Milho verão: clima já afeta algumas áreas no sul do Brasil!

Marcos Fava Neves

Vinícius Cambaúva

Daniel Bocca Mancini

Clara Guerreiro

Nosso resumo mensal inicia com destaque para a safra global de grãos 2021/22. Segundo as estimativas mais recentes (dezembro) do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção global de milho foi revista para cima, em 0,3%, agora estimada em 1.208,7 milhões de t. Apesar da alta, a União Europeia foi o único entre os produtores de relevância que teve alterações; neste mês, a estimativa foi de 70,4 milhões de t (+3,7%), contra 67,9 milhões de t do relatório anterior. As produções de Estados Unidos (382,6 milhões de t), Brasil (118 milhões de t) e Argentina (54,5 milhões de t) foram mantidas em valores iguais ao do último mês. Já os estoques globais do cereal foram revistos para cima, de 304,4 milhões de t (relatório passado) para 305,5 milhões de t (relatório atual). 

Na soja, o USDA estima as mesmas produções do último mês para os 3 principais países: Brasil com 144,0 milhões de t; EUA com 120,4 milhões de t; e Argentina com 49,5 milhões de t. A grande novidade neste relatório está na China, que teve a produção reduzida de 19 para 16,4 milhões de t (-13,7%). Com isso, a oferta global da oleaginosa foi revista para 381,8 milhões de t (contra 384 do último mês). Estoques também deverão ficar em níveis menores, estimados agora em 102 milhões de t.

No Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção de grãos na safra 2021/22 deverá alcançar 291,1 milhões de t, alta de 15,1% frente à temporada anterior. A área cultivada está agora avaliada em 72 milhões de ha (+ 4,3%), ou seja, um ganho de 3 milhões de ha. Na cultura do milho a expectativa é de uma produção total de 117,2 milhões de t (+ 34,6%) com boa recuperação de volume frente aos problemas climáticos enfrentados no ciclo anterior; a produção de milho verão está avaliada em 29,1 milhões de t (+ 17,6%), mas alguns especialistas já contestam os dados, em consequência de um cenário adverso de clima seco no Sul do país.

Para a cultura da soja, a Conab estima uma área de 40,4 milhões de ha (+ 3,7%), e esperada uma produção recorde de 142,8 milhões de t (+ 4,0%). Por fim, o algodão deve apresentar área cultivada de 1,5 milhão de ha (+ 9,1%) e produção de pluma de 2,6 milhões de t (+ 10,7%). Super safra brasileira uma vez se consolidando, pode trazer um pouco de alívio ao cenário de oferta e controlar os preços mundiais! 

Já no âmbito das operações, a Conab indica que até a semana de 11 de dezembro, o plantio de milho verão estava 80,6% concluído no país, frente à 78,1% no mesmo período do ciclo passado. Entre os principais estados produtores do cereal na 1ª safra, Goiás, São Paulo e Paraná já encerraram as atividades; enquanto que Minas Gerais e Santa Catarina estão em 99,5% (quase concluídos) e o Rio Grande do Sul está em 90,0%. Na soja, o progresso é de 96,6% contra 94,2% na mesma data de 2020, sendo que os principais estados produtores já concluíram a operação. Seguimos em ritmo acelerado, na torcida pela continuidade das chuvas e de olho nas condições das lavouras!

Em novembro, os embarques do agronegócio brasileiro somaram US$ 8,36 bilhões, crescimento de 6,8% frente ao mesmo mês de 2020, segundo dados do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA). Esse montante é resultado de um aumento de preços na ordem de 22,3%, uma vez que o volume embarcado caiu 12,7%. O complexo soja liderou a pauta de exportação com vendas de US$ 2,09 bilhões (+ 91,7%). Na segunda posição aparece o setor de carnes, o qual foi responsável pela comercialização de US$ 1,30 bilhão, sendo US$ 590,69 milhões (+ 26,2%) da carne de frango, US$ 493,66 milhões da bovina (- 41,5%) e US$ 168,68 milhões da suína (- 16,3%). A seguir estão os produtos florestais com US$ 1,25 bilhão (+ 19,3%); na quarta posição, o complexo sucroalcooleiro vendeu US$ 991,59 milhões (- 0,8%); e fechando o top 5, temos o café, que rendeu US$ 617,72 milhões (- 0,9%).

Já as importações totais do agronegócio em novembro totalizaram US$ 1,45 bilhão no mês, alta de 10,5%. Mesmo assim, o saldo da balança do setor ficou em US$ 6,9 bilhões (+ 6,0%). Nos onze primeiros meses de 2021, as exportações do agro somam US$ 110,7 bilhões (+ 18,5%); já era recorde no mês passado e ainda falta dezembro!

O milho embarcou 2.384 mil toneladas em novembro, uma redução de 49,6% na comparação com o mesmo mês de 2020, e receitas em US$ 486,9 milhões, também menor em 41,7%; resultados da menor oferta do cereal na safra brasileira neste ciclo. No acumulado do ano (janeiro até novembro), os volumes exportados de milho somam 16,99 milhões de toneladas, contra 29,55 milhões de t no mesmo período do ano passado; queda de 42,5%.

Segundo levantamento da Safras & Mercado, durante o ciclo 2020/21, o Brasil importou 2,48 milhões de toneladas de milho. Desse total, o estado do Paraná liderou as compras, com 1,25 milhão de toneladas (50,4%), seguido pelo Rio Grande do Sul com 663,3 mil toneladas (26,7%). Em relação aos preços, o milho importado da Argentina girou em torno de R$ 113,43 por saca; e dos Estados Unidos em R$ 116,39/saca, segundo a Safras.

