Seca na Europa e EUA derrubam projeções para o milho
Marcos Fava Neves
Vinícius Cambaúva
Paula Toledo
Rafael Rosalino.
Nosso resumo mensal de outubro começa destacando a 1ª estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra 2022/23 de grãos, que iniciou há algumas semanas, a produção foi estimada em 312,4 milhões de t, 15,3% superior a produção de 2021/22 ou 41,4 milhões de t adicionais em apenas um ano! Entre os principais cultivos, a soja se destaca com o maior volume: serão 152,4 milhões de t, 21,3% superior. No milho, a oferta deve ser de 126,9 milhões de t (+ 12,5%), sendo que o cultivo em 1ª safra vai entregar 28,7 milhões de t (+ 14,6%), na safrinha serão 96,3 milhões de t (+ 12,4%) e na 3ª safra outros 1,9 milhão de t (- 8,5%). No algodão, a expectativa é de uma oferta de pluma em 2,92 milhões de t, crescimento de 14,7%. Já as culturas de inverno devem somar 11,2 milhões de t (+ 19,3%), puxadas especialmente pelo trigo que deve entregar 9,4 milhões de t (+ 21,9%); os altos preços do cereal e as incertezas no mercado global têm sido vistos de forma oportuna pelos agricultores brasileiros. Fica aqui, desde já, nossa torcida para que todos estes números se confirmem! Como de costume, todos os meses traremos aqui as próximas 11 estimativas, esperando validar o bom desempenho em setembro de 2023!
Em nível global, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou suas novas estimativas para os grãos em 2022/23 indicando que o milho deve produzir 1,168 bilhão de t, redução de 0,3% em relação a estimativa de setembro; ou 4 milhões de t a menos. Os dois principais players que tiverem seus dados revisados foram: a União Europeia em função da forte seca nos países do continente, que viu a estimativa de produção cair de 58,8 milhões de t (setembro) para 56,2 (outubro); e os Estados Unidos, que tiveram a oferta reduzida de 354,2 para 352,9 milhões de t. Com este novo resultado, a produção global de milho deve ser 4,0% menor nesta safra do que a passada; são quase 50 milhões de t a menos.
No Brasil, a estimativa de produção se mantém em 126 milhões de t. Estoques finais foram também revistos e estão agora indicados em 301,2 milhões de t, 2% inferior a 21/22.
No caminho contrário, o USDA reviu para cima a estimativa da produção global de soja: de 389,8 (setembro) para 391 milhões de t (outubro), o que deve significar uma colheita 10% maior; ou 35,3 milhões de t adicionais da oleaginosa. No Brasil, principal produtor, a produção deve ser ainda maior do que o esperado e agora está prevista em 152 milhões de t (era 149 em setembro), aumento de 25 milhões de t em apenas uma safra (+ 19,7%). Nos Estados Unidos, a produção foi revista para baixo e está agora indicada em 117,4 milhões de t, 3,4% inferior ao do ciclo passado. Já os estoques finais da soja devem fechar 2022/23 com 100,5 milhões de t, alta de 8,8%.
E no final de setembro, a Comissão Europeia reduziu a sua previsão para a colheita de milho nos países do bloco. Resultado da seca que afeta diversas regiões, a nova previsão indica uma produção de 55,5 milhões de t (a estimativa anterior era de 59,3 milhões de t), o menor valor em 15 anos! De acordo com a comissão, os dados se referem a reduções na Bulgária, Alemanha, Croácia, Hungria, Romênia e Eslováquia. Como consequência, as previsões para importações de milho pelo bloco foram elevadas para 21 milhões de t (antes 20); e as exportações foram reduzidas de 4 para 3,5 milhões de t.
De volta ao Brasil, no mercado nacional de soja, o processamento da oleaginosa deve ficar em torno de 49 milhões de toneladas em 2022, segundo estimativas da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). No ano passado, a moagem do grão somou 47,8 milhões de toneladas; ou seja, o crescimento neste ano deve ser de 2,5%. Em relação a produção, a entidade atualizou seus números indicando que foram produzidas 127 milhões de toneladas este ano (- 8,6%), enquanto que as importações passaram para 500 mil toneladas (- 42,1%).
