Com Menos Cana, Safra Começa Mais Açucareira Do Que 24/25
Reflexões dos fatos e números do agro em maio/junho e o que acompanhar em julho
Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva, Beatriz Papa Casagrande e Rafael Barros Rosalino
Na cana, apesar do ritmo de moagem ter iniciado mais lento na safra 2025/26 da região Centro-Sul, é possível observar uma recuperação no processamento. Desde o início da temporada até o fim de maio foram processadas 124,7 milhões de t de cana-de-açúcar, recuo de 11,8% em relação ao mesmo intervalo da safra passada (141,54 milhões de t). No entanto, apenas na 2ª quinzena de maio, o volume somou 47,8 milhões de t, levemente acima das 45,3 milhões de t registradas no mesmo período do ciclo 2024/25, segundo dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia).
Na última quinzena de maio, 7 unidades iniciaram a safra 2025/26, elevando para 252 o número de unidades em operação na região Centro-Sul. Desse total, 232 são processadoras de cana-de-açúcar, 10 produtoras de etanol de milho e 10 usinas flex. No mesmo período do ciclo anterior, estavam em atividade 251 unidades. Quanto à qualidade da matéria-prima, o nível de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) caiu para 124,87 kg/t na segunda quinzena de maio, queda de 4,0% frente aos 130,15 kg/t observados no mesmo período de 2024/25. No acumulado, o ATR registra 117,02 kg/t, retração de 4,1% em comparação com o ciclo anterior.
A Copersucar registrou crescimento de 21,4% nas exportações de açúcar (13,7 milhões de t), impulsionado pela menor quebra de safra frente a problemas climáticos comparada à média do setor. No mercado interno, as vendas de açúcar caíram 4,8% (2 milhões de t), enquanto as de etanol subiram 1,1% (9,6 bilhões de litros). O lucro líquido atingiu R$ 402,0 milhões (+43,1%), o 3º maior em 16 anos e o EBITDA ajustado foi de R$ 1,1 bilhão (+13,8%), beneficiado pela redução de despesas financeiras (R$ 374,0 milhões) e gestão de dívidas.
No açúcar, no acumulado até 1º de junho a fabricação do adoçante totaliza 6,9 milhões de t, queda de 11,6% em relação ao volume registrado no mesmo intervalo do ciclo anterior (7,9 milhões de t). Ainda de acordo com a Unica, mesmo com um mix mais açucareiro neste ciclo (49,99% da cana destinada à produção de açúcar, ante 47,81% no mesmo período da safra passada) a produção segue em retração no comparativo anual, devido a menor moagem acumulada e redução nos níveis de ATR/t de cana.
Olhando para a exportação do adoçante, o volume totalizou 2,2 milhões de t (-19,7% no comparativo anual), de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). A maior oferta global devido ao incremento da produção indiana e tailandesa colocou pressão baixista nos preços internacionais (-10,4%), resultando em um menor valor comercializado 28,0% menor (US$ 1,0 bilhão) e queda de 10,4% no preço médio (US$ 444,7/t).
A política tarifária dos Estados Unidos segue uma fonte relevante de incertezas, impactando diversos mercados globais, inclusive o açúcar, segundo análise da Hedgepoint Global Markets. O recente aumento tarifário norte-americano sobre aço e alumínio (50% de imposto para todos os países, exceto o Reino Unido) pressionou o dólar para baixo, favorecendo a valorização do real. No entanto, esse cenário afeta os exportadores brasileiros de açúcar, já que a commodity é cotada em dólar, o que reduz a receita em reais e torna os produtores mais cautelosos na comercialização do produto. Além disso, o custo de produção do açúcar no Brasil também aumentou com esse cenário: de 14,50 centavos de dólar por libra-peso no fim de 2024, para 16,30 centavos.
A Tailândia projeta manter a produção em alta após um crescimento de 17,6% na safra 2024/25, que totalizou 10 milhões de t. O país também ampliou sua área de cultivo em mais de 8,0%, o que reforça a expectativa de continuidade no crescimento da oferta, mesmo diante da recente queda nos preços internacionais. Na Índia, o cenário também aponta para dois anos consecutivos de excedente na produção graças à expansão das áreas e bom volume de chuvas. A estimativa da Federação Nacional de Cooperativas de Fábricas de Açúcar (NFCSF) é de que a produção de 2025/26 cresça quase 20,0%, atingindo 35,0 milhões de t. Com isso, o país deve retomar exportações mais robustas, após restrições impostas em 2023/24 devido à seca, e pode liberar mais de 3,0 milhões de t para o mercado externo na próxima temporada.
Em Nova Iorque, o contrato do açúcar para jul/25 fechou em 15,88 centavos de dólar por libra-peso em 18/06 (data de fechamento da coluna). Já o contrato de out/25 ficou em 16,31 cents/lbp. Enquanto isso, no mercado interno, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 124,99/sc (50 kg), retração de 6,2% em relação ao mês passado.
