Análise mensal | Pecuária | Outubro 2021

Edição 11 – Outubro

Marcos Fava Neves,

Vinícius Cambaúva

Beatriz Papa Casagrande

Efeito China: queda nas exportações e na cotação do boi gordo!

Iniciamos nossa coluna mensal, depois de um mês agitado nas cadeias da pecuária, com os dados das exportações do agronegócio brasileiro em setembro. Neste mês, o setor alcançou valor recorde de US$ 10,10 bilhões em receitas, 21% maior que o mesmo período de 2020, de acordo com estatísticas do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O resultado está atribuído especialmente ao aumento nos preços internacionais das commodities (+27,6%), uma vez que o volume de produto embarcado caiu (-5,1%). No acumulado do ano, já alcançamos US$ 94 bilhões em receitas.

No top 5 de produtos embarcados pelo Brasil, temos: 1°) o complexo soja foi responsável por vendas de US$ 3,19 bilhões (+50%), com preços médios dos grãos superando os US$ 500/tonelada; 2°) as carnes consolidaram novo recorde de embarques para o mês com US$ 2,21 bilhões (+62,3%); 3°) na terceira colocação aparecem os produtos florestais, somando US$ 1,15 bilhão (+23,8%), também com novo recorde para o mês; 4°)  o complexo sucroenergético, que vendeu US$ 965 milhões (-10,1%) ao mercado externo, sendo que o açúcar foi responsável por 87% do valor; 5°) por fim, o setor de cereais, farinhas e preparações comercializou US$ 624,19 milhões (-43,2%), reflexo da falta de disponibilidade de milho no mercado doméstico com a quebra da safrinha 2020/21. 

Do outro lado, as importações do agronegócio totalizaram US$ 1,25 bilhão, alta de 19,2%, o que possibilitou um saldo positivo de US$ 8,85 bilhões na balança comercial em setembro, valor 16,3% maior que o registrado no mesmo mês de 2020.

Na análise das exportações para as três cadeias da pecuária em setembro, no comparativo com o mesmo mês de 2020, a performance foi a seguinte: na carne bovina, embarcamos 211,7 mil toneladas (+82,5%), com receitas de US$ 1.187,3 milhões (+77,7%) e preços médios em US$ 5.607,74 por tonelada (+97,4%); na carne de frango, foram exportadas 405,9 mil toneladas (+21,5%), que geraram receitas em US$ 715,9 milhões (+52,6%), e tiveram preços médios de US$ 1.763,60 por tonelada (+125,6%); e na cadeia de carne suína, o volume foi de 110,7 mil toneladas (+30,1%), com receitas de US$ 254,0 milhões (+35,7%) e preços médios em US$ 2.293,87 por tonelada (+104,3%). Abaixo, podemos observar os dados e comparativo anual na tabela 1.

Tabela 1. Exportações das 3 principais cadeias da pecuária de corte em setembro (2020 e 2021)

Fonte: elaborado por Markestrat com base em Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Apesar dos bons resultados e os recordes nas exportações, os impactos do embargo da China para importação da carne bovina brasileira estão sendo sentidos neste mês de outubro. Segundo a consultoria Safras & Mercado, o Brasil deve encerrar o mês abaixo das 100 mil toneladas embarcadas; o acumulado de 20 dias em outubro, as exportações eram de 62,6 mil toneladas, segundo o Mapa, 61,5% menor que as 162,5 mil toneladas do mesmo período do ano passado. Já a média diária exportada está em 4,1 mil toneladas no acumulado do mês, queda de 48,7% em comparação com o mesmo período de 2020.

Em relação a esse assunto, um dos fatos que marcou o mês de outubro foi a determinação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) de suspensão na produção de carne bovina com destino a China. A medida foi tomada quando completaram 45 dias desde o início da suspensão das importações pelo país asiático, e com o objetivo de reduzir possíveis perdas de produtos, em vista da restrição. Por outro lado, a ação também incluiu a autorização para que os frigoríficos habilitados a vender carne para a China, e que haviam processado carne com a finalidade de envio ao país asiático antes da suspensão, que pudessem estocar a carne em contêineres refrigerados por 60 dias.

Como resultado da menor oferta ao mercado externo, os preços da carne bovina no mercado interno caíram em outubro, depois de 16 meses consecutivos de alta, de acordo com o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15); dados são do IBGE. A redução foi de 0,3% em relação ao mês de setembro (que havia registrado alta de 1,1%). Entre os 18 cortes da categoria, 12 apresentaram queda nos preços. A última baixa nos preços da proteína bovina havia sido em maio de 2020.

Por outro lado, as notícias mais recentes indicam que a China pode suspender a restrição em breve. Segundo a Agrifatto, na última semana de outubro, ocorreu a liberação da primeira carga de carne bovina brasileira para entrada no país, após o início da paralisação. O lote em questão teve o estado de Tocantins como origem; especialistas indicam que lotes do Mato Grosso devem enfrentar maior dificuldade, em vista de ser o estado onde um dos casos atípicos de Encefalopatia Bovina foi identificado.

O Ministério da Agricultura também tem feito esforços no sentido de dialogar com as autoridades chinesas para que a restrição seja suspensa o mais breve possível. Além de contatos já realizados por representes brasileiros, a Ministra Tereza Cristina já se dispôs a ir até a China para negociar pessoalmente, se necessário for.

