Análise mensal | Pecuária | Julho 2021

Edição 08 – Julho

Marcos Fava Neves

Vinícius Cambúva
Beatriz Papa Casagrande

Iniciamos nosso boletim com o resumo do desempenho exportador do agro brasileiro em junho, que cresceu incríveis 25% na comparação com o mesmo mês de 2020. Atingimos US$ 12,1 bilhões em receitas, contra US$ 9,7 bilhões em junho do ano passado. Mesmo os volumes tendo caído 4%, os preços estão em média 30,4% maiores. Com isso, nos primeiros seis meses, vendemos US$ 61,5 bilhões, deixando um saldo de US$ 54 bilhões. Um incrível crescimento de quase 21% na comparação com o primeiro semestre de 2020. Vale destacar que quase 40% de todas as vendas foram para a China.

Para os produtos das cadeias da pecuária, a carne bovina bateu seu recorde para um mês de junho, chegando a US$ 834 milhões, 13% acima do ano passado, mesmo com queda de quase 7% no volume (164,3 mil toneladas). Já as carnes de frango e suína cresceram, em termos de receita, 46% (US$ 636 milhões) e 36% (US$ 270 milhões), respectivamente. O volume exportado de carne de frango em junho foi de 385 mil toneladas e o da suína fechou em 107 mil toneladas.

Já os preços de exportação para carnes in natura, fecharam em alta para as três cadeias em junho. A carne de frango foi a que apresentou maior variação percentual no comparativo mensal, de 26,8%, com o preço médio da tonelada fechando em R$ 1.613,92. Na sequência, aparece a carne suína, que teve preços em R$2.611,10 por tonelada, aumento de 21,04%. Por fim, mas não tão distante, o preço da carne bovina cresceu 20,5% em junho deste ano, com valor mensal de R$ 5.181,32 por tonelada.

Um destaque interessante para o mês de junho foi a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de carne bovina; foram 8,78 mil toneladas exportadas. No mês passado, nós já havíamos comentado sobre o aumento na participação norte-americana nas compras do Brasil e, ao que tudo indica, esse comportamento deve se manter nos próximos meses. No 1° semestre de 2021, 42,5 mil toneladas de carne bovina foram embarcadas para o país, mais que o dobro do mesmo período de 2020 (+151,4%).

No cenário internacional, segundo estimativas do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o rebanho global deve ultrapassar 1 bilhão de cabeças em 2021, crescimento de 0,7% em relação à 2020, e um volume adicional de 6,4 milhões de animais. Índia, Brasil, Estados Unidos, China, União Europeia, Argentina e Austrália detém 90% do rebanho global, sendo que Índia e Brasil lideram com 30,6% e 24,7% de participação, respectivamente.

Em termos de produção de carne bovina, o relatório estima 61,16 milhões de toneladas equivalente de carcaça em 2021, crescimento anual de 1%. Estados Unidos seguirão sendo o maior produtor, com 20%, seguido do Brasil (16,8%), União Europeia (12,5%) e a China (11,5%).

No consumo, o USDA aponta para 60,04 milhões de toneladas de carne bovina, ou 98,2% da produção total, crescimento de 1,6% em comparação ao ano passado. Entre os players, Estados Unidos seguirão como maior consumidor (20,8%), seguido de China (16,8%) na segunda posição. O estudo indica que o Brasil deve ultrapassar a União Europeia já em 2021, e se tornar no 3° maior consumidor global; nosso país deve participar de 12,9% (7,73 milhões de toneladas), enquanto a União Europeia deve responder por 12,8% (7,69 milhões de toneladas).

Por fim, o relatório do USDA indica que a produção mundial de carne bovina em 2027 deve ser de 79,3 milhões de toneladas, aumento de quase 30% (1,28% por ano), sendo que o Brasil deve se consolidar ainda mais como fornecedor global da proteína.

Para os grãos, o USDA trouxe poucas novidades sobre a oferta e demanda em 2021/22. A produção global de soja foi mantida na faixa das 385 milhões de toneladas (+ 6,0% neste ciclo), sendo que o Brasil deve liderar a produção com 144 milhões de toneladas (+5,1%). No milho, a produção mundial foi reajustada em 5 milhões de toneladas, agora estimada em 1,195 bilhão de toneladas. A produção brasileira do cereal foi projetada em 118 milhões de toneladas (+26,9%).

No Brasil, a Conab estima uma produção total de grãos em 260,8 milhões de toneladas, considerando que a produção total de milho deve ser de 93,4 milhões de toneladas (- 9,0% nesta safra), e a de soja (dados praticamente consolidados) deve fechar em 135,9 milhões de toneladas (+8,9%).

De volta ao mercado global, no início de julho foi divulgada a mais nova versão do “OECD-FAO Agriculture Outlook”, um dos mais importantes estudos com as projeções da produção global de alimentos. No relatório, as entidades estimam que o Brasil ampliará o seu papel como exportador, especialmente para produtos como a carne bovina, a soja, o açúcar e o milho.