No etanol, no acumulado da safra até 1º de junho, o volume total produzido atingiu 5,7 bilhões de litros, queda de 11,3% em relação ao ciclo 2024/25. Deste total, 3,8 bilhões correspondem ao etanol hidratado (-11,3%) e 1,9 bilhão ao etanol anidro (-11,5%). A produção de etanol a partir do milho representou 18,0% do total fabricado na última quinzena de maio, com volume de 370,4 milhões de litros (+12,3% frente ao mesmo período do ciclo anterior: 329,5 milhões de litros). Desde o início da safra, o biocombustível originado do milho acumula 1,4 bilhão de litros, avanço de 23,4% na comparação anual.
As vendas de etanol em maio totalizaram quase 3 bilhões de litros, praticamente estável em relação ao mesmo mês do ciclo anterior. As comercializações de anidro alcançaram 1,1 bilhão de litros (+6,3%), enquanto o hidratado somou 1,9 bilhão de litros vendidos (-4,1%). No acumulado da safra até o fim de maio, a comercialização total de etanol alcançou 5,8 bilhões de litros (-1,9%), sendo 3,7 bilhões de litros de hidratado (-5,2%) e 2,1 bilhões de anidro (+4,7%).
A competitividade do etanol hidratado segue sustentando o consumo interno. Segundo levantamento da ANP, entre os dias 01/06 e 07/06 deste ano, em 187 dos 371 municípios pesquisados o preço do biocombustível estava abaixo da paridade com a gasolina. De acordo com a Unica, o preço médio do etanol correspondeu a 67,8% do valor da gasolina no país, mantendo o biocombustível como opção viável para o consumidor.
As exportações de etanol pelas unidades da região Centro-Sul somaram 88,3 milhões de litros em maio, retração de 9,4% frente ao mesmo mês do ciclo anterior. O destaque foi o etanol hidratado, com alta de 7,1% (62,6 milhões de litros), enquanto o anidro recuou 34,2%, totalizando 25,6 milhões de litros.
No mercado de CBios, até 13/06 foram emitidos 19,1 milhões de créditos de descarbonização em 2025 pelos produtores de biocombustíveis. O volume disponível para negociação entre partes obrigadas, não obrigadas e emissores soma 28,9 milhões de CBios, em linha com o cumprimento da meta anual do RenovaBio.
A Copersucar projeta um cenário promissor para o mercado de etanol em 2025/26, impulsionado pelo aquecimento da economia brasileira e possível elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 27% para 30% (E30). O crescimento da demanda por combustíveis deve favorecer tanto o etanol hidratado quanto o anidro, mesmo em uma safra com maior direcionamento para o açúcar. O abastecimento segue equilibrado, com o etanol de milho garantindo oferta adicional e contribuindo para a estabilidade do mercado. Além disso, tensões geopolíticas como o conflito entre Irã e Israel, podem influenciar o setor por meio da alta nos preços do petróleo e volatilidade cambial: fatores que tornam o etanol mais competitivo.
No informativo de etanol divulgado pela SCA Brasil no dia 20/06, os preços do biocombustível estavam em R$ 3,150/l para o hidratado e em R$ 3,110/l para o anidro, ambos os valores estáveis na variação semanal, considerando a praça de Ribeirão Preto (SP) como referência e já incluindo os impostos.
Valor do ATR: em abril e maio, primeiros meses da safra 2025/26, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR) pelo Consecana. Enquanto isso, a safra 2024/25 fechou mar/2025 com valor mensal de R$ 1,2478/kg, e o acumulado em R$ 1,1926/kg. Vamos permanecer no aguardo das divulgações, com possibilidade de ajuste na metodologia. Nossa expectativa é de que, com menos cana e clima favorável, o ATR feche o ciclo atual em R$ 1,18/kg ou até um pouco acima.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em julho na cadeia da cana:
- Observar o ritmo de moagem e desdobramentos do clima. A safra 2025/26 começou em ritmo lento (retração de 32,9% frente ao mesmo período do ciclo anterior), mas houve recuperação na 2ª quinzena de maio (reduzindo o recuo para 11,8%). Necessário avaliar a consolidação da retomada do ritmo de colheita e os impactos climáticos na produtividade agrícola ao longo da temporada.
- No açúcar, a retomada das exportações da Índia (35 milhões de t em 2025/26) e da Tailândia (10 milhões de t) ampliará o excedente global (até 3,7 milhões de t), mantendo pressão baixista nos preços. Além disso, as tarifas dos Estados Unidos valorizaram o real, reduzindo a receita dos exportadores brasileiros, um fator que exigirá ajustes na comercialização e gestão de risco cambial.
- No etanol, o governo federal deve oficializar a decisão sobre a elevação da mistura de etanol anidro de 27% para 30% (E30). Caso confirmada, a medida terá grande impacto na demanda interna pelo biocombustível. Ademais, a elevação dos preços do petróleo com o conflito entre Israel e Irã podem elevar a competitividade do etanol.
- Acompanhar de perto os desdobramentos da escalada do conflito no Oriente Médio entre Israel e Irã, que também podem afetar os custos de produção. Além do Irã ser o 3º maior exportador de fertilizante de ureia no mundo, a logística deve ser comprometida e os custos com transporte podem aumentar.
- Seguir de olho nas negociações do mercado internacional, principalmente em relação as movimentações dos Estados Unidos que continuam uma fonte relevante de incertezas. As políticas tarifárias e oscilações do câmbio podem impactar de forma direta ou indireta o mercado sucroalcooleiro.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
