Análise mensal | Pecuária | Junho 2021

Edição 07 – Junho

Marcos Fava Neves

Vinícius Cambaúva

Beatriz Papa Casagrande

Na esfera do comércio internacional, em maio, o agronegócio brasileiro exportou incríveis US$ 13,9 bilhões, simplesmente 33,7% a mais que em maio de 2020. Com o resultado, o agro respondeu por 51,7% dos embarques totais do Brasil, entregando um saldo positivo de US$ 12,7 bilhões em sua balança comercial. No acumulado desde o início do ano (cinco meses), a soma é de US$ 50,2 bilhões, quase 22% acima do que no mesmo período do ano passado. A soja foi o principal responsável por esse resultado; os embarques da oleaginosa cresceram 30% no mês, entregando US$ 23,8 bilhões. Na sequência do top five produtos estão: as carnes (2°) com US$ 7,3 bilhões; os produtos florestais (3°) com US$ 5,2 bilhões; os produtos do setor sucroenergético (4°) com US$ 3,6 bilhões; e o café (5°) com cerca de US$ 2,5 bilhões.

Olhando especificamente para a carne bovina, segundo o Ministério da Economia, o Brasil exportou 150,71 mil toneladas em maio, uma redução de 18% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Em receitas, a queda foi um pouco menor, de 7%, fechando o mês com US$ 725,9 milhões. Como consequência do desempenho menor, o acumulado dos cinco primeiros meses do ano ficou abaixo da média do ano passado para o volume; de janeiro até maio, o Brasil exportou 714,36 mil toneladas de carne bovina (-2%). Entretanto, as receitas apresentam desempenho melhor até aqui, graças a valorização do produto no mercado internacional; no mesmo período, o Brasil arrecadou US$ 3,24 bilhões (+2%). Para as outras duas fontes de proteína animal, a de frango e suína, as exportações em maio foram de 402 mil toneladas (+3,8%) e 100,5 mil toneladas (+0,7%), com receitas de US$ 642,7 milhões (+20%) e US$ 251,4 milhões (+11,2%), respectivamente.

Entre os países importadores da carne bovina brasileira, a China mantém a primeira posição, tendo importado 67,3 mil toneladas em maio (-19,7%), e com um acumulado de US$ 1,52 bilhão nas receitas entre janeiro e maio (+5,5%). Na segunda posição está os Estados Unidos, que vem ampliando fortemente a sua participação nas compras da carne bovina brasileira; entre janeiro e maio, o país norte-americano importou 33,7 mil toneladas (+165,8%), sendo que 31,7% desse total foi realizado apenas em maio. Atualmente, os EUA participam de 8% de todas as exportações brasileiras; em 2020 esse percentual era de 4%. No acumulado do ano, completam a lista de importadores: o Chile, na terceira posição, com 32,6 mil toneladas (+7,8%); as Filipinas, com 26,11 mil toneladas (+78,6%); e na quinta colocação os Emirados Árabes, que já importaram 19,03 mil toneladas da carne bovina brasileira (11,8%).

Segundo alguns especialistas, a redução das importações da carne bovina pela China acende um sinal de alerta. Ao que tudo indica, o mercado chinês deve ofertar um volume maior de carne suína no segundo semestre deste ano, o que pode impactar o desempenho exportador do Brasil na cadeia bovina.

Ainda assim, o comportamento de compra da China, especialmente por conta da participação de produtos do agro, tem impressionado. Segundo a FGV/Ibre, o superávit comercial do Brasil com o país asiático atingiu US$ 19,1 bilhões entre janeiro e maio deste ano, o que equivale à 70% do saldo do país no período. Com isso, a participação da China no acumulado das exportações brasileiras passou de 32,5%, em 2020, para 34%, em 2021.

Já em relação aos preços, em maio, houve alta para as três principais fontes de proteína animal, segundo dados também do Ministério da Economia. Na carne bovina, os preços ficaram em US$ 4.933,59 por tonelada, valor 12,25% superior ao registrado no mesmo mês de 2020; para a suína, o registro foi de US$ 2.371,81 por tonelada, crescimento de 9,87%; e na de frango, os preços ficaram em US$ 1.544,75 por tonelada, 16,02% a mais que maio do ano passado.

