Clima preocupa, mas estimativas para o milho safrinha seguem boas!

Marcos Fava Neves

Vinícius Cambaúva

Daniel Bocca Mancini

Clara Guerreiro

Nossa coluna inicia com destaque para o clima que, mais uma vez, fez com que diversos produtores ficassem em sinal de alerta! A possibilidade de geadas em algumas regiões foi o principal motivador, embora não tenham sido registrados danos relevantes as lavouras até o momento (queima de plantas e outros). Vamos torcer para que o frio seja mais tímido nos próximos meses. Por outro lado, a falta de chuvas já deixa suas marcas, tanto que a Consultoria AgRural reduziu suas projeções em 5 milhões de t para a região Centro-Sul entre abril e maio, por conta da falta de umidade em algumas localidades. Segundo a consultoria, a oferta do cereal deve ficar em 80,9 milhões de t; há 30 dias, a estimativa era de quase 86 milhões de t. As regiões mais afetadas pela falta de umidade são as áreas de plantio tardio no Mato Grosso e diversas áreas no estado de Goiás.

Se não bastasse as preocupações com o clima, a incidência de pragas e doenças também tem sido tópico em alta entre os produtores. No Paraná, a Embrapa estima que algumas áreas já estejam sofrendo quebra de 50% na produção por conta da incidência da cigarrinha do milho, inseto vetor dos complexos de enfezamento e uma das principais preocupações atuais no campo. Segundo a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), o uso de inseticidas para controle da cigarrinha subiu de 150 para 900 mls por hectare, devido a incidência da praga.

No 8° boletim mensal (maio) sobre a estimativa da safra brasileira de grãos em 2021/22, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou a expectativa da oferta para o ciclo: de 269,3 milhões de t em abril para 271,8 milhões de t em maio (2,5 milhões de t a mais). Com isso, a produção brasileira nesta safra deve ser 6,4% maior do que em 2020/21. Os principais acréscimos em termos de volume, no comparativo com os valores declarados em abril, vieram com a soja (+1,4 milhão de t), o milho (+592 mil t) e o trigo (+223 mil t). No milho, a oferta total deve ficar em 116,2 milhões de t (+33,4%), sendo que a 1ª safra deve entregar 24,7 milhões de t (-0,2%), a safrinha outros 89,3 milhões de t (+47,0%) e a 3ª safra 2,2 milhões de t (+36,3%). Para a soja, a produção estimada em maio foi de 123,8 milhões de t, 10,4% menor que o ciclo passado. No trigo, que também foi destaque para o mês, devemos produzir 8,13 milhões de t, 6,0% a mais do que no último ciclo. Os conflitos entre Rússia e Ucrânia e os altos preços do cereal no mercado internacional têm motivado os produtores brasileiros a cultivarem o grão, tanto que a área deve ser acrescida em 30 mil ha no Brasil. Por fim, para o algodão em pluma, a produção estimada é de 2,82 milhões de t, 19,5% a mais do que as 2,36 milhões de t do ciclo 2020/21. Na torcida para que o clima continue ajudando e estes números se concretizem!

No campo, a Conab estima que até 14 de maio, 96,8% da soja havia sido colhida no país contra 98,5% na mesma data do ano passado; Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins já concluíram as operações. No milho, a colheita da 1ª safra encontra-se com progresso de 80,1%; era de 73,2% no mesmo período do último ciclo. Já o plantio da 2ª safra foi concluído em todo país e as lavouras encontram-se nos seguintes estágios (média nacional): 50,4% está em enchimento de grãos; 26,9% sob floração; 6,9% ainda seguem em desenvolvimento vegetativo; e 15,7% já estão em maturação. No algodão, a Conab indica que a colheita foi iniciada nos estados do Mato Grosso do Sul e Bahia, mas o progresso ainda é lento (apenas 0,2%). Por fim, a safra de inverno do trigo está com 16,2% das áreas plantadas frente a 8,4% na mesma data de 2021; o cereal também larga na frente!

Em abril, as exportações do agronegócio brasileiro alcançaram a cifra de US$ 14,86 bilhões, valor 14,9% maior que a receita de abril de 2021 e representando 51,5% de todas as vendas externas do país. E adivinhem só: um novo recorde para o mês! A alta na receita foi motivada pelo aumento nos preços dos produtos de 31,8%, já que os volumes forem menores em 16,8%. Na liderança, o complexo soja exportou US$ 8,08 bilhões (+7,4%), embora os volumes tenham sido de 13,45 milhões de t (-24%); a redução na quantidade exportada pelo grupo é explicada pela baixa no volume de soja em grão embarcada, que foi 28,8% menor (11,47 milhões de t). Na segunda posição aparecem as carnes, com US$ 2,15 bilhões (+36,9%), sendo que a carne bovina exportou US$ 1,10 bilhão (+56,2%), a de frango US$ 802,8 milhões (+34,3%) e a suína US$ 191,22 milhões (-17,0%). Na sequência (3°), temos os produtos florestais com a cifra de US$ 1,49 bilhão (+23,1%). Na quarta posição está o café com receita de US$ 734,16 milhões (+43,5%) e, fechando o top 5, temos o complexo sucroalcooleiro que vendeu US$ 589,8 milhões (-8,1%); resultado da queda de 14,5% na venda mensal do açúcar (US$ 503,2 milhões). No acumulado do ano, entre janeiro e abril, o Brasil já exportou US$ 48,56 bilhões (+34,5%).