Já as exportações estão com a projeção mantida no mesmo patamar, em 77 milhões de toneladas.
Ainda na soja, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a comercialização da safra 2021/22 no estado alcançou 90% ao final de setembro, avanço de 2,8 pontos percentuais no comparativo com agosto. Apesar da alta, os preços da oleaginosa caíram 1,35% em relação a agosto, fechando em média a R$ 159,37/sc. Para o ciclo 2022/23, o Imea indica que 28,75% da produção do estado já foi comercializada (a previsão é de 41,8 milhões de t), a preços médios de R$ 149,41/sc, 1,8% superiores aos negociados em agosto.
E falando em um outro cereal de importância para o Brasil, o arroz, as exportações cresceram 50% no comparativo com o mesmo mês de 2021, passando para 199,3 mil toneladas. Já as receitas cresceram ainda mais, 55,6%, somando US$ 63,8 bilhões. No acumulado do ano (janeiro a setembro), os embarques de arroz somam 1,32 milhão de toneladas, com receitas em US$ 401,9 milhões; crescimentos de 61,5% e 52,6%, respectivamente, no comparativo com o mesmo período do ano anterior. Os dados foram divulgados pela Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz).
Na revisão de outubro do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), o Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) em 2022 foi indicado em R$ 1,188 trilhão, valor que deve ser 0,6% menor do que o de 2021. A queda é explicada pelas condições negativas de clima na região sul ao longo da safra, o que prejudicou especialmente a cultura da soja, além da redução do VBP de cadeias da pecuária como a da carne bovina, da carne suína e do frango. Entre as cadeias agrícolas, o VBP deve somar R$ 821,2 bilhões (+ 0,9%) e nas da pecuária o indicador deve fechar 2022 com R$ 367,2 bilhões (- 3,8%). As culturas com maior destaque em termos de crescimento do VBP em 2022 deverão ser o trigo (+ 37,8%), o café (+ 31,3%), o algodão (+ 26,2%) e o milho (+ 12,9%).
No 1° semestre de 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio registrou queda de 2,5% segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Segundo as organizações, o principal fator motivador da queda foi a alta nos custos de produção do setor e a tendência de manutenção (e em alguns casos leve queda) de produtos agropecuários. Olhando para os segmentos, o ramo agrícola registrou queda de 2,7%, enquanto que o PIB pecuário ficou 1,8% menor. Como resultado da queda no PIB do agronegócio no 1° semestre, Cepea e CNA reviram a participação geral do agro no PIB total do Brasil para 25,5% em 2022. Em 2021, a participação havia sido de 27,5%.
No mercado de fertilizantes, a StoneX indicou que houve uma melhora na relação de compra dos principais adubos do mercado nos últimos 6 meses, com uma redução de preços de até 50% desde abril. No comparativo entre outubro de 2022 e outubro de 2021, temos: as cotações da ureia estão em US$ 648/t (- 2,7%); do MAP (fosfato) em US$ 660/t (- 8,2%); e do Potássio em torno de US$ 663/t (- 13,3%). As cotações em questão consideram preços negociados no Porto de Paranaguá (PR).
Ainda sobre fertilizantes, em julho, a entrega destes produtos para agricultores (por meio dos canais de distribuição) caiu 29,4% na comparação com julho de 2021: ao todo, foram 3,5 milhões de t entregues, de acordo com a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda). No acumulado do ano (janeiro a julho), 21,7 milhões de t de fertilizantes foram entregues no país, 9% a menos do que o mesmo período do ano passado.
E segundo dados da Fretebras, os fretes do agronegócio cresceram 33,2% no 1° semestre de 2022. Entre os produtos que registraram maior aumento no volume estão o trigo (+ 182,5%), o açúcar (+ 75,4%) e o milho (+ 64,7%). Por outro lado, a categoria com maiores volumes foram os fertilizantes, que responderam por 25,6% das cargas do setor.