Na cadeia de biocombustíveis, a União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica) informou que até o dia 16 de novembro, a produção acumulada do etanol de milho somou 2,1 bilhões de litros, cerca de 8,1% do total produzido de etanol no país; a produção total, somada ao biocombustível da cana, chegou a 25,8 bilhões de litros (queda de 8,8% no período), sendo 15,5 bilhões de litros do etanol hidratado e outros 10,4 bilhões de litros do anidro.

No campo, a alta nos custos de insumos é um aspecto que tem preocupado os agricultores. De acordo com relatório da Consultoria TF Agroeconômica, o custo de produção com o milho (referência Paraná) subiu 59,2% entre janeiro e novembro deste ano. Ainda assim, a lucratividade continua elevada, ao redor de 28,9%, mas o produtor precisa ter recursos suficientes para investir na lavoura, além de precisar contar com as boas condições de clima!

Falando nesse assunto, no estado do Rio Grande do Sul, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) relata que algumas áreas do estado já têm perdas irreversíveis com a produção de milho, devido ao longo período de estiagem. Regiões de Santa Rosa, Ijuí, Erechim e Passo Fundo são as que mais estão sendo afetadas pela condição adversa.

Já no Mato Grosso, maior produtor do cereal no Brasil, o Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada (Imea) estima uma produção recorde de 39,65 milhões de toneladas do grão na safra 2021/22. Em relação ao consumo, o Imea estima que 30,5% do volume produzido será demandado pela indústria do etanol de milho no estado; cerca de 12,08 milhões de t.

No âmbito político-legal, o senado aprovou o projeto de lei que altera a Medida Provisória do Milho (MP 1.064/2021), a fim de concentrar as vendas de milho do Programa de Venda em Balcão (da Conab) aos pequenos criadores de animais; consequência da alta nos preços do cereal, devido a redução da oferta no último ciclo. Segundo o novo texto, estarão aptos a comprar o milho os pequenos criadores de animais (inclusive aquicultores) que tiverem declaração ativa junto ao Pronaf (Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Cada Cadastro de Pessoa Física (CPF) poderá adquirir até 27 toneladas mensais de milho por mês, e o pagamento terá que ser feito até a data de liberação do produto.

Na data de fechamento da nossa coluna, em 15 de dezembro de 2021, a cotação do milho pelo Cepea/USP estava em R$ 87,56/saca (60kg), crescimento de 5,8% em comparação com a mesma data do mês anterior (R$ 82,74/saca); e de 18,6% na comparação com 15 de dezembro de 2020. Outros produtos de destaque no agro ficaram em: soja (Indicador Paraná) em R$ 166,10/saca (60kg), alta de 4,4% no comparativo mensal; o algodão em R$ 6,380/libra-peso, um crescimento de 5,8% na comparação com 15 de novembro; e o boi gordo em R$ 308,00/arroba, preços também maiores, em 1,6%.

Os cinco fatos do milho e do agro para acompanhar diariamente em janeiro são: 

  1. Condições das lavouras e o clima: com o término da semeadura se encaminhando em todo o Brasil, os olhos agora precisam estar voltados para o desenvolvimento da cultura. Algumas áreas do sul do Brasil já apresentam perdas devido à falta de chuvas. Importante ficar de olho, especialmente para entender como isto vai impactar na oferta.
  2. Retomada das compras de Carne Bovina pela China: recentemente, o país asiático informou que vai voltar a importar a proteína brasileira. Isto deve gerar uma movimentação interessante no setor e, inclusive, elevar a demanda de milho e outros grãos para a nutrição animal.
  3. Início da colheita da soja e plantio da safrinha: no final de janeiro, algumas áreas já devem iniciar a colheita da oleaginosa. É primordial acompanhar o andamento das operações, torcendo para que não haja atrasos, a fim de proporcionar uma boa janela de cultivo para o milho safrinha; precisamos de uma boa oferta do cereal neste ciclo!
  4. Contexto macroeconômico global: a crise energética ainda persiste, limitando a produção e disponibilidade de insumos, e elevando os custos de produção. Além disso, novos casos de covid-19 na Europa e Ásia e as preocupações com a nova variante (ômicron) tem abalado os mercados internacionais.
  5. Política e economia no Brasil: projetos em discussão no congresso brasileiro e as perspectivas para a economia brasileira, lembrando que 2022 é um ano eleitoral, o que pode abalar os mercados.

Aproveitamos este espaço para agradecer a todos pela companhia ao longo deste ano de 2021, e desejar-lhes um feliz natal e um excelente ano novo, repleto de muitas realizações! Ao nosso agro, fica a torcida para que possamos alcançar bons resultados e superar todos os desafios que nos forem apresentados em 2022! Continuam contando conosco no compartilhamento de conteúdos de qualidade e que agreguem valor aos diversos produtores e profissionais envolvidos com o nosso setor! Seguimos firmes, trabalhando em prol do desenvolvimento sustentável da cadeia do milho em nosso país. Juntos, nós Somos Milhões!

Marcos Fava Neves é Professor Titular (tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto) e da EAESP/FGV, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. 

Vinícius Cambaúva é Engenheiro Agrônomo e Consultor Associado na Markestrat Group.

Daniel Bocca Mancini e Clara Guerreiro são estagiários na Markestrat Group.

*Este conteúdo é parte integrante do projeto Somos Milhões, uma iniciativa da Nidera Sementes, e que conta com a participação da Markestrat Group. Nosso agradecimento a todos os envolvidos nesse importante movimento em prol da cadeia brasileira de milho.

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