Boa Notícia é o Consumo de Etanol

Reflexões dos fatos e números da cana em maio/junho e o que acompanhar em julho

Na cana, desde o início da safra 2024/25 em abril até 1º de junho, 140,7 mi de t foram moídas na região Centro-Sul do país, o que representa um avanço de 11,1% frente ao mesmo período do ciclo passado (126,6 mi de t). No entanto, na última quinzena de maio o volume processado foi 3,4% menor (45,2 mi de t) por conta do clima desfavorável para a colheita em algumas áreas do Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, de acordo com a Unica (União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia).
Já a qualidade da matéria-prima, dimensionada pelo valor do ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) foi de 122,1 kg/t (-1,92%) no acumulado da safra. Em relação ao mix de produção na posição acumulada, foi de 47,9% para o açúcar (alta) e 52,1% para o etanol (queda).
A região Centro-Sul registrou uma produtividade média de 89,4 t/ha na safra 2024/25 até maio, sendo 3,5% inferior ao observado no mesmo período do ciclo anterior (92,6 t/ha), segundo o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira). Isso porque regiões como Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o noroeste de São Paulo foram afetadas pelo déficit hídrico. Os melhores desempenhos em produtividade foram em Minas Gerais (102 t/ha), Ribeirão Preto (101,7 t/ha) e Piracicaba (100 t/ha) nos 2 primeiros meses da safra.
Muitos dos fatores que elevaram os custos na safra 2022/23 foram amenizados para o ciclo 2023/24 encerrado em março. As altas significativas nos preços do petróleo e dos grãos, e consequentemente do diesel e dos insumos agrícolas, foram parcialmente revertidas. O Pecege Consultoria e Projetos destaca a última temporada como excepcional, onde a alta produção da cana-de-açúcar coincidiu com preços elevados. Isso permitiu não apenas manter os preços altos, mas também reduzir os custos de produção.
No açúcar, para a posição acumulada da temporada 2024/25, a fabricação foi de 7,8 mi de t, ou seja, 11,8% maior do que o ciclo passado (7,0 mi de t). Porém, olhando apenas para a segunda metade de maio, o volume produzido foi de 2,7 mi de t, com uma queda de 7,7%, reflexo da menor moagem e menor alocação da cana para a produção do adoçante. São vários motivos que explicam esse cenário, segundo a Unica: menor concentração de ATR, baixo nível de pureza, elevado teor de açúcares redutores, maior teor de fibra, presença de dextrana na matéria-prima, cana bisada (que deveria ser colhida em uma safra, mas foi deixada para a temporada subsequente por falta de tempo), plantas que não completaram o ciclo de desenvolvimento e maturação prejudicada pelas condições climáticas.
Em maio exportamos 2,8 mi de t de açúcar (+16,7%), um volume recorde para o mês. Em receita, o montante foi de US$ 1,3 bi (+13,4%) a um preço médio de US$ 475,1/t (-2,8%). A queda nas cotações se deve principalmente ao bom início da nova safra no Brasil e preços internacionais do petróleo bruto mais baixos, de acordo com dados do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária).
A Organização Internacional do Açúcar (OIA) revisou sua previsão de déficit global de açúcar para a temporada 2023/24, agora em 2,9 mi de t. O resultado representa um aumento significativo em relação a última estimativa feita em fevereiro, quando o déficit era de 689,0 mil t. Enquanto isso, a Czarnikow, empresa de suprimentos e trading, estima que o mercado global de açúcar terá um superávit de 5,5 mi de t na safra 2024/25. A produção mundial de açúcar é esperada para atingir 186,5 mi de t, uma queda de 0,9 mi em comparação com a estimativa anterior, mas ainda a 2ª maior já registrada, impulsionada pela produção no Brasil e recuperações na União Europeia e Tailândia.
A Copersucar aposta em melhora dos preços do açúcar no médio prazo, devido ao clima seco que deve reduzir a produção na temporada 2024/25. Registrou lucro líquido de R$ 281 mi na safra 2023/24 (-58,6%), devido à diminuição dos preços internacionais do açúcar e do etanol. No entanto, para a nova safra, mesmo que a proporção de cana destinada ao adoçante ainda esteja menor que no ano passado, a perspectiva é de que as usinas aumentem a produção à medida em que a safra avança.
A destinação do processamento da cana para o açúcar pode alcançar um recorde de 50,8% no mix de produção da safra 2024/25, é o que avalia a consultoria Job Economia e Planejamento. Esse índice, se confirmado, deve superar a máxima histórica que foi registrada em 2012/13 (49,5%), há mais de 10 anos atrás, e acima do observado no ciclo passado (48,9%). O ligeiro recuo neste indicador em maio é considerado pontual, devido às chuvas que atingiram algumas áreas do Centro-Sul.
A cotação do contrato de jul/24 na Bolsa de Nova York estava em 18,92 centavos de dólar por libra-peso na data de fechamento da nossa coluna, alta mensal de 2,3%. Mesmo com maior expectativa de produção do adoçante, o mercado tem preocupações em relação ao clima nos principais produtores mundiais: tempo seco no Brasil e temporada de monções na Índia. Em Londres, o vencimento do contrato de ago/24 estava cotado em US$ 558,10/t.
No etanol, a produção atingiu 6,5 bi de litros desde o início do ciclo até 1º de junho (+10,4%), sendo 4,3 bi de litros de etanol hidratado (+25,0%) e 2,1 bi de litros de anidro (-10,6%). Apenas na segunda parte do mês de maio, a fabricação foi de 2,1 bi de litros: 1,3 bi de litros do hidratado (+6,5%) e 837,7 mi de litros do anidro (-8,9%). Olhando para a produção do biocombustível a partir do milho, o acumulado da safra registrou 1,2 bi de litros (+28,8%). Somente na última quinzena de maio, o volume foi de 338,1 mi de litros (+50,4%), representando 16% do total fabricado no período, segundo dados também da Unica.
As vendas de etanol chegaram a quase 3,0 bi de litros em maio (+22,5%). Para o hidratado houve crescimento de 46,8% na comercialização (1,9 bi de litros), enquanto as negociações do anidro tiveram queda de 6,4% (1,0 bi de litros). Novamente, o volume comercializado do etanol hidratado no mercado interno atinge o maior patamar desde outubro de 2020. No acumulado da safra, as vendas foram de 5,8 bi de litros (+28,6%), sendo 3,8 bi de litros de hidratado (+51,6%) e quase 2,0 bi de litros do anidro (-1,1%).
A São Martinho acredita em uma recuperação nos preços do etanol no segundo semestre, devido ao aumento da demanda e ao biocombustível estar abaixo da paridade com a gasolina. A empresa ainda considera duplicar sua planta de etanol de milho na usina Boa Vista, em Quirinópolis (GO), situação que seria viável nos preços atuais, mas a decisão final mantém no radar o fim dos incentivos fiscais do programa Produzir em 2032 e aguarda a estabilidade do mercado de etanol, que foi fraco no ano passado mesmo com uma relação favorável de preços frente a gasolina.
Na safra 2024/25, a produção de etanol de cana na região Centro-Sul do Brasil deve diminuir 10%, para 24,6 bi de litros, devido à menor quantidade de cana disponível e ao aumento no mix açucareiro, segundo a consultoria Job Economia e Planejamento. Enquanto isso, a produção de etanol de milho está projetada para crescer cerca de 20,0%, atingindo 7,5 bi de litros. Assim, a produção total estimada de etanol (cana e milho) na região é de 32,1 bi de litros, 4,5% abaixo do ano anterior. A expectativa é que a oferta mais restrita de etanol possa resultar em preços médios mais altos, sujeitos as condições do mercado internacional de petróleo e a política de preços da Petrobras.
Segundo a SCA Brasil, os preços do etanol hidratado (já com impostos), em Ribeirão Preto (SP), estavam em R$ 2,96/l no dia 21/06. Para o anidro, os preços eram de R$ 2,85/l na mesma cidade e data.

