Safra de Cana 2025/2026 Pode Ter Queda de 10%

Reflexões dos fatos e números do agro em março/abril e o que acompanhar em maio

Na cana, a safra 2024/25 na região Centro-Sul foi encerrada com uma moagem total de 621,9 mi de t de cana-de-açúcar, registrando queda de quase 5,0% em comparação ao ciclo passado (654,4 mi de t). Apesar da redução, o volume representa a 2ª maior moagem da história da região, além de um novo recorde na produção de etanol, segundo informações da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia).

A safra foi marcada por uma queda significativa na produtividade agrícola, com rendimento médio de 77,8 t/ha, sendo 10,7% abaixo do recorde alcançado em 2023/24. O Estado de São Paulo, responsável por 57,5% da moagem regional, obteve retração de 14,3% (77,6 t/ha contra 90,6 t/ha no ciclo anterior). Nos demais estados, as quedas variaram entre 2,7% em Goiás e 12,7% no Mato Grosso do Sul, segundo dados do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira).

Enquanto isso, a qualidade medida pelo índice de ATR (Açúcar Total Recuperável), atingiu 141,07 kg/t, incremento de 1,3% em relação à safra anterior. No entanto, o estresse hídrico durante o desenvolvimento das lavouras afetou não apenas a produtividade, mas também a pureza do caldo, impactando o rendimento industrial, principalmente para fabricação de açúcar. Quanto ao mix de produção, ficou em 48,05% (queda) para o açúcar e 51,95% (alta) para o etanol.

Na 2ª quinzena de março, 23 unidades deram início à safra 2025/26. Ao término desse período, estavam em operação 61 unidades produtoras na região Centro-Sul, sendo 46 unidades com processamento de cana, 10 empresas que fabricam etanol a partir do milho e 5 usinas flex. No mesmo período, na safra 2023/24, operaram 75 unidades produtoras.

Setores de açúcar e etanol podem ser beneficiados em meio as tensões entre EUA e China. Itaú BBA aponta que usinas podem se beneficiar de tarifas menores em exportações para os EUA, onde o Brasil já responde por 30% das importações de açúcar (20% do consumo americano). Apesar de incertezas sobre políticas tarifárias de Trump e projeções reduzidas para a produção em 2025 devido a fatores climáticos, o baixo estoque/consumo global sugere pressão altista nos preços. No etanol, a queda no petróleo pode reduzir preços do combustível, mas existe uma tendência de expansão do etanol de milho, reforçando a resiliência estratégica do setor diante cenários voláteis.

CTC planeja dobrar a produtividade da cana-de-açúcar até 2040, com foco em melhoramento genético, biotecnologia (como variedades resistentes a pragas e tolerante a herbicidas) e plantio via sementes – iniciativas que podem revolucionar o setor ao reduzir custos e ampliar a competitividade do etanol de cana frente ao de milho. Um estudo da FGV (Fundação Getúlio Vargas) mostra que a adoção integrada dessas tecnologias pode evitar 178,6 mi de t de CO₂/ano até 2042 (equivalente a 8% das emissões do Brasil ou metade das emissões de um país como a França), reduzindo a pegada de carbono do etanol e o uso de diesel (-18,2%) e fertilizantes (-19,4%). As soluções podem impulsionar ganhos ambientais e econômicos, com receita adicional via créditos de carbono (CBios), além de ampliar a produtividade sem expandir áreas plantadas.

Preços de açúcar e etanol devem ser estáveis ou mais altos na safra 2025/26, de acordo com a Copersucar, com demanda global de açúcar superando a oferta e riscos climáticos. A seca no Centro-Sul do Brasil, se persistir até agosto, pode reduzir a safra e pressionar os preços do etanol – já que em torno de 70% das exportações de açúcar já estão com preço fixado. A definição do cenário deve ganhar clareza na metade do ano, com os efeitos das monções na Índia e o avanço da colheita brasileira. Há uma expectativa de recuperação parcial da produtividade na fase final da safra, embora estiagens prolongadas possam alterar projeções.

