Marcos Fava Neves / Vinícius Cambaúva

Vitor Nardini Marques / Daniel Bocca Mancini

Iniciando nosso boletim mensal com a análise do cenário internacional, o relatório de junho do USDA aponta para uma produção global de milho em 1,89 trilhão de toneladas no ciclo 2021/22. Os Estados Unidos lideram a estimativa de produção com 380,7 milhões de toneladas (20%), enquanto que os países sul-americanos, Brasil e Argentina, devem produzir 118,0 (6,5%) e 51 (2,7%) milhões de toneladas. Com esses resultados, os estoques finais do cereal deverão se aproximar de 290 milhões de toneladas ao final do ciclo. Na soja, a produção global foi estimada em 385,5 milhões de toneladas, sendo que o Brasil deve produzir 144 milhões toneladas (37,3%), enquanto que Estados Unidos e Argentina devem produzir, respectivamente, 119,8 (31%) e 52 milhões de toneladas (13,5%). Para a soja, os estoques globais devem fechar na ordem de 92,5 milhões de toneladas.

No cenário nacional, segundo estimativa da Conab do mês de junho, a produção de grãos da safra 2020/21 deve totalizar 263,1 milhões de toneladas, aumento de 2% em comparação ao ciclo passado, mas cerca de 9 milhões de toneladas menor que a estimativa anterior. Essa queda é reflexo da falta de chuvas nas lavouras de milho, sendo que a safrinha está avaliada agora em 69,9 milhões de toneladas, 12,3% menor que o valor de maio.

Assim, a produção total de milho no ciclo passou de pouco mais de 106 para 96,4 milhões de toneladas, redução de 6% frente a 2019/20. Nas demais culturas, poucas surpresas: a soja deve somar 135,8 milhões de toneladas (+8,8%); o algodão em pluma está estimado em 2,3 milhões de toneladas (-22%) e o trigo deve produzir 6,9 milhões de toneladas (+11,3%).

O IBGE, por sua vez, estima uma produção nacional em 2021 de 262,8 milhões de toneladas, alta de 3,4% em relação ao ano anterior. A área colhida deverá ser de 68 milhões de hectares, elevação de 3,9% em relação a 2020. No entanto, em comparação ao levantamento realizado em abril, também houve uma queda na estimativa de produção, apontada pelo instituto em 0,6%, redução de 1,7 milhão de tonelada, atribuída às perdas causadas pelo clima na produção de milho. O cereal deve fechar a safra atual entregando 99,2 milhões de toneladas produzidas, queda de 3,9%.

Outras análises reforçam as quedas para o milho no ciclo atual. A consultoria Safras & Mercado, por exemplo, prevê oferta de milho ainda menor em 2021, reduzindo de 117,3 milhões de toneladas em 2020 para 103,9 milhões neste ano. A produção esperada é de 95,3 milhões de toneladas, abaixo das 106,8 milhões de toneladas produzidas no ano anterior. 

Já na esfera do comércio internacional, em maio, o agronegócio exportou incríveis US$ 13,9 bilhões, simplesmente 33,7% a mais que em maio de 2020. Com o resultado, o agro respondeu por 51,7% dos embarques totais do Brasil, entregando um saldo positivo de US$ 12,7 bilhões em sua balança comercial.

No acumulado desde o início do ano (cinco meses), a soma é de US$ 50,2 bilhões, quase 22% acima do que no mesmo período do ano passado. A soja foi o principal responsável por esse resultado; os embarques da oleaginosa cresceram 30% no mês, entregando US$ 23,8 bilhões. Na sequência dos top five produtos estão: as carnes (2°) com US$ 7,3 bilhões; os produtos florestais (3°) com US$ 5,2 bilhões; os produtos do setor sucroenergético (4°) com US$ 3,6 bilhões; e o café (5°) com cerca de US$ 2,5 bilhões. As exportações de milho em grão fecharam em queda, totalizando US$ 3,5 milhões (-38,6%) e pouco mais de 13 mil toneladas embarcadas (-44,9%). Vale ressaltar que, para o cereal, este período se caracteriza pelo baixo nível de exportações, o que deve se alterar com o início da colheita.

Ainda assim, as exportações do milho brasileiro devem cair em 2021, com expectativa de 23,9 milhões de toneladas, ante as 34,9 milhões de toneladas embarcadas em 2020. Os estoques finais para a safra 2021 devem ficar em torno de 3,7 milhões de toneladas, pouco menos da metade dos 6,5 milhões de toneladas estocados em 2020, indica a consultoria Safras & Mercado.

Nos Estados Unidos, o USDA (Departamento de Agricultura do país) divulgou atualizações sobre o cultivo de milho, classificando 76% da safra em condições boas ou excelentes, o que reduziu as expectativas de quebras na produção do país até o momento.

