Efeitos do clima na produção de milho: 4,3 milhões de toneladas a menos em 1 mês!
Marcos Fava Neves
Vinícius Cambaúva
Daniel Bocca Mancini
Clara Guerreiro
O nosso resumo mensal começa com o destaque para os dados do boletim de janeiro da Companha Nacional de Abastecimento (Conab), relativo à safra de grãos 2021/22. Segundo o relatório, a produção de grãos neste ciclo deve ficar em 284,4 milhões de t; volume 2,3% menor que o estimado no mês anterior ou 6,7 milhões de t a menos – efeito das fortes secas, que vamos comentar na sequência. Ainda assim, a produção total deve ficar 12,5% maior que a registrada no ciclo anterior. Já a área deve crescer 4,5%, ficando em torno de 72,1 milhões de ha.
Na cultura do milho, a produção esperada é de 112,9 milhões de t (+29,7%), em uma área de 20,9 milhões de ha (+5,1%). O cereal é outra cultura que tem sido fortemente afetada pelo clima; vale lembrar que no relatório anterior, a estimativa era de 117,2 milhões de t, ou seja, 4,3 milhões de t a menos de produção em 1 mês! Na soja, a estimativa é de 140,5 milhões de t (+2,3%) em uma área de 30,4 milhões de ha (+3,8%). Por fim, o algodão deve entregar 2,71 milhões de t de pluma (+14,8%) em uma área estimada em 1,53 milhão de ha (+12,5%).
O clima é, em mais uma safra, o principal desafio dos produtores brasileiros. De um lado, o alto índice de chuvas em regiões do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), especialmente nos estados de Tocantins e da Bahia, tem prejudicado as lavouras por conta do excesso de umidade. De outro, no Mato Grosso do Sul e em outros estados do Sul do Brasil, a estiagem já dura semanas e jogou pra baixo as estimativas de produção – ambos efeitos opostos do fenômeno La Niña.
No Paraná, o governo do estado já indica uma produção de grãos 40% menor nesta safra verão por conta das secas. Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), em relatório divulgado no dia 04 de janeiro, as condições das lavouras de milho haviam piorado bastante, de 13% para 25% (níveis ruins) em apenas 15 dias. No estado vizinho, Rio Grande do Sul, a Rede Técnica Cooperativa estima perdas de 59,2% no milho sequeiro, 13,5% no milho irrigado e cerca de 24,0% na soja. Os prejuízos totais nas lavouras já são calculados em R$ 19,8 bilhões, segundo a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS).
Na vizinha, Argentina, representantes do Departamento de Estimativas Agropecuárias da Bolsa de Buenos Aires afirmam que haverá revisão interna da oferta total de milho este ano, devido à seca e ao clima quente que também tem afetado o país; vale lembrar que a estimativa atual está em 57 milhões de toneladas. Mais do que nunca, é hora de acompanhar estes eventos e entender como será o comportamento do mercado com as notícias do clima.
Do lado das operações, a Conab aponta que até o dia 15 de janeiro, o plantio de algodão no Brasil alcançava 48,3% da área total, contra 37,6% na mesma data de 2021. Para o milho verão, o órgão indica o início da colheita, com progresso em 4,4% da área total, frente a 4,0% na mesma data de 2020/21; destaque para o Rio Grande do Sul que já alcança 20,0% de área colhida. Na soja, a colheita está em 1,7% da área total, contra 0,3% na mesma data de 2021. Ainda assim, o excesso de chuvas tem impossibilitado o início das operações em algumas regiões e já preocupa os produtores. Vale lembrar que o atraso na colheita da leguminosa pode comprometer o desempenho da 2ª safra de milho, como vimos no ciclo passado.