No açúcar, o fechamento da fabricação acumulada da safra 2024/25 até 31/03 foi 40,2 mi de t, sendo 5,3% menor do que a última temporada (42,4 mi de t), segundo a Unica. Olhando para as exportações, o Brasil embarcou pouco mais de 1,8 mi de t, ou seja, uma redução de 30,7% em relação ao mesmo período do ano passado (2,7 mi de t), de acordo com dados da plataforma Agrostat do Mapa. Com isso, o valor exportado foi de US$ 875,9 mi, configurando uma queda de 37,2% frente ao ano anterior (US$ 1,4 bilhão). Assim, os preços médios ficaram em R$ 473,2 com uma retração de 9,3% (era R$ 521,9 há um ano).

O USDA revisou a projeção para a produção de açúcar tailandês na safra 2024/25 para 10 mi de t, queda de 2,3% ante a estimativa de outubro, mas ainda 13,6% superior à safra 2023/24 (8,8 mi de t). As exportações do adoçante no país devem atingir 10,0 mi de t em 2024/25 (+115,5% ante 2023/24), impulsionadas pela recuperação da produção. Para 2025/26, é projetado um aumento de 2% na produção (10,3 mi de t). No entanto, as exportações devem cair para 7,0 mi de t em 2025/26, pressionadas pela retomada da competitividade de Brasil e Índia, que ampliarão oferta global e reduzirão preços. A Tailândia, apesar do crescimento interno, enfrentará desafios para manter participação no mercado internacional diante da concorrência.

Os impactos da primeira leva de tarifas anunciadas pelo Donald Trump criaram um ambiente de mercado extremamente cauteloso para o açúcar. Temores de recessão e de interrupções na cadeia de suprimentos, somados à desvalorização do real após a valorização do dólar pesaram sobre os fundamentos. Com a nova safra do Centro-Sul se aproximando e elevando a oferta num cenário de demanda estática, o açúcar bruto registrou queda, de acordo com a Hedgepoint Global Markets. Apesar de um alívio momentâneo quando os Estados Unidos voltaram seu foco para a China, estabelecendo uma trégua de 90 dias com outros países e reduzindo as tarifas para 10%, o viés de baixa permaneceu dominante, refletido também na queda do dólar e do setor energético.

Em Nova York, o contrato do açúcar para mai/25 fechou em 17,99 centavos de dólar por libra-peso em 24/04, data de fechamento da nossa coluna, seguindo tendência de queda com grande oferta global, favorecida especialmente pelo clima mais favorável no Brasil. Já o contrato de jul/25 ficou em 17,89 cents/lbp. Em Londres, o contrato para ago/25 estava cotado em US$ 503,30/t, queda significativa no mês, de 8,2% (em 24/03, as negociações fechavam em US$ 548,50/t).

No mercado doméstico, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 142,68/sc (50 kg), crescimento de 2,1% em relação ao último mês.

No etanol, a produção na região Centro-Sul alcançou quase 35 bilhões de litros no acumulado da safra 2024/25, um crescimento de 4,0% em relação ao ciclo anterior, que já era recorde. O etanol de milho se destacou, com 8,2 bilhões de litros produzidos (+30,7% ante 2023/24), representando 23,4% da produção total do biocombustível na região. A fabricação de etanol hidratado chegou a 22,6 bilhões de litros (+10,3% | 2º maior volume da série histórica), enquanto o anidro totalizou 12,4 bilhões de litros (-5,6%). Os dados também são da Unica.

Em março, as vendas de etanol somaram 2,9 bilhões de litros, queda de 4,6% frente ao mesmo período de 2023/24. Desse total, 153,1 mi de litros foram exportados e 2,8 bilhões destinados ao mercado interno. No mês, o hidratado vendeu 1,7 bilhão de litros no Brasil (-7,8%), enquanto o anidro atingiu 1,0 bilhão de litros (+10,4%). No acumulado da safra, as vendas domésticas de hidratado alcançaram 21,7 bilhões de litros (+16,4%), e o anidro totalizou 12,2 bilhões (+4,3%). O volume total comercializado na temporada atingiu 35,6 bilhões de litros (+8,4%), recorde histórico para o setor.

As vendas do hidratado no mercado doméstico se destacaram e permanecem em ritmo aquecido. Nos últimos 12 meses, o consumo desse biocombustível no país aumentou 22,9% se comparado há um ano, enquanto o consumo total de combustíveis pela frota leve avançou apenas 2,9%. Esse cenário reflete a disponibilidade de oferta e competitividade do biocombustível na bomba frente aos demais. Além disso, o consumo de etanol evitou a emissão de 48,4 mi de t CO2eq. no ciclo 2024/25 (o equivalente as emissões anuais do Equador), sem contar a economia de R$ 6 bilhões para os proprietários de veículos flex fuel.

