Moagem, ATR e Produtividade Devem Ser Menores em 2025/26
Reflexões dos fatos e números do agro em julho/agosto e o que acompanhar em setembro
Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva, Beatriz Papa Casagrande e Rafael Barros Rosalino
Na cana, no acumulado da safra 2025/26 até 1º de agosto, a moagem somou 306,2 mi de t, queda de 8,6% em relação ao ciclo anterior (334,9 mi de t), segundo dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia). Quanto à qualidade da matéria-prima, o Açúcar Total Recuperável (ATR) acumulado do ciclo soma 126,85 kg/t, queda de 4,8% em relação ao mesmo período anterior e o menor nível dos últimos 10 anos.
O regime de chuvas foi desfavorável tanto no desenvolvimento da lavoura (precipitação abaixo do ideal), quanto na colheita (clima úmido), impactando de forma conjunta a produtividade (TCH) e a qualidade (ATR). Dados do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) mostram que, entre abril e julho, a produtividade agrícola caiu 10% em um ano, atingindo média de 79,84 t/ha. Combinada à queda de 5% no ATR, a redução resultou em retração próxima a 15% no ATR por ha (TAH). A perda foi generalizada em todo o Centro-Sul, chegando a 18% em Goiás, 19% em São José do Rio Preto, 23% em Minas Gerais e 25% em Ribeirão Preto, com exceção apenas do norte do Paraná e da região de Assis (SP), que apresentaram melhor desempenho.
A 2025/26 já aponta sinais de retração com as quedas no teor de ATR e produtividade, reflexos climáticos e impactos herdados da temporada anterior, segundo levantamento realizado pelo NovaCana. Com o 1º trimestre concluído, há consenso de que a moagem no Centro-Sul será menor do que a de 2024/25, embora ainda haja divergências quanto à dimensão da quebra. O mercado segue dividido para o açúcar, mas o etanol já mostra maior variabilidade, influenciado pela adoção do E30, competitividade do açúcar frente ao biocombustível, capacidade de cristalização das usinas e crescimento do etanol de milho. Entre abril e julho, as estimativas médias caíram 1,5% para a moagem, 2,4% para a produção de açúcar e 0,8% para o etanol de cana. O ATR projetado recuou 2,1%, enquanto o mix açucareiro avançou de 51,1% para 51,3%.
No açúcar, no acumulado desde o início da safra até 1º de agosto, a fabricação atingiu 19,3 mi de t, contra 20,9 mi registradas em igual período do ciclo anterior, o que representa redução de 7,7%.
Em relação a exportação do adoçante, os embarques registraram o segundo melhor volume para os meses de julho, atingindo 3,1 mi de t (-5,4%), resultando em um montante financeiro de US$ 1,26 mi (-15,0%). Dois mercados tiveram crescimento expressivo das aquisições: Bangladesh (+222,4%) e Arábia Saudita (+205,7%).
Os preços do açúcar subiram em julho devido a tensões tarifárias, especulações sobre o uso do adoçante originado da cana pela Coca-Cola nos Estados Unidos, licitações no Paquistão e maiores importações da China. Apesar disso, os relatórios da Unica mostraram um cenário misto: moagem em recuperação, mas ATR abaixo da média histórica mesmo com recordes no mix de açúcar.
A Hedgepoint reduziu sua projeção de produção de açúcar do Brasil para 40,9 mi de t, com exportações em 31,9 mi, destacando os impactos da estiagem inicial e dos incêndios de 2024 na produtividade, embora indicadores de vegetação apontem possível recuperação na segunda metade da safra. O desvio para o etanol perdeu força, e as usinas devem manter cerca de 52% da cana destinada ao açúcar, o que pode apertar os estoques de etanol e sustentar os preços do adoçante acima de 16 c/lb.
Apesar de redução na estimativa de produção global, o balanço de açúcar na safra 2025/26 ainda aponta para um superávit, segundo projeções do Itaú BBA. Houve recuo nas projeções de produção no Brasil e Europa, mas no sul e sudeste da Ásia o cenário é outro, com expectativa de que a produção na Índia cresça 18% no ano, 12% no Paquistão e 8% na Tailândia. Dessa forma, o superávit global reduziu de 2,7 para 1,7 mi de t. No entanto, o risco da produção brasileira sofrer novas reduções de estimativa é sinalizado pelas usinas, mas ainda parece ser minimizado pelo mercado.
Em Nova Iorque, o contrato do açúcar para out/25 fechou em 16,57 centavos de dólar por libra-peso em 20/08 (data de fechamento da coluna). Já o contrato de mar/26 ficou em 17,27 cent/lb. Enquanto isso, no mercado interno, o açúcar cristal branco (base Cepea/Esalq) em São Paulo estava cotado em R$ 119,34/sc (50 kg), retração de 0,8% em relação ao mês passado.
No etanol, no acumulado da safra 2025/26 até 1º de agosto, o volume fabricado atingiu 13,9 bilhões de litros (-11,9%). Do total, 8,8 bilhões correspondem ao etanol hidratado (-11,8%) e 5,0 bilhões ao anidro (-12,1%). Dados também são da Unica.
