Moagem Finalizada Com Mais de 540 Milhões de t em 22/23
Prof. Dr. Marcos Fava Neves
Vitor Nardini Marques
Vinicius Cambaúva
Seguem nossas reflexões de fatos e números da cana em dezembro/janeiro e o que acompanhar em fevereiro.
Na cana, a moagem da região Centro-Sul alcançou 541,57 milhões de t desde o início do ciclo até dezembro de 2022, refletindo um avanço de 3,63% em comparação à safra 2021/22, segundo apurado pela Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar). Quanto às unidades em operação, apenas 16 continuam a processar matéria-prima, sendo que 6 delas utilizam a cana, enquanto as outras 10 fabricam etanol a partir do milho. Considerando a última quinzena do ano de 2022, foram moídas 2,63 milhões de t, bem acima das modestas 8,5 mil t do mesmo período de 2021.
O rendimento da cana também está superior ao evidenciado no mesmo período do ciclo passado. De acordo com dados preliminares do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), a produtividade média, no acumulado até dezembro, foi de 73,4 t/ha, o que reflete um aumento de 8,22% em comparação à quantidade extraída por hectare em 2021/22 (67,8 t/ha). No entanto, houve uma ligeira perda na qualidade da matéria-prima em 2022/23 no comparativo com a safra anterior. O ATR (Açúcar Total Recuperável) médio do período alcançou 141,18 kg/t, sendo 1,26% inferior ao constatado em 2021/22.
Para o mix de produção acumulado da safra, houve um ligeiro favorecimento da cana destinada à produção de açúcar, estando em 45,93% (era 45,03% no ciclo anterior), enquanto que o etanol perdeu 0,90%, estando agora em 54,07% (era 54,97%). Dados também são da Unica.
Já com relação ao mercado de CBios (Créditos de descarbonização), dados B3 sinalizam para a emissão de 31,74 milhões de títulos durante todo ano de 2022. Somada a emissão aos créditos que ficaram em estoque, a oferta total alcançou 42,15 milhões, valor que excede a meta anual de CBios em 5,4 milhões. A parte obrigada, por sua vez, ainda não havia fechado a meta para o ano, tendo adquirido até então 33,6 milhões de títulos, o equivalente a 92% do objetivo.
Para o ciclo 2022/23, a Conab reajustou a projeção da produção nacional para 598,3 milhões de t, 4,4% superior à sua estimativa de agosto. O aumento na área colhida e produtividade das lavouras no estado de São Paulo foi o principal motivador do reajuste.
E olhando para o próximo ciclo, 2023/24, a Datagro estimou uma moagem de 590 milhões de t na região Centro-Sul, alta de 6,9%. Segundo a consultoria, a concentração de ATR (Açúcar Total Recuperável) deve ficar em 141,5 kg/t de cana, crescimento de 0,8% em relação ao ciclo atual. Vamos torcer para que estes números se concretizem, mas são boas as previsões para a cana até o momento!
No açúcar, com maior volume para processamento frente ao ciclo anterior, a produção de açúcar acumulada no ciclo foi 4,37% superior, atingindo 33,46 milhões de t (contra 32,06 milhões), segundo apurado pela Unica. Considerando apenas o intervalo dos últimos quinze dias de dezembro, o volume produzido de adoçante totalizou 165 mil t, enquanto que em 2021 não houve direcionamento de cana para produção de açúcar.
Em dezembro, 2,22 milhões de t de açúcar foram exportadas pelas usinas brasileiras, alta de 14,5% no comparativo com o mesmo mês de 2021, mas queda de 33,8% na comparação com nov/2022. Com preço médio no mês em US$ 426,89/t (+ 13,8%), as receitas totais somaram US$ 948,17 milhões, 30,3% superiores a dezembro de 2021. Do volume embarcado, 1,9 milhão de t (85,6%) foram do açúcar bruto e 320 mil t (14,4%) do açúcar refinado.
Já no total de 2022, o Brasil exportou 27,3 milhões de t de açúcar (+ 0,1%), volume praticamente estável na comparação com o ano anterior.
Já as receitas, por sua vez, cresceram 19,8%, totalizando R$ 11 bilhões (havia sido de R$ 9,19 bilhões em 2021), resultado da alta de 19,6% no preço médio da t embarcada em 2022, que fechou o ano em US$ 403,20. Dados são da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia.
E segundo autoridades da Índia, o governo não deve permitir um volume extra de exportação de açúcar no ciclo atual iniciado em 1° de outubro no país asiático. No ciclo passado, a Índia exportou 11 milhões de t do adoçante (volume recorde), mas o governo fixou que apenas 6,1 milhões de t poderão ser comercializadas no mercado externo neste período, em virtude dos elevados preços de alimentos no país. Segundo informações da Reuters, 5,6 milhões de t já foram negociadas pelas usinas indianas.
Ainda na Ásia, a Reuters informou que a China importou 6,9% menos açúcar em dezembro na comparação com o mês anterior, demonstrando a desaceleração momentânea na demanda. Após os eventos citados, os contratos em Nova York fecharam em 19,82 centávos de dólar por libra-peso, com vencimentos para março de 2023. Já o contrato do açúcar branco fechou em US$ 551,60 por t.