Do lado das importações, os destaques para abril foram os seguintes: a compra de US$ 2,10 bilhões em fertilizantes (+296,7%) com volume de 3,25 milhões de t (+72,4%); e de defensivos agrícolas em US$ 376,3 milhões (+122,9%) e 38,4 mil t (+50,0%). No total, as importações do setor somaram US$ 1,32 bilhão (+14,8%), o que possibilitou um saldo de US$ 13,54 bilhões à economia brasileira (+15,0%).

Olhando em destaque para a cadeia do milho em abril, os embarques cresceram 434% em volume e 706% em receitas, na comparação com o mesmo mês de 2021 (Figura 1). Ao todo, foram exportadas quase 690 mil toneladas do cereal (contra 129 de abril/21), com receitas de US$ 219 milhões (US$ 192 milhões a mais); a alta nas arrecadações é resultado tanto do aumento no volume, como nos preços médios do milho embarcado, que fecharam o mês em US$ 318,2 por tonelada (+50,8%). No acumulado de 2022, já exportamos 4,2 milhões de toneladas de milho (+18,75) e geramos receitas em torno de US$ 1,1 bilhão (+53,2%).

Figura 1. Exportações mensais e acumulada de milho pelo Brasil

Fonte: Markestrat Agribusiness com base em Mapa.

Ainda sobre exportações, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), os embarques de soja devem cair 43% no mês de maio, em comparação com o mesmo mês de 2021. Ao todo, o Brasil deve exportar 8,1 milhões de t do grão. O volume também é menor que as 11,3 milhões de t embarcadas em abril (-28,3%). Este comportamento é resultado da menor oferta da leguminosa neste ciclo, especialmente em vista dos eventos de seca no Sul do Brasil e no Mato Grosso do Sul, o que limitou a venda do grão para o mercado externo.

No âmbito internacional, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em seu relatório de maio, trouxe as perspectivas para a safra 2022/23 de grãos, indicando uma produção de milho em 1.180,71 milhões de t, volume que deve ser 3,0% menor que o da safra 2021/22 (ou 35 milhões de t a menos). Os principais reflexos dessa redução estão na estimativa de menor oferta nos Estados Unidos, indicada em 367,3 milhões de t (-4,5%), devido à redução das áreas plantadas com o cereal; e na Ucrânia, que deve entregar 19,5 milhões de t (-54%, ou 22,6 milhões de t a menos), em vista dos conflitos com a Rússia que assolam o país. Para o Brasil, a produção prevista para 22/23 ficou em 126,0 milhões de t, 10 milhões a mais do que o esperado para o ciclo atual ou crescimento de 8,6%. Já as exportações devem crescer 36,7% no Brasil, alcançando 46,5 milhões de t e, com isto, devemos voltar a posição de 2° maior exportador, entregando quase 26% de todo o milho consumido no mundo. Por fim, os estoques globais do cereal devem voltar a cair neste próximo ciclo, após uma recuperação no passado: a previsão é de que fique em torno de 305,1 milhões de t, 1,4% menor.

Na soja, a estimativa do USDA é de uma produção global em 394,7 milhões de t, 13% maior do que 2021/22 ou 45,3 milhões de t a mais. Nos principais produtores, o cenário será o seguinte: o Brasil deve produzir 149,0 milhões de t (+19,2% ou +24 milhões de t); nos Estados Unidos, serão 126,3 milhões de t (+4,6% ou +5,6 milhões de t); e na Argentina a oferta está estimada em 51,0 milhões de t (+21,4% ou +9 milhões de t). Nas exportações, o Brasil deve ampliar ainda mais o volume embarcado, das 82,8 milhões de t de 21/22 para 88,5 milhões de t em 22/23 (+6,9%), mantendo sua participação de 52% no mercado global. Os estoques globais, por sua vez, devem ser maiores, alcançando 99,6 milhões de t, 14,4 a mais do que 21/22 ou crescimento de 16,9%.

Nos Estados Unidos, o USDA indicou que o plantio da safra de grãos teve uma ligeira evolução na segunda quinzena de maio, mas segue em atraso, conforme apurado até o último dia 16 de maio. No milho, o avanço veio conforme a expectativa do mercado, com o plantio em 49%, mas ainda bem atrasado em relação aos 78% do ano anterior e 67% da média dos últimos cinco anos. Já na soja, o esperado era de 29%, mas o valor apurado veio 1 p.p. acima (30,0%), também abaixo dos 58% de 2021 e da média de 39% para o período. Como consequência, as cotações das commodities têm sofrido altas em Chicago nos últimos dias. No trigo, 39% das áreas já estão semeadas, contra 83% no ano anterior e 67% na média. Atenção para bons momentos de comercialização!

