Clima Já Traz Impactos na Moagem em 2025/26

Reflexões dos fatos e números do agro em abril/maio e o que acompanhar em junho

Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva, Beatriz Papa Casagrande e Rafael Barros Rosalino

Na cana, a safra 2025/26 na região Centro-Sul teve início com ritmo mais devagar de moagem, reflexo das condições climáticas adversas registradas em importantes polos produtores. Desde o começo da temporada até o final de abril, foram processadas 34,2 milhões de t de cana-de-açúcar, retração de 32,9% frente ao mesmo período do ciclo anterior (51,1 milhões de t). Apenas na 2ª quinzena de abril, a moagem totalizou 17,7 milhões de t, 49,3% inferior ao registrado no mesmo intervalo da safra passada. Segundo o diretor de Inteligência Setorial da Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia), as chuvas no oeste paulista, Mato Grosso do Sul e Paraná dificultaram as operações e impactaram o desempenho industrial no período.

Apesar do recuo na moagem, a estrutura produtiva se manteve ativa. Ao final da 2ª metade de abril, 222 unidades estavam em operação na região Centro-Sul (eram 221 em 2024/25), sendo 205 processadoras de cana, 10 produtoras de etanol de milho e 7 usinas flex. Já em relação a qualidade da matéria-prima, o índice de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) caiu para 110,6 kg/t na última quinzena de abril, redução de 3,9% em relação ao mesmo período do ciclo anterior (115,2 kg/t). No acumulado da safra, o ATR atingiu 106,9 kg/t, variação negativa de 4,9% na comparação com o ciclo passado.

Depois de um ciclo de resultados excepcionais, o setor sucroenergético enfrentou desafios na safra 2024/25. Segundo o Pecege, a média de produtividade foi 77,2 t/ha (-11,1% frente ao recorde de 86,8 t/ha de 2023/24). Apesar da redução, o desempenho ainda supera a média histórica desde 2014/15, o que levanta questionamentos sobre se a atual safra foi realmente fraca ou apenas retornou a patamares mais usuais após um ano atípico. De toda forma, esse cenário impactou os custos, ficando na faixa de R$ 159/t (+8,9%). O estresse hídrico causado pelo calor excessivo e os incêndios comprometeu a qualidade do caldo da cana, enquanto o aumento no preço do diesel elevou os custos nas operações de corte, transbordo e transporte. Por outro lado, a queda nos preços dos insumos agrícolas ajudou a compensar parte das pressões.

Para 2025/26, a StoneX manteve sua projeção de moagem de 608,5 milhões de t de cana no Centro-Sul, queda de 2,1% ante 2024/25, apesar de ajustes na área colhida (-200 mil ha) e produtividade (78,1 t/ha). A redução na área é atribuída a renovações aceleradas e queimadas em 2024, que afetaram 470 mil ha. A produção de açúcar deve atingir 41,7 milhões de t (+3,9%), 2º maior volume histórico, com exportações estimadas em 32,6 milhões de t. O ATR médio foi revisado para 141,2 kg/t (+0,89%), e o mix deve manter 51% para açúcar. Para o etanol, a competitividade frente à gasolina deve ser menor, com produção total prevista em 34,5 bilhões de litros (-1,3%). A queda é compensada parcialmente pelo etanol de milho, que pode chegar a 9,8 bilhões de litros (+19,6%), com expansão de unidades no Mato Grosso.

No açúcar, a produção somou 856,1 mil t na 2ª quinzena de abril, recuo de 53,8% em relação ao mesmo período da safra passada (1,8 milhão de t). No acumulado até 1º de maio, a produção do adoçante totaliza 1,6 milhão de t (-38,6%). No mix de produção, 45,82% da cana foi destinada à fabricação de açúcar, levemente abaixo dos 48,22% observados no mesmo período do ciclo anterior, de acordo com a Unica.