O etanol de milho manteve crescimento e ganhou maior participação no mix de produção. Na última metade de julho, foram fabricados 392,4 mi de litros a partir do grão, alta de 13,8% frente ao mesmo período da safra passada, respondendo por 17,2% da produção total de etanol do Centro-Sul. Desde o início da safra, o volume acumulado de etanol de milho atingiu 2,9 bilhões de litros.
As vendas de etanol em julho totalizaram 2,9 bilhões de litros. O etanol hidratado respondeu por 1,8 bilhão de litros (-5,6% no mercado interno, que absorveu 1,7 bilhão), enquanto o anidro somou 1,1 bilhão de litros, com avanço de 1,1% no consolidado mensal e 6,0% de alta no mercado doméstico (1,1 bilhão). No acumulado até 1º de agosto, a comercialização de etanol somou 11,5 bilhões de litros (-2,7%), sendo 7,3 bilhões de hidratado (-5,2%) e 4,1 bilhões de anidro (+1,9%).
Até 13 de agosto, foram emitidos 16,1 mi de créditos de descarbonização (CBios) em 2025. A quantidade disponível para negociação, em posse de emissores, partes obrigadas e não obrigadas, somava 30,5 mi de títulos. Considerando os créditos disponíveis e os já aposentados, cerca de 86,9% da meta do RenovaBio para 2025 já está tecnicamente assegurada.
O governo brasileiro e a indústria defenderam, em resposta à investigação aberta pelos Estados Unidos, que Brasil e Estados Unidos unam esforços para expandir mercados de etanol no mundo, em vez de travar disputas comerciais. A apuração norte-americana, solicitada por Donald Trump para justificar tarifas de até 50% inclui o inclui o etanol como alvo, embora o comércio bilateral já seja pequeno e em retração (queda de 70% entre 2019 e 2024). O Brasil reafirma a legitimidade da tarifa de 18% sobre o etanol norte-americano e destaca que não concede subsídios à produção, ao contrário dos EUA, que apoiam fortemente o milho e o açúcar via programas governamentais. A diplomacia brasileira propôs ampliar cooperação em iniciativas como a Aliança Global em Biocombustíveis e em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF).
No informativo de etanol divulgado pela SCA Brasil no dia 20/08, os preços do biocombustível estavam em R$ 3,29/l para o hidratado e em R$ 3,29/l para o anidro, ambos os valores em manutenção na variação semanal, considerando a praça de Ribeirão Preto (SP) como referência e já incluindo os impostos.
Valor do ATR: com o assunto ainda em discussão, não houve atualização para os preços do Açúcar Total Recuperável (ATR) pelo Consecana. A safra 2024/25 fechou mar/2025 com valor mensal de R$ 1,2478/kg e o acumulado em R$ 1,1926/kg. Ainda permanece o impasse na definição da nova metodologia para quantificação dos preços entre a Unica e a Orplana. Enquanto torcemos pela conciliação entre os agentes, nossa expectativa é de que o ATR feche a safra atual ao redor de R$ 1,16/kg.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em setembro na cadeia da cana:
- Acompanhar a produtividade agrícola e qualidade da matéria-prima. A moagem acumulada até agosto está 8,6% abaixo do ciclo anterior, e a produtividade (TCH) e ATR seguem em queda, resultando no menor nível de qualidade dos últimos 10 anos. Veremos se a tendência de perdas generalizadas continua em setembro diante do clima ainda instável.
- Observar os ajustes no mix de produção e impactos sobre açúcar e etanol. Apesar do mix açucareiro estar elevado (51,3% ou até acima de 52%), a menor disponibilidade de cana e queda no ATR podem limitar a cristalização de açúcar e reduzir a oferta de etanol hidratado. É necessário monitorar como as usinas ajustarão a destinação da cana diante da restrição de hidratado e da firmeza na demanda por anidro.
- Seguir de olho no mercado internacional de açúcar e revisão das estimativas brasileiras. O superávit global recuou de 2,7 para 1,7 mi de t, mas a recuperação da produção na Ásia (Índia, Paquistão e Tailândia) segue pressionando preços e o mercado sinaliza que novas revisões para baixo na produção brasileira ainda podem ocorrer.
- Observar se a queda dos preços do petróleo (o barril Brent estava próximo de US$ 65 ao fechar esta coluna e a valorização do Real trarão impactos no preço da gasolina, pressionando os preços do hidratado.
- Avaliar os efeitos do aumento da mistura de etanol anidro (E30). Desde 1º de agosto, a mistura subiu de 27% para 30%, o que deve adicionar 1 bilhão de litros de demanda de anidro já nesta safra, de acordo com o Itaú BBA. A consequência imediata é a forte restrição da oferta de hidratado (-17% no ano), que pode puxar preços acima de R$ 3,00/L em Paulínia (SP) no final de 2025 e início de 2026.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é associada na Markestrat Group, engenheira agrônoma pela ESALQ/USP e mestra em Administração na FEA-RP/USP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
Rafael Barros Rosalino é consultor na Markestrat Group, médico veterinário pela FCAV/UNESP. É especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
