Seca Reduz Estimativa de Moagem em 2025/26
Reflexões dos fatos e números do agro em fevereiro/março e o que acompanhar em abril
Prof. Dr. Marcos Fava Neves, Vinicius Cambaúva e Beatriz Papa Casagrande
Na cana, a moagem acumulada na região Centro-Sul até 01/03 da safra 2024/25 totalizou 614,7 milhões de t, registrando queda de 5,0% ante as 647,1 milhões de t processadas no mesmo período do ciclo anterior, conforme dados da Unica. Já na última metade de fevereiro, as unidades processaram apenas 282,5 mil t frente as 551,7 mil da safra 2023/24. A entidade ressalta que o período é marcado pela entressafra, com apenas 18 unidades operantes na segunda quinzena de fevereiro – sendo 3 de cana, 10 de etanol de milho e 5 flex – e projeta retomada do processamento a partir de meados de março.
E com a piora das condições climáticas em algumas regiões do Centro-Sul, a Datagro reviu a projeção da moagem de cana-de-açúcar em 2025/26, agora prevista em 612 milhões de t, 1,4% inferior a 2024/25. Ainda segundo a consultoria, serão produzidos 42,3 milhões de t de açúcar, 12,7 bilhões de litros de etanol anidro e 21,9 bilhões de litros do hidratado. O mix deve ficar em 51% para o açúcar e 49% para o etanol.
Já a Hedgepoint manteve a previsão de fevereiro, indicando 630 milhões de t moídas no Centro-Sul, o que deve representar um aumento de 1,7%. A produção de açúcar deve ser de 43,3 milhões de t, crescimento de 8,4% em relação à 2024/25 (39,96 milhões de t); e serão produzidos 34,64 bilhões de litros de etanol, 0,3% inferior ao último ciclo (34,73 bilhões de litros).
No açúcar, a produção acumulada da safra até 01/03 foi de 39,8 milhões de t, contra 42,2 milhões de t da temporada passada (-5,6%). Na última quinzena de fevereiro o total produzido foi apenas 9 mil t, de acordo com a Unica. Em relação as exportações, o Brasil embarcou 1,8 milhões de t em fevereiro, isto é, uma redução de 39,2% no comparativo com o mesmo período do ano anterior (3,0 milhões de t), segundo dados da plataforma Agrostat do Mapa. Com isso, o valor exportado foi de US$ 849,8 milhões, uma queda anual mais acentuada de 46,3% (US$ 1,6 bilhão no ciclo anterior). Dessa forma, os preços médios tiveram queda de 11,6% em um ano, ficando em R$ 465,7 (era R$ 526,6 em fevereiro de 2024).
De acordo com análises da Archer Consulting, o mercado de açúcar enfrenta pressões significativas devido à seca em regiões críticas do Centro-Sul do Brasil, que compromete o desenvolvimento da cana-de-açúcar e reduz a qualidade da matéria-prima. Além disso, incertezas sobre a produção na Índia devido a condições climáticas adversas e tensões geopolíticas globais mantêm os agentes em alerta. A combinação desses fatores cria um ambiente volátil, com operadores adotando estratégias conservadoras para mitigar riscos. Ainda, especulações sobre políticas econômicas internacionais, como possíveis medidas protecionistas dos Estados Unidos, deixam o cenário ainda mais complexo e mantém a demanda global em cautela.
A Índia iniciará a nova safra de açúcar em outubro com estoques iniciais suficientes, mesmo após a produção abaixo do esperado na temporada 2024/25 e a autorização para exportar 1 milhão de t, de acordo com a Associação Indiana de Fabricantes de Açúcar e Bioenergia (Isma). No entanto, o país projetou estoques iniciais (3,8 milhões de t) abaixo das 8 milhões de t do ciclo anterior, gerando preocupações no mercado. Com a redução da oferta e a alta demanda sazonal, traders imaginam pressão nos preços nos próximos meses.
O mercado mundial de açúcar deve registrar um superávit de 2,6 milhões de t na safra 2025/26, depois de 3 anos consecutivos de déficit, segundo projeções da consultoria Datagro. A virada é impulsionada pela recuperação da produção na Índia e pelo aumento de 5,9% na moagem brasileira, com usinas priorizando açúcar em detrimento do etanol. A Tailândia também contribui para o excedente, ampliando sua produção em meio a condições climáticas adequadas. Por outro lado, a União Europeia deve reduzir sua oferta em 1,7 milhão de t, chegando a 15 milhões, devido a desafios estruturais e climáticos. O cenário contrasta com o déficit de 3,1 milhões de t estimado para 2024/25, marcando uma transição crítica para o setor, que agora enfrenta pressões de preços e ajustes estratégicos entre os principais players globais.