No Mato Grosso, maior estado produtor da carne bovina, a oferta de animais enviados para abate em maio cresceu 10,55% na comparação com abril, de acordo com boletim do Instituto Mato-grossense de Economia Aplicada (IMEA).

No acompanhamento do órgão, a arroba do boi gordo, livre de impostos, fechou o mês em R$297,12 (-1,14%) nas principais praças do Mato Grosso, e em R$310,47 (-1,99%) em São Paulo. Além disso, segundo o Instituto Mato Grossense da Carne (IMAC), as exportações de carne bovina pelo estado tiveram queda de 17,9% na comparação entre maio deste ano com o passado. No total, foram exportadas 25,8 mil toneladas, e o acumulado ficou em 140 mil toneladas da proteína, queda de 3% em comparação ao mesmo período do ano passado.

Na Argentina, quinto maior exportador da carne bovina no mundo, as exportações da proteína foram retomadas na última semana, segundo as autoridades locais. Há pouco mais de um mês, o governo havia suspendido as exportações como medida para tentar conter os preços internos da carne, o que aparentemente não deu muito certo por lá.

Uma boa notícia vem da Arábia Saudita, que excluiu a exigência que limitava a idade dos animais abatidos em 30 meses. A alteração foi feita pela SFDA (Saudi Food and Drug Authority), entidade sanitária do país, que também passou a permitir a exportação brasileira de carne de ovinos para o país.

De volta ao Brasil, dados do Ministério da Agricultura indicam que, em 2021, o país deverá registrar o maior Valor Bruto da Produção (VBP) Agropecuária em 32 anos. No total, as cadeias do setor serão responsáveis por cerca de R$ 1,11 trilhão em arrecadações, crescimento de 11,8% em comparação ao ano passado. O ótimo desempenho do agro é resultado do aumento de arrecadação nas cadeias do trigo (35,1%), soja (31,9%), milho (20,3%) e arroz (5,7%). As cadeias da pecuária devem entregar R$ 345,73 bilhões (+3,8%), sendo que a carne bovina será responsável por R$ 153,91 bilhões (+7,6%), a de frango em R$ 94,79 bilhões (+4,8%), a de leite em R$ 49,34 (-0,3%) e a suína deve entregar R$ 30,34 bilhões (-3,8%).

Na conclusão desta coluna, os preços do agro pelas cotações do CEPEA/USP, fechavam nos seguintes valores: a arroba do boi gordo em São Paulo era cotada em R$ 318,50/arroba; o bezerro, no Mato Grosso do Sul, estava em R$ 3.084,05 por cabeça; a soja, estava em R$ 158,11/saca; no milho, a cotação atual estava em R$ 89,57/saca; e por fim, o algodão fechou em R$ 4,69/libra-peso.

Os cinco fatos da pecuária e do agro para acompanhar agora diariamente em julho são:

  1. A redução nos volumes de exportação da carne bovina brasileira em maio é um ponto de atenção para o próximo mês. Precisamos acompanhar o comportamento de compra dos nossos principais parceiros comerciais, especialmente da China e dos EUA.
  2. A inflação de custos no agro, e possíveis preços menores de venda dos produtos com a recente valorização cambial e safras maiores no ciclo 2021/22. Vale lembrar que, no mês passado, atingimos alta histórica na relação de troca entre milho e boi gordo.
  3. Retomada das exportações de carne bovina pela Argentina: como isso pode alterar a dinâmica de compras no mercado internacional.
  4. Consumo interno da carne bovina, com tendência de retomada, dado o avanço da vacinação contra a covid-19 e os primeiros sinais de recuperação da economia.
  5. A crise hídrica e climática que assola o Brasil: como os impactos na produção agrícola podem interferir nos resultados das cadeias da pecuária.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio.

Vinícius Cambaúva é Consultor Associado na Markestrat Group, formado em Engenharia Agronômica pela FCAV/UNESP e aluno de mestrado na FEA/USP em Ribeirão Preto – SP.

Beatriz Papa Casagrande é estagiária na Markestrat Group e graduanda em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP em Piracicaba – SP.

* Agradecimentos à equipe Nutron/Cargill e todos os envolvidos no Projeto Carne do Bem.

Análises e conjunturas

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