Em âmbito internacional, o relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) relativo à safra global 2021/22 reestimou a produção de milho em 1.206,9 milhões de t; 0,1% menor que o valor do mês anterior, mas 7,5% maior que a oferta da safra passada. A redução neste mês se deu especialmente pela revisão na oferta dos seguintes países: no Brasil, a produção foi de 118,0 (dezembro) para 115,0 milhões de t (-2,5%); na Argentina, de 54,5 para 54 milhões de t (-0,9%); e na União Europeia de 70,4 milhões de t para 69,9 (-0,5%). Na China, a estimativa de produção do cereal foi mantida em 272,5 milhões de t; e nos EUA o dado foi revisto para cima, agora em 383,9 milhões de t (+0,3%). Já os estoques globais do milho foram estimados em 303,0 milhões de t, alta de 3,7% em comparação com o ciclo 2020/21.
Na soja, a produção global também foi reajustada para baixo este mês, indicada agora em 372,6 milhões de t; 2,4% menor que o relatório de dezembro, mas 1,7% maior que a produção de 2020/21. A redução na oferta global é resultado das seguintes revisões neste mês: no Brasil, a produção foi reestimada de 144,0 milhões de t para 139,0 milhões de t (-3,5%); na Argentina de 49,5 milhões de t para 46,5 milhões de t (-6,0%); e no Paraguai de 10,0 milhões de t para 8,5 milhões de t (-15,0%). A produção nos EUA foi mantida em 120,7 milhões de t. Com isso, os estoques globais da oleaginosa devem ficar em 95,2 milhões de t, redução de 4,7% em relação ao registrado no ciclo 2020/21. Vamos ver como será a reação dos mercados, mas é essencial seguirmos acompanhando estes números nos próximos meses!
Em dezembro de 2021, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram mais um recorde para o mês, na comparação com o mesmo período de 2020; foram US$ 9,88 bilhões vendidos (+36,5%) e volume de 15,6 milhões de t (+11,4%). A alta nas receitas foi justificada tanto pelo aumento no volume embarcado, como na alta de 22,5% nos preços dos produtos. O top 5 na pauta de exportação foi composto por: 1°) complexo soja com US$ 2,26 bilhões (+341,4%); 2°) carnes com US$ 1,67 bilhões (+10,9%); 3°) na terceira posição aparecem os produtos florestais, com vendas em US$ 1,39 bilhões em dezembro (+50,9%); 4°) cereais, farinhas e preparações, com US$ 1,05 bilhão (+4,3%); 5°) e, por fim, temos o complexo sucroenergético com receitas em US$ 854,1 milhões (-12,2%).
Já as importações do setor em dezembro de 2021 somaram US$ 1,43 bilhão, alta de 5,6%. Trigo e milho foram os dois principais produtos comprados no mercado externo pelo Brasil: US$ 126,4 milhões (+88,9%) e US$ 106,4 milhões (+181,7%), respectivamente. Com isso, o setor entregou um saldo positivo de US$ 8,45 bilhões no mês.
No total de 2021, o agro brasileiro acumulou recordes nas vendas externas! Foram US$ 120,6 bilhões em exportações (+19,7%), que descontado os US$ 15,5 bilhões em compras (+19,2%), renderam saldo de US$ 105,1 bilhões (+19,9%); US$ 17,4 bilhões a mais em um ano!
Olhando em detalhe para a cadeia do milho, em dezembro de 2021, foram exportados 3.488 mil toneladas de milho, queda de 28,1% na comparação com o mesmo mês de 2020. Já as receitas somaram US$ 795,0 milhões, baixa de 12,4%. Com os dados fechados do ano, 2021 encerrou com 20,4 milhões de toneladas de milho exportadas (-40,7%), cerca de 14 milhões de toneladas a menos; e uma receita de US$ 4,14 bilhões, 28,0% menor que o ano anterior. A queda menor da receita em comparação aos volumes se deu por conta da valorização dos preços do cereal no mercado internacional, que foi de 20,8%.
