Análise mensal | Pecuária | Novembro 2021

Mercado da carne bovina segue aguardando a China, mas busca alternativas!

Marcos Fava Neves,

Vinícius Cambaúva

Beatriz Papa Casagrande

Neste mês, iniciamos a nossa coluna mensal com o desempenho exportador das três principais cadeias da pecuária brasileira, em outubro (Figura 1). Somados, os embarques geraram receitas de US$ 1.455,9 bilhões, alta de 2,1% no comparativo com o mesmo mês de 2020. Já os volumes totais cresceram menos, 0,3%, fechando em pouco mais de 589 mil toneladas. A carne bovina exportou 107,8 mil toneladas, uma queda de quase 43%, reflexo da suspensão nas importações chinesas da proteína brasileira. Já os preços médios da tonelada embarcada mais do que dobraram (+119,8%), superando os US$ 5 mil, o que proporcionou uma queda pouco menor nas receitas, de 31,6%, as quais fecharam o mês com um total de US$ 539,8 milhões. No acumulado do ano, a carne bovina exportou 1.594 mil toneladas (-3,2%) e tem receitas em US$ 7,98 bilhões (+15,8%).

Para as outras duas cadeias, o cenário é o seguinte: no frango, foram exportadas 384 mil toneladas (+23,4%), a preços médios de US$ 1.822,70/tonelada (+129,6%), gerando receitas de US$ 700 milhões; e na suína, os embarques foram de 97 mil toneladas (+11,5%), com preços médios em US$ 2.216,90/tonelada (+97,7%) e receitas de US$ 215,97 milhões.

Tabela 1. Exportações das 3 principais cadeias da pecuária de corte em setembro (2020 e 2021)

Fonte: elaborado por Markestrat com base em Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O Brasil deve fechar 2021 com queda de 2,0% nos embarques da carne bovina, tendo a suspensão das compras chinesas como grande motivador deste resultado. Para o próximo ano, no entanto, o banco espera que haja uma recuperação nos embarques, ainda que tímida, com crescimento esperado de 1,0%.

estimativas do Rabobank

Na visão geral do agronegócio brasileiro, os embarques alcançaram US$ 8,84 bilhões em outubro, valor recorde para o mês (mais uma vez!), crescimento 10,0% em relação ao mesmo mês de 2020. No top 5 dos produtos que mais arrecadaram, temos: na liderança, o complexo soja com US$ 2,47 bilhões (+75,7%); na segunda posição estão as carnes (destaque para as 3 principais no trecho anterior), que somadas exportaram US$ 1,51 bilhão (+3,6); em terceiro, ficaram os produtos florestais, com US$ 1,20 bilhão (+17,3%); na quarta colocação aparece o complexo sucroalcooleiro, com vendas em US$ 910,9 milhões (-30,0%); e em quinto, temos o café, que exportou US$ 606,7 milhões (+18,9%). 

As importações, por sua vez, somaram US$ 1,4 bilhão em outubro, crescimento de 16,7% em comparação com o mesmo mês de 2020. Como resultado, o agro brasileiro entregou um saldo positivo de US$ 7,44 bilhões (+8,8%). No acumulado de 2021 (janeiro – outubro), as exportações do agro brasileiro somam US$ 102,36 bilhões, alta de 19,5% no comparativo com o mesmo período do ano passado. Com este valor, alcançamos também o recorde histórico nas exportações totais do setor, superando todos os anos anteriores!

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou suas primeiras estimativas para o Valor Bruto da Produção Agropecuária em 2022, que deve ser de R$ 1,169 trilhões, alta de 4,4% frente ao valor estimado para 2021. Desse total, as lavouras devem representar 68,7% com um VBP total de R$ 803,6 bilhões; e as cadeias da pecuária participam com os outros 31,3%, ou em valores, R$ 365,4 bilhões. A cadeia bovina deve seguir com maior participação no ramo pecuário, com VBP de R$ 142,5 bilhões, embora a estimativa seja de queda de 8,0% em relação à 2021. Para as demais cadeias da pecuária, temos: frango com R$ 118,1 bilhões (+9,6%); a cadeia do leite em R$ 55,9 bilhões (+8,8%); suínos vai entregar R$ 31,0 bilhões (+0,5%); e ovos com R$ 17,9 bilhões (+0,7%).

 O mês de novembro também foi marcado pela realização da COP-26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Glasgow, na Escócia. Diversos acordos e compromissos foram firmados por lideranças globais, durante o evento, como: a redução do desmatamento ilegal; acordos de neutralidade nas emissões; e avanços na área de créditos e financiamento verde. Essas pautas devem abrir boas oportunidades para as cadeias da pecuária. Segundo estimativas recém divulgadas pela Climate Bonds Initiative (CBI), o potencial de emissões de títulos verdes no agro brasileiro até 2030 é de US$ 163,3 bilhões, sendo que 47,9% deste total (ou US$ 78,3 bilhões) referem-se à captações na pecuária, com a recuperação de pastagens degradadas e tratamento de resíduos animais.

Outro fato que abalou o mercado da pecuária nos últimos dias foi o pedido feito pela NCBA (National Cattlemen’s Beef Association) para suspensão da compra da carne bovina do Brasil, alegando que é necessário reavaliar as medidas sanitárias do nosso país, após a ocorrência dos dois casos atípicos de vaca louca. Diversas entidades brasileiras repudiaram o pedido, que foi visto como uma medida protecionista e sem fundamento. Apesar do acontecido, o governo brasileiro considera pouco provável que os EUA deixem de importar a carne bovina do Brasil.