Enquanto isso, a exportação de açúcar em abril foi a menor em dois anos, totalizando 1,5 milhão de t (-17,7% na comparação anual), segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Apesar do início da moagem 2025/26 no mês anterior, os estoques ainda são baixos: em torno de 70% inferiores na média do 1º trimestre em relação à média histórica no período de acordo com a Safras & Mercado). O valor exportado foi de US$ 717,9 milhões (-24,3%), enquanto os preços médios ficaram em R$ 462,4 (-7,9%).

A temporada global de açúcar 2025/26 inicia com um cenário de oferta ampla, mesmo que as importações possam ganhar força em grandes países produtores, segundo análise da StoneX durante a 13ª Conferência Anual de Açúcar e Etanol em Nova York. A consultoria projeta um superávit de 3,7 milhões de t para o ciclo, o 3º excedente em quatro safras. Já a Datagro projeta um superávit global de 1,5 milhão de t, impulsionado pela safra brasileira que deve alcançar 42,0 milhões de t. Brasil, Índia, Tailândia e Paquistão devem expandir a produção, reforçando a disponibilidade global a médio prazo. Por outro lado, a Alvean (maior trading de açúcar do mundo) revisou para baixo sua projeção de superávit na safra 2025/26, reduzindo de 1,5 milhão para apenas 400 mil t, alertando sobre riscos climáticos e logísticos subestimados.

Após um déficit significativo em 2024/25, estimado agora em 5,5 milhões de t pela Organização Internacional do Açúcar (ISO) – o maior em nove anos – o mercado internacional se apoia em estoques recompostos graças aos superávits acumulados em ciclos anteriores (2022/23 e 2023/24). A StoneX ressalta que a demanda por importações deve se intensificar apenas a partir do terceiro trimestre de 2025, enquanto compradores seguem adiando compras na expectativa de quedas de preços.

O consumo global de açúcar segue em expansão, com crescimento médio de 1,1% ao ano nos últimos 15 anos, segundo estudo da StoneX obtido pelo NovaCana. A previsão para a temporada 2024/25 (outubro a setembro) aponta que a demanda atingirá 178 milhões de t em equivalente branco ou 193,6 milhões em valor bruto. O aumento é impulsionado principalmente por países emergentes, embora regiões desenvolvidas como Europa, Oceania e Américas enfrentem tendência oposta devido a mudanças alimentares, substituição por alternativas e desaceleração populacional. Ásia e África lideram o crescimento, com avanços médios de 1,1% e 2,2% ao ano, respectivamente, impulsionados pela industrialização e maior acesso a alimentos processados.

Em Nova Iorque, o contrato do açúcar para jul/25 fechou em 17,34 centavos de dólar por libra-peso em 20/05, data de fechamento da nossa coluna, seguindo tendência de queda diante das expectativas de recuperação dos principais países produtores e superávit global. Já o contrato de out/25 ficou em 17,53 cents/lbp. Já no mercado interno, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 133,27/sc (50 kg), uma queda acentuada de 8,0% em relação ao último mês.

No etanol, no acumulado da safra, a produção soma 1,9 bilhão de litros (-19,0%), sendo 1,4 bilhão de litros de hidratado (-19,6%) e 465,1 milhões de litros de anidro (-17,3%). Quanto ao etanol produzido a partir do milho, desde o início da safra já foram produzidos 716,9 milhões de litros, avanço de 31,2% na comparação anual. Dados também da Unica.

As vendas de etanol em abril somaram 2,8 bilhões de litros, queda de 3,5% em relação ao mesmo mês do ciclo passado. O etanol hidratado respondeu por 1,8 bilhão de litros (-6,4%) e o anidro, por 946,8 milhões de litros (+2,8%). No mercado interno, o hidratado somou 1,8 bilhão de litros (-4,1%) e o anidro, 904,9 milhões de litros (+1,0%). Com isso, as vendas domésticas totalizaram 2,7 bilhões de litros (-2,4% frente a abril de 2024).