Valor do ATR: no mês de maio, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR). Para 2024/25, acreditamos em um valor entre R$ 1,15/kg a R$ 1,17/kg.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em julho na cadeia da cana:
1. Seguir monitorando as operações de colheita e moagem da cana-de-açúcar na região Centro-Sul. O ritmo está 11% mais avançado do que no mesmo período do ciclo anterior, indicando uma boa evolução. Porém, o prolongamento da seca em determinados locais pode acabar afetando as operações, como indicado pela queda de 3,5% na produtividade média até maio.
2. Probabilidade do La Niña ocorrer no segundo semestre do ano. Existe 70% de chance do fenômeno acontecer entre julho e setembro e a área canavieira pode sentir os efeitos: atraso no período úmido na primavera e chuvas persistentes com temperaturas mais baixas no verão. Além disso, chuvas durante a colheita podem acabar postergando o calendário. E o tempo seco e quente no Centro Sul deve trazer impactos.
3. Ficar de olho no comportamento do mercado global de açúcar: preço do etanol na Índia remunerando mais que o açúcar para exportação; recuperação da colheita na Tailândia, mas distante dos patamares do Brasil; forte seca do México que retirou o país do mercado internacional; aumento no déficit de oferta global para o ciclo 2023/24; entre outros fatores. A menor destinação atual do processamento para o açúcar deve ser pontual e as perspectivas apontam para um recorde de 50,8% no mix de produção do adoçante.
4. No etanol, mesmo com pleno avanço da colheita e moagem de cana, a valorização do dólar pressionou os preços do biocombustível para cima. As comercializações do hidratado seguem sendo destaque (+51,6%), chegando próximo ao patamar recorde alcançado em outubro de 2020. Esse cenário somado a menor quantidade de cana disponível e ao aumento no mix açucareiro pode favorecer os preços. Olhando o mercado do petróleo, o Brent estava em US$ 85,11/barril (-0,7%) e o WTI em US$ 80,56/barril (-0,9%) até o fechamento da coluna.
5. Observar a atuação do etanol proveniente do milho no mercado. Desde o início da safra, esse biocombustível acumula alta de quase 29%, o que vem compensando o mix de etanol da cana, já que o açúcar está com preço mais favorável. E olhar o consumo de etanol, que vem sendo excelente notícia.

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) da FGV (São Paulo – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é consultora na Markestrat Group, aluna de mestrado em Administração de Organizações na FEA-RP/USP e especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

Análises e conjunturas

boletim cana 30

Comments are disabled.

_

Receba nossas atualizações




    %d blogueiros gostam disto: