Colheita de Soja Avança, mas Segue Abaixo de 2021/22
Prof. Dr. Marcos Fava Neves
Vinícius Cambaúva
Vitor Nardini Marques
Seguem nossas reflexões de fatos e números do agro em janeiro/fevereiro e o que acompanhar em março.
Na economia mundial e brasileira, a inflação oficial do Brasil, mensurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentou alta de 0,53% em janeiro, o que reflete uma ligeira desaceleração do indicador frente a dezembro de 2022 (0,62%). O maior impacto foi causado pelo segmento de alimentos e bebidas, o qual apresentou crescimento de 0,59%, acarretando um impacto proporcional de 0,13 ponto percentual. Alguns alimentos, como a batata inglesa e a cenoura pesaram no bolso dos brasileiros em janeiro, devido a respectivos incrementos de 15,4% e 17,55%, acarretados pelo grande volume de chuvas incidentes nas regiões produtoras. Já no lado dos transportes, a gasolina teve aumento de 0,83% e o etanol de 0,72%.
Na esfera econômica, o boletim Focus/Bacen do Banco Central do Brasil de 13 de fevereiro de 2023 indicou um IPCA em 5,79% em 2023 (alta) e em 4,00% para 2024 (alta). Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), a perspectiva é de crescimento de 0,76% em 2023 (baixa) e 1,50 em 2024 (alta). Já o câmbio deve encerrar este ano em torno de R$ 5,25 (baixa) e o próximo em R$ 5,30 (manutenção). Por fim, em relação a Taxa Selic, a perspectiva é de que fique em 12,75% em 2023 (alta) e em 10,00 no próximo ano (alta).
No agro mundial e brasileiro, os preços dos alimentos seguem em curva decrescente, se aproximando da normalidade. O Índice de Preços de Alimentos da FAO (Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) sofreu sua 10ª queda consecutiva em janeiro, atingindo 131,2 pontos, configurando valor 0,8% inferior ao do mês anterior e 17,9% menor que o de março de 2022 (quando alcançou seu máximo histórico). Enquanto que os índices de cereais e carnes se mantiveram praticamente estáveis frente ao mês anterior (+0,1% e -0,1%, respectivamente), os valores para açúcar, óleos vegetais e laticínios justificam a queda global do indicador. No adoçante, houve queda de 1,1% no comparativo com o mês de dezembro graças à oferta favorável, com boa performance nas colheitas de cana-de-açúcar no Brasil e na Tailândia, compensando os baixos rendimentos da safra indiana. Já o indicador de óleos vegetais caiu 2,9% no mês de janeiro, devido a maior oferta do produto advindo do girassol e da colza, enquanto que para soja e palma houve uma desaceleração do consumo, acarretando em menor taxa de importação. Por fim, os laticínios apresentaram retração de 1,4%, em consequência da redução das importações e aumento da oferta principalmente na Nova Zelândia.
Em sua atualização sobre a safra global de commodities agrícolas 2022/23, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) voltou a derrubar os indicadores do milho.
Com isso, a produção global foi reestimada em 1.151,36 bilhão de t frente às 1.155,93 bilhão de t do mês anterior (variação de 4,5 milhões de t). Os volumes produzidos por EUA e Brasil se mantiveram inalterados frente ao relatório do mês anterior, respectivamente, 348,76 e 125 milhões de t. Por sua vez, a Argentina perdeu 5 milhões de t entre os relatórios, estando sua produção avaliada agora em 47 milhões de t. Na Ucrânia também não houve alteração na oferta, manteve-se a expectativa de produção em 27 milhões de t, mas o órgão americano revisou para cima as exportações do país do Leste Europeu para 22,5 milhões de t (frente à 20,5 milhões de t de janeiro). Com isso, os estoques globais passaram de 296,42 milhões de t (janeiro) para 295,28 milhões (fevereiro).
A cultura da soja apresentou um reflexo similar, com variação negativa para a safra global: de 388,01 milhões de t (janeiro) para 383,01 milhões de t (fevereiro). Novamente, a redução foi impactada pela Argentina, a qual teve sua produção revisada de 45,5 milhões de t (janeiro) para 41 milhões de t (fevereiro). Para a produção brasileira e norte-americana, o USDA não projetou alterações, mantendo-se em 153 milhões de t para o primeiro país e 116,37 milhões de t para o segundo. Dessa forma, os estoques devem fechar 2022/23 em 383,01 milhões de t, configurando uma queda de 5 milhões de t frente à expectativa de janeiro.