Até 08/04, os produtores emitiram 11,8 mi de CBios para 2025, segundo a B3. O total disponível para negociação (obrigados, não obrigados e emissores) chegou a 22,4 mi de créditos. Com os créditos já aposentados e os disponíveis, o setor já garantiu 60,0% da meta anual do RenovaBio antes mesmo do início da safra 2025/26. Atualmente, 288 unidades de etanol, 4 de biometano e 38 de biodiesel estão certificadas no programa, representando mais de 90,0% da produção nacional de biocombustíveis.

Etanol de milho amplia vantagem competitiva sobre o de cana na safra 2024/25, com custo de produção caindo 10,5% (para R 1,88/litro), enquanto o da cana subiu 6,3% (para R$ 2,36/litro), aumentando a diferença entre as culturas de R$ 0,12 para R$ 0,48/litro, segundo relatório do BTG Pactual. A taxa de retorno das usinas de milho se mantém atrativa (15,5%), impulsionando investimentos: o país já tem 30 unidades operantes e 16 em construção, com potencial de dobrar a capacidade (+11,2 bilhões de litros) se aprovadas pela ANP. O etanol de milho deve alcançar 40% da produção nacional até 2030 (ante 20% atuais), impulsionado por expectativas de aumento da mistura obrigatória na gasolina (de 27,5% para 30%). Apesar do consumo de milho para biocombustível saltar de 4 mi para 19 mi de t em 5 anos, ele representa apenas 15,1% da disponibilidade total do cereal.

No relatório divulgado pela SCA do Brasil em 23/04, os preços do etanol estavam em R$ 3,260/l para o hidratado (queda de 0,6%) e em R$ 3,260/l para o anidro (queda de 0,3%). Os valores consideram a praça de Ribeirão Preto (SP) como referência e já incluem os impostos.

 

Valor do ATR: no último mês da safra 2024/25, o valor do ATR (Açúcar Total Recuperável) ficou em R$ 1,2478/kg, 0,3% inferior ao do mês de fevereiro, segundo dados do Consecana. O histórico da safra 2024/25 é composto por: abr/24, R$ 1,1879/kg; mai/24, R$ 1,1684/kg; jun/24, R$ 1,1635; jul/24, R$ 1,1759/kg; ago/24, R$ 1,1730/kg; set/24, R$ 1,1507/kg; out/24, R$ 1,1716/kg; nov/24 R$ 1,2294; dez/24 em R$ 1,2872/kg; jan/25 em R$ 1,2866/kg; fev/25, R$ 1,2525/kg; e fechamos mar/25 com 1,2478/kg. Com isso, a safra 2024/25 encerra com um acumulado de R$ 1,1926/kg, em linha com o que sugerimos aqui durante todo o ciclo.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em maio na cadeia da cana:

  1. Acompanhar o ritmo de retomada das operações de moagem pelas usinas da região Centro-Sul, bem como o mix de produção, visto que estoques do adoçante 70% mais baixos no primeiro trimestre do ano empurraram um mix açucareiro acima do normal na última metade de março, a fim de atender contratos de exportação já fixados.
  2. Monitorar as condições climáticas na cana, principalmente em relação a persistência de secas que podem comprometer a produtividade e a qualidade da cana. Novas estimativas estão convergindo para números entre 560 a 580 milhões de toneladas.
  3. No açúcar, acompanhar a concorrência com Tailândia e Índia, além do superávit global projetado (2,6 mi t em 2025/26). A retomada da competitividade brasileira e indiana pode pressionar preços, enquanto as tarifas de Trump e a demanda chinesa influenciarão fluxos comerciais.
  4. No etanol, observar o consumo doméstico acumulado, que cresceu 16,4%, impulsionado pela competitividade frente à gasolina. A relação estoque/consumo e a volatilidade do petróleo exigem atenção.
  5. Acompanhar as negociações no mercado internacional e o impacto das medidas protecionistas de Trump. Com 70% das exportações de açúcar já precificadas, eventuais quebras na safra brasileira poderão impactar a oferta de etanol.

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).

Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.

Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

 

Análises e conjunturas

boletim cana 30

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