O agro brasileiro pode evoluir na agregação de valor nos produtos? | Mundo Agro – Veja

O Brasil exporta valor, tecnologia e sustentabilidade

É verdade que, historicamente, a economia brasileira se caracterizou pela forte presença do setor primário, dedicado à extração de recursos naturais e produção de alimentos básicos, dado o contexto colonial que existiu no país por mais de 300 anos. Com a emancipação de Portugal, as primeiras fábricas foram instaladas no Brasil, possibilitando a agregação de valor. No entanto, existe uma percepção equivocada de que o agronegócio se resume à exportação de grãos, carne e outras commodities. Hoje o Brasil não exporta apenas soja e milho, mas também óleos refinados, produtos embalados, cortes animais premium e muitos outros produtos de alto valor agregado.

Para alcançar maior agregação de valor nos bens produzidos no Brasil, a agroindústria tem papel fundamental. Por definição, a agroindústria é o segmento responsável pela transformação de matérias-primas agropecuárias provenientes da agricultura, pecuária, aquicultura ou silvicultura. Portanto, a agroindústria é a ponte entre a produção agropecuária e o consumidor final. Em 2024, o PIB das agroindústrias brasileiras foi de R$ 627,5 milhões, 24,3% do PIB do agronegócio brasileiro. Esse valor representa 5,7% do PIB brasileiro. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), somente as agroindústrias são responsáveis por empregar 4,7 milhões de pessoas.

O Brasil se destaca no cenário global como referência na exportação de diversos produtos de maior valor agregado. Nas bebidas, o país é o maior exportador mundial de suco de laranja, fornecendo 8 em cada 10 copos de suco consumidos no mundo, especialmente para mercados como União Europeia, onde esse número sobe para 9 em cada 10. Nas carnes, ao somarmos as 3 principais proteínas consumidas (frango, suínos e bovinos), temos que o Brasil é responsável por 27% do comércio global. Já no setor sucroenergético, o Brasil lidera as exportações de açúcar, produto industrializado da cana. No setor de grãos, além da exportação da soja in natura, o país agrega valor por meio da produção de farelo e óleo de soja. Esses exemplos mostram que o agronegócio brasileiro não se limita à venda de commodities, entregando produtos processados e com maior valor agregado para o mercado internacional.

Nas cadeias de carnes – tomemos como exemplo a cadeia da carne bovina – a soja e o milho que seriam exportados como grãos seguirão para indústria de ração animal. Na indústria, os grãos são beneficiados (tratados para manter a qualidade) e depois processados (transformados em farelo, farinha, ou outras formas que terão melhores aproveitamentos dentro dos tratos digestivos dos animais). Em seguida, se juntam a componentes nutricionais para compor a ração que será dada aos bois. Portanto, desde a colheita da soja e do milho nas lavouras até a comercialização do boi abatido, houve grande agregação de valor. Para efeito de comparação (excluídas as diferenças de custos de produção), em fevereiro de 2025, a saca da soja (60 kg) está sendo comercializada por volta de R$130, enquanto a arroba bovina (15 kg) é comercializada por cerca de R$ 320, segundo dados do CEPEA/ESALQ.

Outro setor que se vale de maior agregação de valor em seus produtos é o de biocombustíveis. Atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil é o segundo maior produtor global de etanol, em um modelo baseado principalmente na cana-de-açúcar como matéria-prima, mas com o milho representando uma parcela maior a cada safra. Ao processar a matéria-prima com processos industriais como fermentação, destilação e outros, a produção do etanol agrega maior valor do que a simples exportação de cana ou milho. Além do valor agregado, a cadeia é exemplo de sustentabilidade, utilizando subprodutos da cana como bagaço e vinhaça para produção de novos produtos como biofertilizantes para a lavoura e DDG (grãos secos de destilaria, em português) para alimentação animal.

O agronegócio brasileiro já agrega valor por meio da agroindústria, biocombustíveis e exportação de produtos processados, mas ainda há grande potencial de crescimento. Estratégias como a cooperação entre os elos da cadeia, inovação em embalagens com novas volumetrias e formatos, rastreabilidade, novos produtos para atender demandas de mercados específicos, selos de origem e certificações de qualidade podem elevar ainda mais a competitividade do setor. Investir cada vez mais nas exportações de produtos processados de cadeias em que já somos líderes, como o café, é estratégia eficaz. Ao investir nessas estratégias de diferenciação no mercado, o Brasil capturará cada vez mais valor nas exportações, criando maiores superávits na balança comercial e gerando mais oportunidades às pessoas. Voltaremos nos próximos textos a comentar sobre estas estratégias.

Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdades de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e fundador da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em harvenschool.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves). Agradecimentos a Vinícius Cambaúva e Rafael Rosalino.

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