Milho safrinha: perspectiva de oferta recorde segue firme!

Marcos Fava Neves

Vinícius Cambaúva

Daniel Bocca Mancini

Clara Guerreiro

Nosso texto mensal começa com a nova estimativa (junho) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima a produção brasileira de grãos do ciclo 2021/22 em 271,3 milhões de t (recorde), volume 6,2% superior ao obtido na safra passada e 0,4% maior que a previsão do mês anterior (+1,1 milhões de t). Houve revisão nos números do milho, com acréscimo nesta estimativa (+0,6%) e oferta total prevista em 115,2 milhões de t, 32,3% maior. Desse montante, o cereal de primeira safra deve entregar 24,8 milhões de t (+0,3%), a safrinha 88,0 milhões de t (+44,9%) e a terceira safra 2,4 milhões de t (+47,2%). Na soja, a oferta está agora avaliada em 124,3 milhões de t, queda de 10,1% frente a 2020/21.

A consultoria Agroconsult, por sua vez, elevou a projeção para a oferta de milho 2ª safra em 2021/22 no Brasil, agora para 89,3 mil t. Para as exportações do cereal, a empresa estima volume recorde em 2022, de 43 milhões de t (foram de 20,7 milhões de t em 2021, por conta dos efeitos do clima na oferta do grão).

A expectativa também é positiva para as culturas de inverno, que devem aumentar 7,7% em produção frente ao ciclo anterior, atingindo 10,1 milhões de t, com o trigo responsável por 83% desse volume (8,35 milhões de t). Por fim, no algodão os volumes se mantiveram praticamente estáveis, com ligeira queda de 0,2%, mas espera-se uma produção de 2,8 milhões de t de pluma, 19,3% superior ao que foi alcançado em 2021/22.  

Já o progresso de safra foi apontado pela Conab nas seguintes condições, até 18 de junho: a colheita da soja 2021/22 está concluída no Brasil; a colheita do milho verão encontra-se em 90,8% (91,2% na mesma data de 2021); a colheita do milho safrinha (2ª safra) já alcança 11,0% das áreas totais do Brasil (3,6% em 20/21), com destaque para os avanços no Mato Grosso (23,7%), Tocantins (8,0%) e Goiás (4,0%); no algodão, a colheita permanece em estágio prévio e/ou inicial, com apenas 4,2% das áreas totais colhidas (era de 4,5% em 19 de junho de 2021); e, por fim, o plantio de trigo registra pequeno atraso, estando com 55,4% das áreas semeadas (contra 66,8% há um ano). As boas condições das lavouras brasileiras e o ritmo acelerado nas operações tem favorecido a produção, o que explica os movimentos de alta nas estimativas da Conab, como vimos.

No cenário global, o relatório de junho do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), acerca da safra de grãos 2022/23 (a que ainda será plantada no Brasil), indica uma produção de milho em 1,186 bilhão de t, 5 milhões a mais do que na primeira previsão (maio), porém ainda 2,5% menor do que a oferta de 2021/22 (1,21 bilhão de t).

O comparativo de produção entre a safra 2022/23 e a anterior, nos principais países produtores, nos mostra o seguinte: nos EUA, a produção deve ficar em 367,3 milhões de t (-4,3%); na China em 271,0 milhões de t (-0,5%); no Brasil serão 126 milhões de t (+8,6%); na União Europeia a produção deve ser de 68,3 milhões de t (-3,1%); e fechando o top 5, na Argentina, a oferta será de 55 milhões de t (+3,8%).

Na Ucrânia, fortemente afetada pela guerra contra Rússia, o USDA estima uma oferta do cereal em 25 milhões de t, acima das 19,5 milhões de t estimadas no mês passado, mas ainda bem abaixo das 42,2 produzidas em 2021/22. Já os estoques globais de milho devem ficar em torno de 310,5 milhões de t, praticamente o mesmo volume de 2021/22; no mês passado o órgão havia estimado 305,1 milhões de t.