Na atualização de setembro, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) estimou o Valor Bruto da Produção (VBP) Agropecuária em R$ 1,103 trilhão, um avanço de 10,0% em comparação com o registrado em 2020. Desse total, R$ 746,82 bilhões serão entregues pelas lavouras (67,7%) e outros R$ 356,71 bilhões pelas cadeias da pecuária (33,3%). Em relação à participação das cadeias da pecuária, temos o seguinte cenário: a carne bovina deve responder por R$ 153,9 bilhões (43,2%); o frango com R$ 104,8 bilhões (29,4%); o leite deve entregar R$ 50,1 bilhões (14,0%); a cadeia suína, R$ 30,3 bilhões (8,5%); e a de ovos vai entregar um VBP de R$ 17,5 bilhões (4,9%).  

Outro aspecto que tem prejudicado as cadeias de proteína animal é a questão logística. De acordo com um levantamento da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a escassez global de contêineres já gerou um impacto negativo de pelo menos US$ 1 bilhão sobre as receitas de exportações do agronegócio brasileiro. Entre janeiro e julho desse ano, as cadeias de aves, suínos e ovos (somadas) tiveram prejuízos de US$ 436,9 milhões, por conta da situação. Representantes do setor na câmara pedem um plano urgente para resolver a situação das cargas paradas nos portos e críticas recaem sobre a concentração no mercado marítimo; as cinco maiores empresas detêm 65% do mercado a nível global.

Ainda no cenário global, no início do próximo mês, acontecerá a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-26, em Glasgow, na Escócia. O Brasil estará presente por meio de diversos representantes para discutir os resultados entregues e apresentar os compromissos do nosso país até 2030. Entre as metas, temos: a redução de 43% nas emissões de gases; o reflorestamento de 12 milhões de hectares e a redução do desmatamento; a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas; e o alcance de 45% da energia elétrica sendo produzida por fontes renováveis. Grande parte das metas tem relação direta com a atuação do setor agropecuário, e essa será uma oportunidade muito importante para fortalecer o posicionamento do nosso país como fornecedor global sustentável de alimentos, bioenergia e outros agroprodutos. 

No Mato Grosso, principal produtor da carne bovina, o boletim do Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada (IMEA) indicou que houve uma queda de 30,0% no volume abatido de animais, no comparativo mensal, efeito também dos embargos aplicados pela China e da baixa demanda e distribuição no mercado interno, o que fez o pecuarista segurar mais animais em suas propriedades. Com isso, em setembro, a utilização dos frigoríficos ficou em 60,9%, queda de 14,5% no comparativo com o mês anterior; este é também o segundo menor resultado da história (série de dados iniciada em 2010).

E concluindo, em 26/10/2021, no momento de fechamento da nossa coluna mensal, os preços de produtos do agro, tendo como base as cotações do CEPEA/USP, estavam em: 

a) Arroba do Boi Gordo em São Paulo: R$ 257,25/@ (-11,8% no comparativo mensal);

b) Bezerro no Mato Grosso do Sul: R$ 2.801,75/animal (+1,0% no comparativo mensal);

c) Indicador Soja Paraná: R$ 168,79/saca (-1,6% no comparativo mensal);

d) Indicador Milho Esalq/B3: R$ 88,27/saca (-3,9% no comparativo mensal).

Já a relação de troca entre a arroba do boi gordo e milho, para o mês de setembro, ficou em 3,27, uma redução de 2,9% em relação ao mesmo mês de 2020; análises são da Markestrat. Por fim, no relatório para a segunda quinzena de setembro da Scot Consultoria, os preços médios do DDG (Mato Grosso e Goiás) estavam em R$ 1.815,13/tonelada, uma alta de 1,3% na comparação com os primeiros quinze dias do mês.

Os cinco fatos da pecuária e do agro para acompanhar diariamente em novembro são: 

  1. Continuar acompanhando a situação da reabertura do mercado na China para a carne bovina brasileira. Começamos a sentir os impactos da restrição e existem alguns sinais indicando a retomada; ainda assim, este é um grande ponto para acompanharmos.
  2. Crise logística internacional e falta de contêineres prejudicando a exportação de agroprodutos, especialmente os refrigerados como as carnes.
  3. Consumo e os preços da carne bovina para o mercado brasileiro. As indústrias estão buscando espaço para o escoamento da proteína no mercado interno.
  4. Custos de produção na pecuária: com as frequentes quedas na cotação da @ do boi gordo e a continuidade na alta dos grãos, fica cada vez mais complicada a situação dos custos. É essencial calcular diariamente a relação de troca para controle e gestão.
  5. Outros aspectos macroeconômicos como o câmbio, a crise institucional, as perspectivas de recuperação econômica e outros.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva é Associado na Markestrat Group, formado em Engenharia Agronômica pela FCAV/UNESP e aluno de mestrado na FEA/USP em Ribeirão Preto – SP.

Beatriz Papa Casagrande é estagiária na Markestrat Group e graduanda em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP em Piracicaba – SP.

*Este conteúdo é parte integrante do projeto Carne do Bem, uma iniciativa da Cargill/Nutron, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento de promoção da carne bovina no Brasil.

Análises e conjunturas

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