Na carne bovina, o crescimento na produção global foi estimado em 6% até 2030 (4 milhões de toneladas adicionais), enquanto o consumo per capita global deve diminuir 5%. O estudo aponta que a Argentina e o Brasil devem reduzir o consumo per capita em 7,0% e 6,0%, respectivamente. Por outro lado, para a China, a expectativa é de alta de 8%; vale lembrar que o país asiático vem de um incremento de 35% na última década. Em termos de produção, o Brasil deve se manter estável nos próximos 10 anos, apesar de que as exportações poderão crescer 38% no período; para os EUA, o aumento deve ser de 12%. Com isso, a expectativa é que o Brasil participe de 22% do mercado global de carne bovina em 2030.

Na cadeia do frango, o relatório estima que a produção brasileira deve crescer cerca de 16%, enquanto os embarques serão acrescidos em 26% nos próximos 10 anos; para os EUA, o incremento deve ser de 14%. Um destaque importante trazido pelo estudo é a redução na demanda da China por carne de frango, até 2030, que deverá ser de 18%, ampliando a pulverização das exportações para os demais mercados globais.

De volta ao Brasil, no Mato Grosso, principal estado produtor, o IMEA (Instituto Mato Grossense de Economia Aplicada) divulgou relatório onde mostra que o total de animais abatidos cresceu 4,7% em junho, em comparação com maio. Além disso, a utilização da capacidade industrial também cresceu, fechando em 76,7% para o mês, em função do retorno das atividades de industrias paralisadas. Com isso, 85% das indústrias encontram-se em operação no estado.

Já um levantamento divulgado pela ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carnes) mostrou que o consumo per capita de carne bovina caiu 5,0% em 2020, para 36 kg por pessoa. O relatório também mostra que, em virtude dos altos preços da proteína bovina (aumento de 29,5% em 2020), outras fontes passaram a ser preferência para os brasileiros; o consumo de ovos cresceu 9,0% e o de frango, 7,0%.

Pra fechar nosso resumo, na última semana de julho, em reunião pré-cúpula dos Sistemas Alimentares, organizado pela ONU em Roma, líderes da América do Sul defenderam a sustentabilidade da produção no continente, com foco especial na pecuária, e tentando blindar o agro sul-americano frente as críticas europeias. A ministra Tereza Cristina esteve presente, representando o Brasil, e junto com outros países sul-americanos, apresentou um documento com 16 tópicos de consenso à líderes mundiais e especialistas no setor. O documento, que obteve apoio do IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura), teve como principal ponto o argumento de que a agropecuária não pode ser considerada a grande responsável pelo aquecimento global, reforçando as altas emissões com a queima de combustíveis fosseis. Além disso, no cenário brasileiro, o esforço esteve em demonstrar a sustentabilidade da pecuária no país, que tem utilizado práticas de baixa emissão de C02 e trabalhado para preservação da floresta amazônica.

Na conclusão desta coluna, os preços do agro pelas cotações do CEPEA/USP, fechavam nos seguintes valores: a arroba do boi gordo em São Paulo era cotada em pouco mais de R$ 317/arroba; o bezerro, no Mato Grosso do Sul, estava em R$ 2.921/cabeça; a soja, estava em pouco mais de R$ 169/saca; e no milho, a cotação atual estava em R$ 101/saca.

Os cinco fatos da pecuária e do agro para acompanhar agora diariamente em agosto são:

  1. Desempenho exportador do Brasil em julho, especialmente em relação à carne bovina. Ao que tudo indica, a China deve seguir importando volumes consideráveis.
  2. Possibilidades de novos casos da Peste Suína Africana (PSA) na Ásia e na Europa.
  3. O consumo interno das proteínas animais, especialmente da carne bovina, em vista da recuperação da economia e a aparente melhora nos casos de Covid-19 no país.
  4. A evolução dos custos de produção da pecuária, o monitoramento do câmbio e as decisões de compra/venda de produtos e insumos: precisamos analisar o mercado, calcular as relações de troca e buscar informações para tomada de decisão!
  5. Impactos do clima na produção da pecuária de corte. Muitas áreas de pastagens foram afetadas por secas e geadas, e os produtores vão precisar adquirir mais grãos para alimentação animal; aumento nos custos de produção!

Este conteúdo faz parte do Projeto Carne do Bem. Agradecemos à equipe Nutron pelo apoio!

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

Vinícius Cambaúva é Associado na Markestrat Group, formado em Engenharia Agronômica pela FCAV/UNESP e aluno de mestrado na FEA/USP em Ribeirão Preto – SP.

Beatriz Papa Casagrande é estagiária na Markestrat Group e graduanda em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP em Piracicaba – SP

Análises e conjunturas

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