No etanol, ainda graças a maior disponibilidade de matéria-prima frente ao período passado, a oferta de etanol também foi alavancada. No acumulado da safra (até dezembro), foram produzidos 27,47 bilhões de litros do biocombustível, um incremento de 3,08% em comparação ao mesmo período de 2021. Desse volume, 15,80 bilhões se referem ao hidratado (-0,21%) e 11,66 bilhões correspondem ao anidro (+7,90%). Os dados também são do levantamento da Unica. Ao considerarmos a última quinzena de dezembro, 322,24 milhões de litros foram fabricados (+91,95%), sendo 177,11 milhões do tipo hidratado (+65,06%) e 145,13 milhões do anidro (+139,59%).
Voltando ao cenário do acumulado na safra, vale o destaque para o biocombustível advindo do milho, que entregou até então 3,25 bilhões de litros, refletindo incremento de 26,18% frente ao mesmo período de 2021. A participação do cereal já excede 10% do volume total produzido e deve seguir comportamento de alta nos próximos ciclos.
O mês de dezembro também trouxe um resultado bastante positivo na comercialização do biocombustível: foram vendidos 2,58 bilhões de litros, o que equivale a um aumento de 18,79% frente a 2021/22. Desse total, 2,30 bilhões (89,05%) foram comercializados no mercado doméstico, enquanto que os demais 282,96 milhões (10,95%) tiveram como destino embarques ao exterior. No que se refere às vendas no mercado doméstico de dezembro (2,30 bilhões de litros; +13,88%), 43,51% equivalem ao etanol hidratado (1,00 bilhão de litros; +13,18%) e 56,49% ao anidro (1,30 bilhão de litros; +14,43%).
No cenário acumulado do ciclo 2022/23, as usinas já comercializaram 22,50 bilhões de litros, alta de 5,92%, sendo que: 9,50 bilhões foram do anidro (+15,60%) e 13,5 bilhões do hidratado (-0,19%). Os tipos têm representatividade de 38,71% e 61,29%, respectivamente.
E concluindo com a evolução de preços do etanol hidratado combustível (Cepea/Esalq): no 13/01 estava em R$ 2,5896/l, queda de 7,8% no comparativo semanal. Dezembro fechou com média de R$ 2,7744/l, bem abaixo dos R$ 3,3622/l de dezembro de 2021 (preços 17,5% menores). Ao longo da safra, a evolução de preços se deu da seguinte forma: em abril/22 estávamos em R$ 3,6273/l; junho caímos para R$ 3,0615/l; em agosto fomos a R$ 2,668/l; outubro, R$ 2,6803/l; e em janeiro a média é de R$ 2,6994/l.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em fevereiro na cadeia da cana:
- Com poucas usinas ainda em operação, os números da moagem em 2022/23 (bem como da produção de açúcar e etanol) devem se consolidar nas próximas semanas. Vamos analisar o impacto destes volumes na conjuntura atual e também discutir como eles podem impactar as negociações para 2023/24, considerando as estimativas que já estão aí colocadas.
- Acompanhar também o clima na região Centro-sul, principal produtora de cana-de-açúcar no país. O regime pluviométrico tem sido bastante positivo, especialmente na região noroeste de São Paulo, onde se concentram boa parte das usinas do setor. Lembrando que esta característica impacta a oferta de cana (produção), a produtividade e, por consequência, a eficiência industrial.
- Preços dos combustíveis neste período de entressafra, considerando especialmente a prorrogação por mais 60 dias (pelo governo Lula) das isenções em impostos federais na categoria. Apesar dos preços do etanol terem se mantido em baixa (o que atrai o consumidor), é importante analisar o cenário da gasolina, considerando a competitividade entre as duas fontes.
- No açúcar, entender como será a dinâmica de consumo/comércio global do adoçante em 2023. Índia deve continuar com o limite no volume a ser exportado (medida do governo), enquanto a China tende a voltar a comprar maiores volumes do mercado global. Quais oportunidades serão abertas ao Brasil? É o que teremos que analisar com cautela.
- Neste momento de entressafra, aproveitar para fazer um balanço dos resultados (agrícolas e financeiros) em 2022 (ou do ciclo 2022/23, que não deve mais sofrer grandes alterações), considerando mapear os pontos de melhoria, os aprendizados e construir um planejamento para busca de resultados desde já; e não apenas em 1° de abril. Contem conosco no fornecimento de informações na busca por este objetivo!
Valor do ATR: em dezembro, o valor do Açúcar Total Recuperável (ATR) fechou o mês com média de R$ 1,1588/kg, leve alta de 0,6% no comparativo com novembro. Até aqui, o histórico de preços da safra 2022/23 segue da seguinte forma: abril, R$ 1,2453/kg; maio, R$ 1,2212/kg; junho, R$ 1,1860/kg; julho, R$ 1,2037/kg; agosto, R$ 1,1387/kg; setembro, R$ 1,0662/kg; outubro com R$ 1,1079/kg; novembro nos R$ 1,1518/kg; e agora em dezembro em R$ 1,1588/kg. No acumulado do ciclo atual, o preço do ATR fechou em R$ 1,1688/kg. Até o final de março, quando termina a safra atual, nossa estimativa é de que fique entre R$ 1,18 e R$ 1,19/kg.
Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Acompanhe outros materiais na página DoutorAgro.com, no canal do Youtube e no MarketClub Sicoob Credicitrus, a quem agradeço ao apoio para elaborar este texto, bem como a co-autoria do Vitor Nardini Marques e Vinicius Cambaúva.