Na soja, o USDA também ampliou a previsão da oferta global de 22/23, em junho, agora estimada em 395,4 milhões de t (era 394,7 no mês passado). Com isso, a produção da leguminosa deve ser 12,4% maior do que em 2021/22. Os valores para os 5 principais países produtores foram mantidos, conforme estimativa de maio, em: Brasil com 149,0 milhões de t (+18,3%); Estados Unidos em 126,3 milhões de t (+4,6%); Argentina com 51 milhões de t (+17,5%); China produzindo 17,5 milhões de t (+6,7%); e Índia com oferta em 11,5 milhões de t (-3,4%). Os estoques globais de soja foram ampliados de 99,6 (maio) para 100,5 milhões de t (junho), volume que é 16,7% superior ao de 2021/22 (86,1 milhões de t).

Boas as notícias para os grãos, que seguem com alta nas estimativas para a oferta global em 2022/23. Vamos torcer para que as condições ajudem e estes números sejam mantidos. É necessário ampliar a oferta de alguns produtos para garantir o abastecimento e controlar os altos preços que aí estão.

Por outro lado, a consultoria IHS Markit, dos Estados Unidos, trouxe novas estimativas para a área plantada de grãos nos EUA em 2022/23, indicando que no milho as lavouras deverão totalizar 36,4 milhões de ha, contra os 36,2 milhões de ha estimado pelo USDA. Na soja, a consultoria prevê 35,9 milhões de ha; já o USDA falava em 36,8 milhões de ha. Se os números foram confirmados no novo relatório do departamento de agricultura dos EUA, que será divulgado no final de junho, a soja volta a ficar atrás do milho em termos de área plantada, diferente das previsões iniciais.

Ainda no cenário global, pelo segundo mês consecutivo, o índice de preços de alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) registrou queda, em maio de 0,6%, fechando em 157,4 pontos (era 158,5 em abril). Ainda assim, o indicador segue 22,8% maior do que o que fora registrado no mesmo mês do ano passado. Entre os produtos que lideraram a redução mensal estão os óleos vegetais e os laticínios. Do outro lado, os preços de cereais cresceram 2,2%, registrando 173,4 pontos, 29,7% a mais do que maio de 2021. Outro grupo que cresceu foi do das carnes, que ficou em 122 pontos em maio, 0,5% maior que abril e recorde histórico. Já o trigo registrou a quarta alta mensal consecutiva, de 5,6% de abril para maio e 56,2% na comparação com maio passado.

Outra boa notícia é que Brasil e China concluíram um acordo para início das exportações de milho e amendoim para o país asiático. A informação foi divulgada pelos Ministérios da Agricultura e de Relações Exteriores. Além do acordo firmado, os países ainda estão discutindo a possibilidade de vendas brasileiras de farelo de soja, proteína concentrada de soja, polpa cítrica e soro fetal bovino.

Falando ainda em exportações, outro fato que marcou o mês foi a expectativa do governo russo em permitir o escoamento dos grãos ucranianos pelos portos do país via Mar Negro, o que agitou bastante mercados, principalmente o de milho, sendo este um dos grandes fatores baixistas e que ajuda a explicar o comportamento dos preços do cereal nas últimas semanas.

O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) foi estimado pelo Mapa (Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento) em R$ 1,243 trilhão para 2022, conforme atualização de junho. Esse valor é 2,4% superior àquele alcançado no ano anterior e ligeiramente maior que a previsão de maio (R$ 1,236 trilhão). O faturamento das lavouras deve alcançar R$ 880,37 bilhões (+6,56%), com crescimento expressivo para algodão (+45,0%), café (+37,8%), cana-de-açúcar (+28,1%) e milho (+20,0%). Já na pecuária, espera-se queda generalizada para as carnes, de 6,4%, chegando a R$ 362,64 bilhões (-6,4%).

Segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), as contratações de crédito rural na safra 2021/22 (de julho de 2021 a maio de 2022) chegaram a R$ 252,46 bilhões, alta de 18% e superando o valor disponibilizado quando do anúncio do Plano Safra atual (era de R$ 251,2 bilhões). Os financiamentos de custeio, no âmbito do Pronaf, cresceram 41% e dos créditos de comercialização, 43%.

Também neste mês de junho, mais uma vez o clima frio voltou a preocupar os nossos agricultores, especialmente os da região Sul e MS, e com destaque para as lavouras de milho, cana, café e citros. Até o momento não foram registradas grandes perdas (felizmente) mas vamos seguir acompanhando.

No setor de biocombustíveis, de acordo com a Unica, a produção acumulada de etanol de 1 de abril até 1 de junho alcançou 5,17 bilhões de litros, queda de 12,25% em comparação ao mesmo período de 2021. Deste total, 3,56 bilhões de litros são de hidratado (-11,91%) e o 1,61 bilhão restante corresponde ao anidro (-12,98%). O biocombustível produzido a partir do milho já totaliza 596,38 milhões de litros, representando pouco mais de 10% do volume total e com avanço de 26,14% em comparação ao ciclo passado.

Até a data de fechamento desta coluna, os dados relativos as exportações mensais do agronegócio (e da cadeia do milho) não haviam sido divulgados; por este motivo não constam no boletim, como de costume.

E concluindo a nossa análise, na data de 21/06, de acordo com dados do Cepea/USP, os preços do milho estavam em R$ 87,15/sc (60kg), 1,0% maior que o preço há um mês. Demais produtos do agro apresentavam as seguintes cotações: soja (indicador Paraná) em R$ 191,62/sc (60 kg), 3,3% superior na comparação com maio; o algodão em pluma fechou em R$ 7,42/libra-peso, queda significativa de quase 9% na comparação com 21/05; e o boi gordo em R$ 321,40/@, praticamente o mesmo valor do mês passado.

Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar diariamente em julho são: 

  1. Evolução na colheita do milho safrinha no Brasil: como estamos nos aproximando no início da colheita do cereal nas principais regiões produtoras (algumas áreas já iniciadas), é importante acompanhar como está sendo o desempenho no campo, a fim de entender qual será a real oferta no grão.
  2. Condições de desenvolvimento das lavouras de milho nos EUA: vimos neste último mês que os americanos recuperaram o ritmo de plantio do cereal, na comparação com a média das últimas 5 safras. Ainda assim, as lavouras que foram plantadas mais tarde podem correr riscos. Além disso, relatos de clima seco e quente já estão preocupando agricultores e podem piorar as condições de desenvolvimento; vamos acompanhar!
  3. Guerra entre Rússia e Ucrânia e impactos na oferta global de alimentos: acompanhar como será a oferta destes dois países, especialmente no que se refere à cadeia de suprimentos; Rússia afirmou que pode permitir as exportações de grãos da Ucrânia pelos portos do Mar Negro, e isto altera a dinâmica de preços e outros.
  4. Clima na reta final da 2ª safra de milho no Brasil: mesmo com o bom desenvolvimento das lavouras confirmado neste mês, ¼ das áreas ainda está sob influência do clima, como abordado aqui no boletim. A geada é um dos efeitos de maior preocupação, já que trouxe grandes impactos no último ano.
  5. Câmbio e custos de produção na safra 2022/23: por último, mas não menos importante, observar as perspectivas para variações no câmbio e nos preços dos insumos e commodities, pensando especialmente no que se refere ao planejamento para a próxima safra e tomada de decisão quanto à venda antecipada e outros.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva é Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestrando em Administração de Organizações da FEA-RP/USP e Consultor Associado na Markestrat Group.

Daniel Bocca Mancini e Clara Guerreiro são estagiários na Markestrat Group.

*Este conteúdo é parte integrante do projeto Somos Milhões, uma iniciativa da Nidera Sementes, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento em prol da cadeia brasileira de milho.

Análises e conjunturas

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