E a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar) divulgou os dados relativos à produção de etanol até 1° de outubro. No acumulado de 2022/23, chegamos a 21,48 bilhões de litros, queda de 5,8% no comparativo de safra, sendo que foram 12,91 bilhões de litros do hidratado (- 7,25%) e 8,57 bilhões de litros do anidro (- 3,6%).
Do total produzido até o momento, 2,07 bilhões de litros (ou 9,6%), correspondem ao etanol de milho, um salto de 27,0% quando comparamos com a mesma data de 2021. Apenas no mês de setembro, o biocombustível a partir do cereal entregou 384,7 milhões de litros, alta de 30,5%.
E no momento da conclusão de nosso balanço mensal, em 13/10, os preços de produtos do agro, com base em dados do Cepea/USP, estavam em: o milho fechou cotado em R$ 84,42/sc (60 kg), o mesmo preço de um mês atrás; a soja com referência no Porto de Paranaguá ficou em R$ 187,56/sc (60kg), queda de 0,7% no comparativo mensal; o algodão caiu 8,1% em 1 mês, fechando em R$ 5,198 por libra-peso; o café foi cotado a R$ 1.176,35/sc (60kg), 8,5% menor que o preço da mesma data de agosto; e, por fim, o boi gordo fechou em R$ 306,30/@, leve queda de 0,7 no comparativo mensal.
Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar diariamente em novembro são:
- Avanços no plantio de milho verão (1ª safra) no Brasil e desenvolvimento inicial das lavouras: essencial seguir acompanhando o desempenho das operações de plantio do milho, especialmente na região sul, onde ele é cultivado de forma predominante destes meses de final de ano; além de observar o desenvolvimento inicial das lavouras, o arranque inicial de plantas e o crescimento vegetativo. Atrelado a estes últimos aspectos, cabe lembrar a importância do clima para a produção, ou seja, vamos acompanhar as previsões e torcer para boa distribuição.
- Progresso da colheita de milho (e outros grãos) nos EUA: a safra americana entra na fase final desse próximo mês e os agricultores estão a todo vapor com as operações para evitar as perdas que a chegada do inverno poderia trazer a produção. Destacamos aqui por várias vezes que a safra atual começou com atraso nos Estados Unidos e, agora, é a hora de vermos os possíveis impactos.
- Seca afetando a produção de milho na Europa e na China: a Europa, que já vinha tendo problemas com a oferta do cereal graças as incertezas do fornecimento na Ucrânia, agora também enfrente a questão climática em boa parte de seus países. Como vimos no boletim, a estimativa de produção já foi reduzida por lá, e pode cair ainda mais. Vamos ficar de olho nos próximos números.
- Movimentações relacionadas a insumos para safrinha 2023: com o avanço do plantio da safra verão, as próximas semanas também se tornam decisivas para avaliação das possibilidades para a safrinha, como nível de investimento, compra de insumos, negociações, venda antecipada da produção; e outros. Importante utilizar os dados e informações de agora (contexto global e avanços no Brasil) para apoiá-los nestas decisões, evitando riscos e capturando oportunidades.
- Por fim, acompanhar as movimentações político-econômicas no Brasil e no mundo: no final de outubro, o povo brasileiro define o governo nos próximos 4 anos (tanto presidenciável como ainda de alguns governadores). Sabemos que os candidatos ainda em disputa, em grande parte dos casos, representam pensamentos e políticas bem distintas, o que é claro pode impactar o nosso setor. Importante acompanhar as notícias e informações diariamente, especialmente após o dia 30 de outubro. Vale adicionar, ainda, todo o contexto geopolítico global que envolve Rússia x Ucrânia, crise econômica, recessão… e o que mais vier! Vamos ficar de olho!
Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.
Vinícius Cambaúva é Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestrando em Administração de Organizações da FEA-RP/USP e Consultor Associado na Markestrat Group.
Paula Toledo é consultora na Markestrat Group, graduada em Engenharia Agronômica pela FCAV/UNESP; e Rafael Rosalino é estagiário na Markestrat Group, estudante de Medicina Veterinária pela FCAV/UNESP.
*Este conteúdo é parte integrante do projeto Somos Milhões, uma iniciativa da Nidera Sementes, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento em prol da cadeia brasileira de milho.