Na China, as autoridades alfandegárias informaram que o país irá permitir a entrada da carne bovina brasileira, desde que certificada antes de 4 de setembro. Com isso, as cargas retidas nos portos chineses devem ser finalmente liberadas. Especialistas afirmam que este poderia ser um sinal de possível retomada nas compras da proteína bovina do Brasil.

Por outro lado, o setor discute, no momento, os efeitos de uma possível retomada das exportações para a China. Se isto vier a acontecer, poderemos passar por um período de escassez do produto, além de novas altas nos preços internos para o consumidor brasileiro. Novos capítulos dessa novela podem vir a agitar ainda mais o mercado!

E por falar em turbulência, um assunto veiculado na mídia nos últimos dias preocupou novamente o setor, embora tenha sido rapidamente esclarecido pelo Mapa. Após a notificação pela Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, acerca de dois pacientes com suspeita de terem a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), criou-se rumores de que teriam relação com o consumo da carne bovina; o que foi rapidamente justificado pelo Mapa e pela própria Fiocruz, já que estes se tratam de casos esporádicos da doença. Exames e diagnósticos comprovaram que não houve relação entre o consumo de carne bovina e a ocorrência da doença nos pacientes em questão.

No final de novembro, enfim, tivemos uma ótima notícia para a cadeia da carne bovina. Após reuniões da ministra agricultura, Tereza Cristina, com autoridades locais, a Rússia informou que vai retomar as importações de carnes brasileiras, que estavam suspensas desde 2017. A liberação envolve 12 indústrias brasileiras, sendo 3 de bovinos e outras 9 de suínos. O país asiático também informou que irá estabelecer uma cota de importação de até 200 mil toneladas de carne bovina do Brasil, isenta de impostos, em 2022.

No Mato Grosso, o Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada (Imea) informou que em outubro o volume de animais abatidos no estado foi de 386,38 mil cabeças, crescimento de 17,9% na comparação com o mês anterior; vale lembrar que em setembro, o Mato Grosso atingiu o menor nível operacional das indústrias frigoríficas da história. Embora os dados apontem para uma recuperação nos abates, o Imea indica que em novembro está ocorrendo uma menor oferta de animais, especialmente pela retenção dos animais a pasto, pelo pecuarista, na expectativa de cotações melhores da arroba.

E concluindo, em 24/11/2021, no momento de fechamento da nossa coluna mensal, os preços de produtos do agro, tendo como base as cotações do CEPEA/USP, estavam em: 

a) Arroba do Boi Gordo em São Paulo: R$ 316,65/@ (+20,2% no comparativo de 30 dias);

b) Bezerro no MS: R$ 2.834,85/animal (+2,7% no comparativo de 30 dias);

c) Indicador Soja Paraná: R$ 166,82/saca (-0,9% no comparativo de 30 dias);

d) Indicador Milho Esalq/B3: R$ 83,59/saca (-6,3% no comparativo de 30 dias).

Cálculos da Markestrat indicam que a relação de troca entre a arroba do boi gordo e milho, considerando as médias do mês de outubro, ficou em 2,99, uma redução de 8,6% em um mês, e o menor valor do ano de 2021, o que acendeu um alerta para os pecuaristas! Por fim, o DDG fechou cotado em média de R$ 1.765,62 em outubro para os estados de Goiás e Mato Grosso, queda de 2,2% em relação ao mês de setembro, segundo relatório quinzenal da Scot Consultoria.

Os cinco fatos da pecuária e do agro para acompanhar diariamente em dezembro são: 

  1. A reabertura do mercado chinês para a carne bovina brasileira; as expectativas são boas, mas ainda não temos nada concreto por parte do país asiático. O Mapa tem se movimentado para buscar alternativas e novos mercados, como é o caso da Rússia.
  2. Consumo interno da carne bovina com a aproximação das festas de finais de ano. É claro que este fator vai depender do preço da proteína no varejo para o consumidor final, mas as tendências são de alta no consumo.
  3. Custos de produção: embora a cotação da @ do boi gordo tenha acumulado altas nas últimas semanas, e agora alcança os maiores índices do ano, a gestão dos gastos e investimentos é essencial para garantia de margens na atividade.
  4. Custos com transporte e logística. A OMC indicou que o comércio de mercadorias está desacelerando neste final de ano, o que pode reduzir o preço do frete marítimo e ampliar a disponibilidade de contêineres para produtos refrigerados, como as carnes.
  5. Seguir acompanhando os indicadores da economia como o câmbio, inflação, taxa de crescimento do PIB; além dos fatos no cenário global, como a alta de casos da covid-19 na Europa e as crises energéticas e de combustíveis.

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva é Associado na Markestrat Group, formado em Engenharia Agronômica pela FCAV/UNESP e aluno de mestrado na FEA/USP em Ribeirão Preto – SP.

Beatriz Papa Casagrande é estagiária na Markestrat Group e graduanda em Engenharia Agronômica pela ESALQ/USP em Piracicaba – SP.

*Este conteúdo é parte integrante do projeto Carne do Bem, uma iniciativa da Cargill/Nutron, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento de promoção da carne bovina no Brasil.

Análises e conjunturas

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