De volta ao Brasil, os custos seguem preocupando os agricultores, conforme já vínhamos falando há algum tempo. No Mato Grosso, dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estimou em abril os custos em torno de R$ 3.327,43 / ha, o que representa um aumento de 39,8% em comparação com o ciclo passado. Os três componentes que mais participaram deste crescimento, devido à alta nos preços, foram os fertilizantes (+59,9%), os defensivos (+23,1%) e as sementes (21,1%).

No ambiente institucional, o governo federal zerou as taxas para importação de milho, carnes e farinha de trigo, medida que visa conter a alta no preços dos alimentos e nos custos de produção de algumas cadeias produtivas (como as da pecuária). Além destes três produtos, barras de ferro ou aço, ácido sulfúrico e maconzebe (fungicida) foram outros que também tiveram suas taxações zeradas. A medida deve trazer um impacto de R$ 700 milhões na arrecadação do governo em 2022.

De acordo com apuração do Sindirações, a produção de rações no Brasil cresceu 3,9% no ano de 2021, alcançando 84,9 milhões de t. A demanda aquecida no mercado internacional pela carne suína e de frango foi o principal motivador do incremento. Já para 2022, há expectativa de desaceleração, com crescimento de 3,5%, atrelado principalmente à avicultura (corte e postura) que mantem sua relevância mesmo em cenário de menor poder aquisitivo.

No setor de biocombustíveis, segundo a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única), foram produzidos 1,49 bilhão de litros de etanol em abril, 26,9% a menos que abril passado; reflexo também do menor volume de cana processado. Do total produzido, 1,24 bilhão de litros correspondem ao hidratado (83,2%) e 242,91 milhões de litros ao anidro (16,8%). 281 milhões de litros – ou 18,9% do total – tiveram o milho como matéria-prima, volume que é 17,9% maior que o da safra passada.

Outra boa notícia é que a China assinou um protocolo para permitir as importações de milho e amendoim provenientes do Brasil, informação que foi divulgada pelo Ministério de Agricultura e Relações Exteriores do país asiático. Também há tratativas em andamento visando permitir as exportações brasileiras de farelo de soja, proteína concentrada de soja, polpa cítrica e soro fetal bovino.

Por fim, fechando nosso resumo mensal, em 26 de maio de 2022, os preços do milho pelo Cepea/USP estavam em R$ 86,99/sc (60kg), baixa de 1,4% na comparação com a mesma data de abril. Demais produtos do agro registravam os seguintes valores: soja (Indicador Paraná) em R$ 188,01/sc, queda de 1,7% no comparativo mensal; o algodão em pluma em R$ 8,03/libra-peso, aumento de 8,8% nos últimos 30 dias; e o boi gordo em R$ 319,10/@, redução de 4,7% na comparação com 26 de abril.

Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar diariamente em junho são: 

  1. Monitoramento/previsões do clima e incidência nas lavouras de milho: no último mês, vimos que ondas de frio tem chegado as principais regiões produtoras. Felizmente, não houve relatos de impactos expressivos, mas vale o monitoramento para entender como serão os próximos dias. Por outro lado, a seca já castiga algumas regiões, com destaque para o estado de GO. Vamos torcer para que as chuvas retornem brevemente.
  2. Evolução no plantio da safra americana de grãos: o milho, que já terá uma área cultivada menor nos EUA neste ano, está com atraso significativo (como vimos no boletim), o que pode reduzir as condições ideias para desenvolvimento da planta e prejudicar as operações de colheita, com a chega do inverno (final de ciclo). A tendência é de que os produtores norte-americanos recuperem o ritmo; vamos acompanhar!
  3. Exportações brasileiras de milho: os embarques voltaram a crescer em abril, como vimos, resultado do avanço na colheita da safra verão e dos melhores preços. Ainda assim, o volume é pouco significativo frente aos embarques do 2° semestre. Vamos acompanhar as reações da entrada da China nas compras do milho brasileiro e da retirada de taxas para importação do cereal pelo governo brasileiro.
  4. Problemas fitossanitários no campo: com as plantas de milho em desenvolvimento pleno, aumentou a incidência de pragas como a cigarrinha do milho (vetor da virose do complexo de enfezamento) e de outras como fumageiras. Impactos podem também ser expressivos. Vamos ficar de olho!

5. Reações dos mercados a estimativa 2022/23 do USDA: concluindo, vamos ver como será o comportamento do mercado após a previsão de baixa na oferta global de milho neste próximo ciclo.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva é Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestrando em Administração de Organizações da FEA-RP/USP e Consultor Associado na Markestrat Group.

Daniel Bocca Mancinie Clara Guerreiro são estagiários na Markestrat Group.

*Este conteúdo é parte integrante do projeto Somos Milhões, uma iniciativa da Nidera Sementes, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento em prol da cadeia brasileira de milho.

Análises e conjunturas

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