No Brasil, a estimativa da safra brasileira de grãos para ciclo 2022/23 foi revisada para baixo no mês de fevereiro, em aproximadamente 350 mil t, devendo alcançar agora 310,6 milhões de t, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Mesmo com a queda, justificada pelo atraso na colheita da soja e interferências na janela ideal de plantio do milho safrinha, o volume esperado é 14,0% superior àquele alcançado na safra 2021/22, o que deve representar novo recorde na série histórica.
O órgão governamental espera que, ao todo, 76,7 milhões ha serão cultivados nesta safra, um acréscimo de 2,2 milhões de ha ou 3,0% a mais frente ao período anterior.
Para as principais culturas, a expectativa é de uma produção de soja de 152,9 milhões de t, o equivalente um incremento de 21,8% no comparativo com o ciclo anterior, totalizando uma área semeada de 43,3 milhões de ha (+4,4%).
No cultivo do milho é onde houve a principal variação entre os relatórios deste mês e do passado, uma vez que era esperado um volume de 96,3 milhões t para a segunda safra, mas que foi reavaliado para 95,0 milhões de t (-1,4%), dadas as condições climáticas na colheita da oleaginosa, gerando interferências na safrinha de milho plantada em rotação. Mesmo assim, a colheita da segunda safra deve ser 10,6% superior e para o volume total de milho (considerando as três safras), espera-se um incremento de 9,4%, atingindo 123,7 milhões de t, em uma área de 22 milhões de ha (+2,1%).
Já no algodão, a produção de pluma está estimada em 3,0 milhões de t (+16,7%) e a área em 1,6 milhão de ha (+4,6%). Para fechar as análises deste relatório, as culturas de inverno devem produzir o equivalente ao volume do ciclo passado, 12,4 milhões de t, com destaque para o trigo que deve representar 85% desse volume; a área também permanecerá estável frente a 2021/22, atingindo 3,8 milhões de ha.
No campo, a Conab aponta que a colheita da soja alcançou 15,4% de progresso até o último dia 11 de fevereiro, bem abaixo dos 25,0% registrados na mesma data de 2022. No Mato Grosso, principal estado produtor, o progresso é de 40,1% contra 60,1% há um ano. Como consequência dos atrasos na colheita da oleaginosa, o plantio de milho 2ª safra alcançou 20,4% de progresso versus 35,1% há um ano. No MT, 35,9% das áreas estimadas para o cereal já foram plantadas contra 58,1% em 2022. Por fim, no algodão, o plantio alcançou 92,3% de progresso, partindo para a finalização (era de 97,4% há um ano).
Sobre a fenologia das lavouras, na soja, 34,4% das áreas estão em maturação; 32,2% em enchimento de grãos; 11,8% em floração; e apenas 6,2% em desenvolvimento vegetativo.
No milho 2ª safra, metade das lavouras estão em emergência e a outra metade já em desenvolvimento vegetativo. Já no algodão, 62,8% dos campos seguem em desenvolvimento vegetativo; 30,8% estão em emergência; 5,6% em floração; e 0,9% em formação de maçãs.
Entre os dias 13 a 20 de fevereiro, a Conab indica que as condições hídricas (pluviosidade) para a cultura da soja seguirão favoráveis em boa parte do Brasil, com poucas limitações no norte e sul de Minas Gerais e parte do Rio Grande do Sul. Já no milho 1ª safra, há previsão de condições críticas no estado da Bahia, norte/sul de Minas Gerais e quase a totalidade do estado de Rio Grande do Sul; demais estados, terão condições favoráveis.
Voltando a falar sobre o Mato Grosso, principal produtor de soja, milho e algodão, o Instituto Mato-grossense de Economia aplicada reviu seus números para a cultura da soja no estado: a produção está estimada agora em 42,82 milhões de t, alta de 3,3% frente ao relatório anterior e de 4,8% no comparativo com a safra passada. Apesar dos relativos atrasos na colheita, ocasionados pelas chuvas, espera-se mais uma safra recorde para a oleaginosa. Com isso, os estoques finais no estado devem ficar em 1,09 milhão de t (+1,96%).
Ainda sobre a soja, o Imea indicou que a colheita alcançou 44,1% da área cultivada no estado em 2022/23, um avanço de 20 pontos em uma semana (corrida dos agricultores nos intervalos sem chuva), o que permitiu que Mato Grosso encostasse novamente na média histórica para o período (44,5%). Ainda assim, o progresso segue atrasado na comparação com 2022; há um ano, os avanços eram de 60,5%.