Foi a competitividade do etanol hidratado nas bombas que sustentou a demanda no mercado interno. Segundo a Unica, o preço médio do etanol correspondeu a 68,3% do valor da gasolina no país, mantendo o biocombustível como alternativa economicamente vantajosa para o consumidor. Na semana de 04/05 a 10/05, um levantamento da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) apontou que em 184 dos 372 municípios pesquisados, o preço do etanol estava abaixo da paridade com a gasolina. Nos estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, todos os municípios amostrados registraram vantagem econômica para o uso do biocombustível.

Em abril, as exportações de etanol totalizaram 59 milhões de litros, queda de 34,8% frente ao mesmo mês de 2024. O destaque negativo foi para o etanol hidratado, com recuo de 73,7% (17,2 mi de litros). Já o etanol anidro apresentou aumento de 66,7%, com embarques de 41,9 milhões de litros.

No mercado de CBios, até 12/05 foram emitidos 15,5 milhões de créditos de descarbonização por produtores de biocombustíveis. O volume disponível para negociação (incluindo obrigados, não obrigados e emissores) atingiu 25,8 milhões de CBios. Com os créditos já aposentados, o setor alcançou cerca de 65% da meta anual do RenovaBio para 2025.

O setor do etanol de milho consome 20 milhões de t do cereal, volume que pode mais que dobrar em curto prazo, impulsionado por investimentos em novas usinas e possível elevação da mistura obrigatória de etanol na gasolina (de 27% para 30%). Analistas do Citibank projetam que a produção de etanol de milho irá saltar para 16,0 bilhões de litros até 2032, ante 9,5 bilhões previstos para 2024/25, consolidando o Brasil como líder em biocombustíveis alternativos. Além do milho, o sorgo surge como alternativa promissora, com espaço para expandir o cultivo, principalmente entre agricultores que perdem a janela ideal de plantio do milho safrinha.

No relatório divulgado pela SCA do Brasil em 27/05, os preços do etanol estavam em R$ 3,210/l para o hidratado (queda semanal de 2,7%) e em R$ 3,250/l para o anidro (queda de 1,5%). Os valores consideram a praça de Ribeirão Preto (SP) como referência e já incluem os impostos.

 

Valor do ATR: em abril, primeiro mês da safra 2025/26, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR) pelo Consecana. A safra 2024/25 fechou mar/2025 com valor mensal de R$ 1,2478/kg; e o acumulado em R$ 1,1926/kg. Vamos aguardar as divulgações de novos preços, com provável ajuste na metodologia que vem sendo desenvolvida nos últimos meses. Nossa expectativa é de que, com menos cana e clima favorável, o ATR feche o presente ciclo em R$ 1,18/kg ou até um pouco acima.

Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em junho na cadeia da cana:

  1. Monitorar os impactos do clima. O início da safra 2025/26 no Centro-Sul foi lento por conta das chuvas em algumas regiões, mas o ritmo de colheita deve ganhar tração, bem como a provável quedra na produtividade e produção.
  2. Observar as estratégias das usinas quanto ao mix de produção, tendo em vista as mínimas do açúcar bruto (abaixo de 17 cents/lbp), e a competitividade do etanol nas bombas. Há sinalização de que podem reavaliar o mix, com possível aumento para o biocombustível. Observar os preços do petróleo.
  3. Recuperação da produção de açúcar da Índia e Tailândia, onde as condições climáticas ainda são incertas. Apesar de um superávit global estimado entre 0,4 e 3,7 milhões de t para 2025/26, as entregas brasileiras acima do esperado entre março e maio – e menor aquisição chinesa – tem pressionado preços.
  4. Ganho de relevância para o etanol de milho. É importante acompanhar investimentos em novas usinas, volume de milho disponível e eventuais discussões regulatórias. Além disso, o avanço de culturas alternativas como o sorgo deve entrar no radar, pois pode impactar a estrutura produtiva futura.
  5. Acompanhar as negociações e acordos no mercado internacional, com atenção aos movimentos dos Estados Unidos e China (grandes parceiros comerciais do Brasil). A recente redução tarifária entre Estados Unidos e China não representa um cenário internacional mais desordenado e imprevisível.

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).

Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.

Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.

Análises e conjunturas

boletim cana 30

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