Apesar do desempenho inferior nos embarques e do crescimento no volume importado de milho em 2021, dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) indicam que o Brasil iniciou 2022 comprando menos milho; a média diária dos primeiros 5 dias úteis do mês foi de 7,6 mil toneladas, queda de 45,5%. Já o preço da tonelada cresceu 37,6% no período, saltando de US$ 167,00 para US$ 229,90.
Ainda sobre os grandes números de 2021, o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPB) alcançou a incrível marca de R$ 1,129 trilhão, o que representa um crescimento de 10,1% frente a 2020 (R$ 1,025 trilhão), segundo dados apurados pelo Mapa (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento). As lavouras faturaram R$ 768,4 bilhões (+12,7%), enquanto que a pecuária somou montante de R$ 360,8 bilhões (+4,9%). Com relação às culturas, grande destaque ficou por conta de soja, milho e algodão, que juntos representaram quase 50% do total. Para 2022, o governo espera um VBP de R$ 1,162 trilhão, 2,9% superior ao obtido no ano passado. Estamos na torcida!
Segundo dados da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica), no acumulado da safra 2021/22 (abril até dezembro), a produção total de etanol atingiu 26,56 bilhões de litros, volume 9,33% inferior quando comparado ao do mesmo período do ciclo anterior. Desse total, as unidades produtoras de etanol de milho foram responsáveis por um volume de 2,57 bilhões de litros, ou seja, 9,7% do total produzido.
Na data de fechamento da nossa coluna, em 18 de dezembro de 2021, a cotação do milho pelo Cepea/USP estava em R$ 97,39/saca (60kg), crescimento de 11,7% em comparação com a mesma data do mês anterior (R$ 87,18/saca); e de 14,6% na comparação com 18 de janeiro de 2021. Outros produtos de destaque no agro ficaram em: soja (Indicador Paraná) em R$ 174,06/saca (60kg), alta de 3,6% no comparativo mensal; o algodão em R$ 6,937/libra-peso, um crescimento de 8,3% na comparação com 18 de dezembro; e o boi gordo em R$ 333,95/arroba, preços também maiores, em 4,9%.
Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar diariamente em fevereiro são:
- Clima e as condições das lavouras: no Brasil, a dualidade de cenários (secas no sul e chuvas no centro-oeste e nordeste) já afetam de forma significativa a produção do milho verão. Vamos acompanhar e ficar na torcida para que as condições se normalizem e para que não tenhamos mais perdas.
- Colheita da soja e plantio da 2ª safra: nas principais regiões produtoras de soja, as chuvas (assim como no último ciclo) tem impossibilitado o início das operações de colheita. Vale lembrar que este ano, conseguimos antecipar o plantio da leguminosa. Ainda assim, é um ponto de grande relevância, já que os atrasos vão tirando o milho safrinha da janela ideal de cultivo.
- Estimativas de oferta e demanda de milho: recentemente, o USDA reduziu as projeções para a produção global de milho, enquanto que elevou o consumo e as importações. Acompanhar o desempenho nos principais países produtores é essencial para entender como será a dinâmica nos próximos meses e como isto vai afetar o mercado, especialmente em relação aos estoques finais.
- Cotações do cereal no mercado global: temos acompanhado uma forte valorização nos preços do milho a nível global, o que também elevou o valor no mercado interno. Como consequência, crescem os custos de produção das cadeias da pecuária, do etanol e de outras que utilizam o grão como matéria-prima.
- Contexto macroeconômico e político global e no Brasil: a continuidade da crise energética em países da Ásia, elevando os custos e limitando a oferta de insumos; os novos casos da variante ômicron (covid-19) agora também no Brasil; além do quadro político e econômico em nosso país e as consequências no câmbio.
Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.
Vinícius Cambaúva é Engenheiro Agrônomo e Consultor Associado na Markestrat Group.
Daniel Bocca Mancini e Clara Guerreiro são estagiários na Markestrat Group.
*Este conteúdo é parte integrante do projeto Somos Milhões, uma iniciativa da Nidera Sementes, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento em prol da cadeia brasileira de milho.