No milho, o Imea estima que a produção deve ficar em torno de 43,9 milhões de t, 34,6% superior ao registrado na safra passada (2021/22). Um aspecto de destaque é a expectativa de crescimento de 62,7% nas exportações do cereal, o que deve totalizar 26,9 milhões de t. Essa alta se explica, principalmente, pela entrada da China na pauta exportadora brasileira. Ao final de 2022/23, o estoque mato-grossense está estimado em 240 mil t.
Para o algodão, a área do Mato Grosso foi revista para 1,11 milhão de hectares, 5,4% inferior a 2021/22. Os atrasos no plantio e as recentes desvalorizações nos preços da fibra são os dois fatores apontados pelo Imea como motivadores da redução (menor interesse dos agricultores). Com isso, a produção ficou estimada em 4,65 milhões de t de algodão em caroço, 5,4% menor do que o último relatório, mas ainda 6,2% maior do que a safra passada, comportamento que se justifica pela melhora na produtividade esperada para este ciclo (deve ficar em 278,3@/ha, 12,3% maior).
Falando em algodão, os tristes terremotos na Turquia e Síria ocasionaram o fechamento do Porto de Iskenderun, principal rota de entrada do algodão brasileiro no país. Segundo autoridades locais, estima-se até 6 meses para que as atividades sejam retomadas, o que preocupa os agentes da cadeia de algodão no Brasil, já que a Turquia é o quinto maior comprador de nosso algodão (13% dos embarques ou 221 mil t da pluma em 2022).
E o agronegócio brasileiro já começa 2023 com boas notícias em relação ao comércio externo de produtos. Em janeiro, as receitas com exportações do setor somaram US$ 10,2 bilhões, alta de 15,9% no comparativo com janeiro passado.
Entre os produtos mais exportados em termos de volume, o milho em grão se destacou, de longe: foram 6,2 milhões de t embarcadas no mês, alta de 125,9% e com preços em US$ 287,4/t (+ 17,9%).
O açúcar bruto apareceu na sequência como produto mais exportado, com 1,8 milhão de t no mês (+ 63,1%) e preços médios em US$ 424,0/t (+12,2%). De celulose, exportamos 1,7 milhão de t (+4,3%), o terceiro produto no ranking de volumes, e que registrou preço da t embarcada em US$ 426,20 (+ 13,0%). Nas exportações da soja em grão, os embarques somaram 840 mil t em janeiro (- 65,8%) a preços de US$ 596/t. Por fim, nas carnes, o cenário foi o seguinte: na bovina, vendemos 160 mil t (+16,0%) por US$ 4.842,90/t; na de frango, foram 400 mil t embarcadas (+21,2%) a preços de US$ 2.016,60 (+15,7%); e na suína, 80 mil t foram vendidas (+ 18,0%) a US$ 2.475,20 (+11,7%). Os dados foram divulgados pelo Itaú BBA com base na Secex/Ministério da Economia.
Um destaque importante relacionado a pauta exportadora é que, em janeiro, a China assumiu o posto de principal destino das exportações brasileiras de milho; 983,7 mil t do cereal foram enviados ao país asiático no último mês.
As receitas somaram US$ 271,5 milhões, o que representa 15% do total exportado no mês (US$ 1,77 bilhão). Os dados foram compilados pela agência Reuters e pela consultoria Safras & Mercado. Apenas recordando que a China permitiu as exportações brasileiras de milho a partir de 2023 e estes resultados já mostram a tendência de crescimento nas relações com o grão.
De acordo com os relatórios do USDA, o Brasil irá liderar pela primeira vez na história as exportações globais de soja e de milho! Na oleaginosa, exportaremos cerca de 92 milhões de t em 2022/23, 54,9% de todo o volume global (em 21/22 era de 51,4%). Já no milho, serão 50 milhões de t, 27,6% de participação (era de 23,5% em 21/22). O protagonismo tem relação direta com o resultado positivo esperado para esta safra, bem como pelas baixas na oferta nos Estados Unidos (soja: – 4,2%; milho: – 9,0%), na Argentina e outros países; e pelo conflito entre Rússia e Ucrânia que infelizmente ainda se estende.
Em sua atualização de fevereiro, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estimou o Valor Bruto da Produção (VBP) Agropecuária de 2023 em R$ 1,265 trilhão, o que deve representar um avanço de 6,1% em comparação ao registrado em 2022 (R$ 1,190 trilhão), além do melhor resultado para o indicador nos últimos 34 anos.
