2% a alíquota de ICMS incidente nas operações interestaduais com milho. Dessa forma, a renúncia de receita pelo órgão público é de aproximadamente R$ 4 milhões e tem como objetivo amenizar os custos das cadeias que utilizam o cereal com matéria-prima.

Foi lançado em julho o relatório da OECD-FAO sobre as projeções da produção global de alimentos até 2030. Nele, o papel do Brasil como grande protagonista na exportação de alimentos é reforçado, principalmente para as cadeias de carne bovina, soja, açúcar e milho.

No cereal, a produção nacional deve responder por 9% do volume global em 2030, enquanto que as exportações devem corresponder por 20% do total movimentado globalmente.

O MAPA também divulgou suas projeções para a produção nacional das principais culturas agrícolas. Assim, o Brasil deve alcançar uma produção de 333 milhões de toneladas de grãos em 2030/31, crescimento de 27% (+72 milhões de toneladas) em uma área de 81 milhões de hectares (+17,6%). A produção de milho primeira safra deve crescer 28,7%, enquanto a safrinha aumentará seu volume em 45,3%.

Ao término desta coluna, no dia 15 de julho, o preço do milho no mercado doméstico era de R$ 98,01/saca, contra R$ 89,56/saca do mesmo período do mês anterior, evidenciado crescimento de 9,4%; esse valor também equivale a duas vezes o preço do mesmo período de 2020, de R$ 49,40/saca.

Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar agora diariamente em agosto são:

  1. A evolução da colheita do milho safrinha em território nacional, bem como os impactos do atraso de plantio, secas e geadas na produtividade. As perdas devem ser significativas para o período;
  2. O desempenho das lavouras nos Estados Unidos. A expectativa é de uma boa colheita nas regiões leste e sul do “corn belt”, mas há preocupações com a falta de umidade no norte e oeste;
  3. O comportamento de “washout” nos contratos do cereal, redirecionado o produto para o mercado doméstico e potenciais impactos na oferta internacional;
  4. Os valores do câmbio e as perspectivas econômicas com a aceleração da vacinação;
  5. A evolução dos custos para o plantio da safra 2021/22, as decisões de compra e venda.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

Vinícius Cambaúva e Vitor Nardini Marques são Consultores Associados na Markestrat Group.

Daniel Bocca Mancini é Estagiário na Markestrat Group.

* Agradecimentos à equipe Nidera e todos os envolvidos no Projeto Somos Milhões.

Análises e conjunturas

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