De volta ao Brasil, dados do Ministério da Agricultura indicam que, em 2021, o país deverá registrar o maior Valor Bruto da Produção (VBP) Agropecuária em 32 anos. No total, as cadeias do setor serão responsáveis por cerca de R$ 1,11 trilhão em arrecadações, crescimento de 11,8% em comparação ao ano passado. O ótimo desempenho do agro é resultado do aumento de arrecadação nas cadeias do trigo (35,1%), soja (31,9%), milho (20,3%) e arroz (5,7%). Só o milho deve entregar R$ 136,55 bilhões, 12,3% de todo o VBP do agro!

O MAPA também anunciou a realização de um estudo sobre a criação de um programa para opções públicas de venda de milho na safra 2021/22, como plano para estimular o plantio do cereal em detrimento da soja no período do verão. A medida, que teria como foco os estados da região centro-sul (especialmente RS, SC, PR, SP e MG), tem como objetivo regularizar a oferta do grão nos meses subsequentes à colheita de verão, dado a demanda elevada no período e os altos preços recentes.

Também pensando em incentivar o plantio do cereal, o governo do estado de Santa Catarina está lançando o Programa Terra Boa, que visa destinar R$ 23 milhões para aquisição e distribuição de 200 mil sacas de sementes de milho. O projeto, que deve contemplar cerca de 50 mil produtores, visa ampliar a oferta do grão, especialmente com foco no consumo animal. Atualmente, o estado consome 7 milhões de toneladas, e mais de 70% é destinado para produção animal, além de ser um dos maiores importadores de milho dentre os estados brasileiros.

No Paraná, estado vizinho, de acordo com a Secretaria Estadual de Agricultura, a colheita do milho safrinha foi iniciada, mas a produção deve cair 13,4% em comparação à safra anterior, especialmente devido à estiagem que afetou as lavouras da região. No total, o estado deve colher pouco mais de 10,3 milhões de toneladas de milho no período.

Já no maior estado produtor, o Mato Grosso, o IMEA (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) divulgou o primeiro dado de acompanhamento da colheita do milho safrinha na região. Até o momento, 1,94% dos mais de 5,6 milhões de hectares foram colhidos. O valor é 8,5% inferior ao progresso registrado no mesmo período das últimas cinco safras, justificado pelo atraso na semeadura do cereal.

Em termos de comercialização, um levantamento realizado pela consultoria Safras & Mercado mostrou que aproximadamente 42,7% da produção do milho safrinha já foi negociada. Como comparação, em junho de 2020 a comercialização estava em 40,2%. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás/DF lideram a pesquisa, com 51,1%, 42,3% e 44,2% respectivamente.

E por falar em Mato Grosso do Sul, o preço do milho cresceu 130% em um ano no estado, segundo análise do Sistema Famasul e Aprosoja/MS. Há um ano atrás, o preço médio da saca paga ao produtor estava em R$ 37,29, e agora gira em torno de R$ 87,75. O estado é o segundo maior exportador de milho no Brasil, com volume de cerca de 450 mil toneladas.

Na conclusão desta coluna, os preços do milho estavam avaliados nos seguintes valores: a cotação atual, considerando entrega em cooperativa no estado de São Paulo estava em R$ 93,00/saca, e a entrega em maio de 2022 fechou em R$ 85,50 (B3). Vale ressaltar que em junho de 2020, o preço estava em R$ 44,00 (+111,3%).

E fechando nossa coluna, recentemente, o MAPA publicou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) para o milho primeira safra (verão) no ciclo 2021/22. Com os dados da publicação, além das informações edafoclimáticas que auxiliam o produtor na tomada de decisão, também é possível acessar os recursos destinados ao seguro rural e outros modelos de crédito.

Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar agora diariamente em julho são: 

  1. O andamento da colheita do milho safrinha nas principais regiões produtoras no país, e a performance produtiva do cereal. Grandes perdas estão sendo esperadas;
  2. Novas estimativas dos órgãos que acompanham a produção em nível nacional e internacional. É provável que haja novas reduções para a produção de milho no Brasil;
  3. O comportamento das exportações de grãos do Brasil, que estão em ritmo impressionante. O milho deve começar a exportar volumes mais relevantes;
  4. O bom desempenho da safra nos EUA, aparentemente com menos problemas climáticos, e alguma ameaça no ambiente político de se reduzir a mistura de biocombustíveis, contrariando o que era esperado da atual gestão. Isso poderá representar grande perda ao agro brasileiro;
  5. Os desdobramentos da crise hídrica, a forte melhora das perspectivas econômicas e os seus impactos no consumo do mercado interno. A aceleração da vacinação contra a Covid-19 também está trazendo a confiança de volta à economia. 

Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva e Vitor Nardini Marques são Consultores Associados na Markestrat Group.

Daniel Bocca Mancini é Estagiário na Markestrat Group.

Análises e conjunturas

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