A estimativa da pasta é que a atividade agrícola fature R$ 900,8 bilhões (+10,5%), enquanto que os demais R$ 364,4 bilhões serão advindos da pecuária (-2,7%). Entre os top três cultivos em faturamento estimado temos: soja (R$ 401,2 bilhões | +10,5%), milho (R$ 164,1 bilhões | +10,4%) e cana-de-açúcar (R$ 103,0 bilhões | +3,7%). Por sua vez, nas cadeias pecuária temos: bovinos (R$ 142,9 bilhões | -5,5%), frangos (R$ 107,6 bilhões | -4,1%) e leite (R$ 60,7 bilhões | +2,9%).
Em relação aos preços de produtos agrícolas, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) divulgou relatório onde aponta que o Índice de Preços ao Produtor de Grupos de Produtos Agropecuários (IPPA/Cepea) teve alta nominal de 10,1% no ano passado, em linha com os preços internacionais (o FAO Food Index cresceu 14,3% no último ano). Na análise dos principais segmentos, tivemos o seguinte: O IPPA-Hortifrutis cresceu 36,7%, sendo que as maiores altas foram a da batata (+51,3%) e do tomate (+23,2%); na sequência, esteve o IPPA-Cana/Café com crescimento nominal de 20,7%, altas de 18,8% na cana-de-açúcar e 31,2% no estimulante; em terceiro, aparece o IPPA-Pecuária, com elevação de 8,0%, sendo que o leite (+23,7%) e os ovos (+19,2%) foram os dois produtos de destaque; e, por fim, no IPPA-Grãos, a alta foi de 7,1%, com crescimento de preços do algodão em 23,5%, da soja em 11,3% e do trigo em 20,1%.
Nas cadeias da pecuária, o USDA divulgou em janeiro a nova estimativa semestral de oferta e demanda de carnes e outros em 2023. Na bovina, a estimativa para produção é de 59,20 milhões de t (-0,3%), sendo que Estados Unidos devem produzir 12,05 milhões de t (-6,5%), Brasil outros 10,56 milhões de t (+2,0%) e China em torno de 7,35 milhões de t (+3,2%). Nas exportações, o volume total global deve ser de 12,19 milhões de t (+0,2%), tendo como principais players o Brasil (1°; 24,6%) com embarques previstos em 3 milhões de t (+2,1%); Austrália aparece na sequência com 1,52 milhão de t (+3,5%); e Estados Unidos fecham o top 3 com 1,4 milhão de t (-12,8%). Nas importações, a China seguirá como principal comprador global da carne bovina (34,2%) com 3,52 milhões de t (+2,2%).
Nos suínos, o USDA estima uma produção global de 114,08 milhões de t em 2023 (+ 0,3%), liderada por China que irá entregar 55,0 milhões de t (o mesmo de 2022), seguida de União Europeia com 22,6 milhões de t (-0,4%) e Estados Unidos com 12,47 milhões de t (+1,8%). União Europeia, Estados Unidos e Canadá formam o top 3 exportadores, com 3,95 (-5,0%), 2,88 (+0,3%) e 1,40 (-2,1%) milhão de t, respectivamente. Apesar da recuperação na produção, a China deve ampliar as importações e seguir como principal player neste quesito; de 2,05 (2022) para 2,10 (2023) milhões de t.
Por fim, na carne de frango, a produção global foi projetada em 102,94 milhões de t em 2023 (+1,8%). Estados Unidos segue na ponta com 21,28 milhões de t (+1,3%), seguido do Brasil que tem 14,75 milhões de t (-3,5%) e da China, que deve produzir o mesmo volume de 2022, segundo o USDA: 14,3 milhões de t. Do lado dos embarques, a expectativa é que sejam comercializadas 13,99 milhões de t de carne de frango este ano (+3,2%). O Brasil, que já é maior exportador global, deve ampliar ainda mais a sua participação, especialmente pelos problemas que alguns países estão passando com os casos de gripe aviária (trataremos na sequência). Nosso país irá exportar 4,56 milhões de t (+2,6%), seguido dos Estados Unidos com 3,33 milhões de t (+0,4%) e da União Europeia com 1,8 milhão de t (+1,1%). Japão é o principal importador, com 1,1 milhão de t, mas responde por apenas 10% do comércio global; mercado muito mais pulverizado para o frango.
E falando em frangos, um assunto que tem preocupado bastante é a disseminação dos casos de gripe aviária (Influenza) em todo o mundo. Recentemente, a Organização Mundial de Saúde Animal incluiu mais dois países na lista de contaminados, o Nepal e a Eslováquia. Com casos altamente patogênicos na América do Norte e outros já confirmados em países como Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, os produtores brasileiros têm se mantido em alerta. Visando promover ações de forma preventiva, o governo federal lançou a campanha “Influenza aviária, aqui não”, com diversas informações para informar a sociedade e profissionais do setor. O que tem preocupado as autoridades é o fluxo de aves migratórias que vem de regiões já contaminadas da américa rumo ao Brasil. Sinal de alerta total!
Ainda falando em pecuária, o Rabobank indica que os preços de produtos lácteos devem permanecer com tendência de queda no primeiro trimestre de 2023. Segundo o banco, os preços do Global Dairy Trade (GDT) em 17 de janeiro ficaram em US$ 3.393 por t, queda de 0,1% em relação ao leilão anterior realizado pela organização. Para o segundo trimestre, espera-se a renovação do interesse de compra, especialmente da China, que deve ampliar suas importações em 2023.
No Café, uma pesquisa da Reuters com especialistas de mercado mostrou que os preços do Arábica tendem a cair 13,0% neste ano, fechando em US$ 1,48 por libra-peso. Já os preços do canéfora devem ficar em US$ 1.900 por t ao final de 2023, 6,0% superiores ao ano passado. Segundo o estudo, o principal motivador da queda nos preços do arábica é o suposto aumento na produção brasileira, o que deve gerar um excedente global em 2023/24; além disso, há também chances de redução na demanda.
Na última estimativa de dezembro do USDA, a produção global de café da safra 2022/23 foi projetada em 172,8 milhões de sacas (60 kg), 2 milhões de sacas a menos do que a estimativa anterior (julho/22), mas 4,0% superior a 2021/22.
Nos 3 principais produtores mundiais, o relatório mostrou o seguinte: na Colômbia, 3° colocado, a produção foi revista de 13,0 para 12,6 milhões de sacas, mas ainda 7,0% maior que 21/22; no Vietnã, segundo principal player, a produção foi revista de 30,9 para 30,2 milhões de sacas (- 4,3%); por fim, no Brasil, a projeção foi revista de 64,3 milhões de sacas na estimativa de julho, para 62,6 nesta (7,8% maior do que a safra passada).
Já o relatório da Conab, divulgado na metade de janeiro, apontou que a produção brasileira em 2023 deve ficar em 54,9 milhões de sacas (60 kg), cerca de 4 milhões de sacas a mais no comparativo com 2022 (alta de 7,8%), confirmando as expectativas do mercado de maior oferta brasileira.
O Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura) divulgou uma nova reestimativa da safra 2022/23 de laranja no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste de Minas Gerais.
No relatório, o órgão indica uma colheita em 316,23 milhões de caixas (40,8 kg), 0,7% maior do que a estimativa anterior e 20,3% superior ao ciclo 2021/22. Os bons volumes de precipitação nos últimos meses é o principal fator que explica a alta, já que tem contribuído com o aumento no peso das laranjas. O USDA divulgou suas previsões para a safra global. Em relação a fruta, a produção mundial está estimada em 47,5 milhões de t (- 5,0%), sendo que o Brasil deverá entregar 16,5 milhões de t (-2,4%), China com 7,5 milhões de t (+0,06%) e União Europeia com 5,85 milhões de t (-12,9%). Já em relação ao suco de laranja (concentrado a 65° Brix), a oferta global em 2022/23 está estimada em 1,55 milhão de t (-6,8%), com oferta brasileira de 1,12 milhão de t (-1,3%), México com 176 mil t (-18,1%) e Estados Unidos com 125 mil t (-21,4%). Apesar da baixa na oferta de suco, os estoques finais foram mantidos no mesmo nível de 2021/22: 223 mil t.
Nos fertilizantes, as empresas importadoras gastaram US$ 25 bilhões para compras no ano passado. Embora os volumes tenham caído 9,0%, os gastos foram 64,0% maiores do que os de 2021; dados compilados pela Vixtra. Para os próximos meses, espera-se que haja um “canal de queda” nos preços, ou seja, tendência de baixa, mas com possíveis altas no “meio da rota”. Segundo a fintech, a ureia deve ter seus preços em rota crescente nas próximas semanas, oscilando com altas entre 10 a 30% e com pico de preços no mês de maio.
Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a potência de energia solar no Brasil cresceu 76% em 2022, saltando de 14,2 para 25 GW. Com isso, a fonte já participa de 11,6% da matriz elétrica brasileira. Segundo a Absolar, desde 2012, R$ 125,3 bilhões já foram investidos com a energia solar e as arrecadações aos cofres públicos giram em torno de R$ 39,4 bilhões. Além disso, o setor gerou 750,2 mil empregos e contribuiu para evitar a emissão de 33,4 milhões de t de CO2.
O Radar Agtech, estudo feito pela Embrapa, HomoLudens e SP Ventures mostrou que 1/3 das startups do agro brasileiro já vende suas soluções para outros países do mundo (exportação de tecnologia). Além deste, outro dado que chama atenção é que 43% das startups já faturam mais de R$ 1 milhão por ano. Na média, pouco mais da metade dos negócios conta com mais de 10 colaboradores no quadro, contribuindo também para a geração de empregos.
A Cooperativa Aurora divulgou que faturou R$ 22 bilhões em 2022, um crescimento de 13,0% em relação ao ano anterior. Das receitas totais, 65,0% vieram de vendas no mercado interno (R$ 14 bilhões) e o restante de exportações (atualmente a Aurora é uma das maiores exportadoras de carnes no país). No ano passado, a cooperativa abateu 7 milhões de suínos, 300 milhões de frangos e processou 500 milhões de litros de leite. A Aurora emprega 40 mil pessoas e paga anualmente R$ 2,5 bilhões em salários.
Finalizamos nossa análise do agronegócio com os preços dos principais produtos do setor na data de fechamento da nossa coluna. Para a soja, considerando a entrega em cooperativa do estado de São Paulo, o preço Spot estava em R$ 168,30/sc (60kg). Já os contratos futuros eram de R$ 167,80/sc para mar/23 e R$ 167,80/sc para abr/23. No milho, a saca na negociação física estava em R$ 85,00/sc e os futuros na B3 em R$ 88,15/sc para mar/23, R$ 87,83/sc para mai/23 e R$ 90,18/sc para nov/23. No algodão, a cotação era de R$ 173,60/@ (base Esalq). Outros produtos do agro estavam com os seguintes preços, segundo o Cepea/Esalq: boi gordo em R$ 295,00/@; o café arábica em R$ 1.123,17/sc; o trigo (Paraná) em R$ 1.648,72/t; e a laranja indústria em R$ 37,71/cx (40,8kg).
Os cinco fatos do agro para acompanhar em março são:
- Colheita da cultura da soja, especialmente no estado do Mato Grosso, principal produtor e onde está boa parte da área que será cultivada com 2ª safra de milho. Vale ressaltar que o excesso de chuva pode ainda trazer algum dano as lavouras. Os resultados têm sido positivos e acreditamos que não vai haver grandes impactos, especialmente pela dedicação e agilidade dos agricultores.
- Semeadura do milho 2ª safra. Este, já nos preocupa um pouco mais. Apesar de até agora estarmos acompanhando previsões climáticas ainda positivas para as próximas semanas, a continuidade no atraso prejudicada, a cada dia, o potencial produtivo do milho. Precisamos aproveitar este momento que o mundo conta com o Brasil para fornecimento global do cereal.
- Acompanhar diariamente atualizações sobre a questão da gripe aviária (Influenza) nos países vizinhos do Brasil e/ou até mesmo em nível nacional. Vamos fazer nossa parte também divulgando as informações relativas ao assunto a outros profissionais e produtores. Vale lembrar que as cadeias de grãos/pecuária estão bastante conectadas e podemos sentir impactos mesmo em cadeias agrícolas (não apenas na produção animal), além dos preços de alimentos ao consumidor, inflação e outros.
- Ainda olhar para o câmbio e os indicadores da economia. Em 09 de fevereiro alcançamos R$ 5,30 no dólar, o maior valor desde a 1ª semana de janeiro. Nos últimos dias temos visto tendência de baixa, mas também há os embates entre o presidente e Banco Central e outros fatores econômicos em jogo.
- Seguir acompanhando a conjuntura global de fatos como a guerra entre Rússia e Ucrânia, os mistérios envolvendo objetos não identificados (possíveis espionagens) e os primeiros balanços do desempenho da economia neste início de 2023.
Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Acompanhe outros materiais na página DoutorAgro.com, no canal do Youtube e no MarketClub Sicoob Credicitrus, a quem agradecemos ao apoio para elaborar este texto, que tem a coautoria de Vinicius Cambaúva e Vitor Nardini Marques.