Em Nova York, o preço do açúcar segue oscilando entre 18 e 20 centavos nos últimos dias, em vista das incertezas no mercado brasileiro e global, com os aspectos de clima e política. No fechamento da nossa coluna, o contrato para mai/2025 estava em 19,69 centavos de dólar por libra-peso, alta semanal de 50 pontos. Já em Londres, o contrato girava em torno de US$ 564,80/t. Segundo a Archer, na conversão dos preços futuros para o FOB Santos, temos: R$ 2.700/t para a safra 2025/26; R$ 2.735/t para 2026/27; e R$ 2.800/t para 2027/28.
Com a valorização do açúcar a médio prazo, a expectativa é de que haja uma aceleração na fixação dos preços das próximas safras. O efeito já está sendo observado na safra atual, que deve apresentar um mix mais açucareiro, quatro pontos percentuais acima da safra passada.
No mercado interno, segundo o Cepea/Esalq, os preços do açúcar cristal branco (São Paulo) estavam em R$ 139,14/sc (50kg), leve valorização de 0,2% no comparativo mensal.
No etanol, a produção na região Centro-Sul acumulou 33,9 bilhões de litros na safra 2024/25 até 01/03, 3,7% acima do ciclo anterior, com 21,6 bilhões de litros de hidratado (+9,8%) e 12,2 bilhões de anidro (-5,5%). Já na segunda quinzena de fevereiro, a fabricação do biocombustível foi de 337,8 milhões de litros, sendo 277,5 milhões de litros de etanol hidratado (-8,2%) e 60,3 milhões de litros de etanol anidro (+125,0%). Destaque para o etanol de milho, que atingiu 7,4 bilhões de litros no acumulado (+30,8%), superando o volume total da safra passada e marcando recorde histórico. Na segunda quinzena de fevereiro, 94,2% do biocombustível (318,3 milhões de litros) teve origem no cereal, com aumento de 8,6% frente ao mesmo período do ano anterior. Os dados são da Unica.
As vendas de etanol totalizaram 2,8 bilhões de litros em fevereiro, sendo 2,7 bilhões no mercado interno (+1,1%). O hidratado registrou 1,7 bilhão de litros (+0,6%), enquanto o anidro alcançou 996,6 milhões (+2,0%). No acumulado da safra, as comercializações somaram 32,6 bilhões de litros (+9,5%), com 20,9 bilhões de hidratado (+15,9%) e 11,6 bilhões de anidro (-0,3%). O ritmo aquecido nas vendas do biocombustível tem gerado economia aos consumidores, chegando a R$ 8 bilhões nesta safra, mantendo competitividade frente aos derivados de petróleo. Os números reforçam a resiliência do setor, mesmo em períodos de entressafra e ajustes sazonais.
Até 11/03, os produtores de biocombustíveis emitiram 7,9 milhões de créditos (CBios) para o ano, segundo dados da B3. O total de CBios disponíveis para negociação – incluindo partes obrigadas, não obrigadas e emissores – atingiu 22,1 milhões de créditos de descarbonização, reforçando a liquidez do mercado.
Um aumento na proporção de etanol anidro misturado à gasolina para 30% (E30) poderá elevar a produção do biocombustível no Brasil em 16,2% a partir da safra 2025/26, conforme análises da Bioind MT. A medida, já testada por montadoras, ampliaria a demanda anual de etanol anidro para 14,7 bilhões de litros – incremento de 2,0 bilhões de litros em relação ao patamar atual de 27% (12,7 bilhões de litros). Mato Grosso, principal estado produtor de etanol de milho, teria um acréscimo estimado de 445,9 milhões de litros na demanda. A aprovação da mudança depende de aval técnico e regulatório e ainda está em análise pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
No relatório divulgado pela SCA do Brasil em 21/03, os preços do etanol estavam em R$ 3,320/l para o hidratado (queda mensal de 0,3%) e o mesmo valor para o anidro (queda de 0,6%). Os valores consideram a praça de Ribeirão Preto (SP) como referência e já incluem os impostos.
Valor do ATR: em fevereiro, o valor do ATR (Açúcar Total Recuperável) fechou em R$ 1,2525/kg, 2,7% inferior ao do mês de janeiro, segundo dados do Consecana. O histórico da safra 2024/25 é composto por: abr/24, R$ 1,1879/kg; mai/24, R$ 1,1684/kg; jun/24, R$ 1,1635; jul/24, R$ 1,1759/kg; ago/24, R$ 1,1730/kg; set/24, R$ 1,1507/kg; out/24, R$ 1,1716/kg; nov/24 R$ 1,2294; dez/24 em R$ 1,2872/kg; jan/25 em R$ 1,2866/kg; e agora em fev/25, fomos a R$ 1,2525/kg. No acumulado da safra, o valor está em R$ 1,1945/kg, alinhado aos R$ 1,19/kg, sugeridos por nós aqui na coluna, ao longo de todo o ciclo.
Para concluir, os cinco principais fatos para acompanhar em abril na cadeia da cana:
- Monitorar o início efetivo da safra no Centro-Sul em abril. As projeções estão entre 612 e 630 mil t a depender do impacto das condições climáticas na qualidade da matéria-prima.
- No açúcar, acompanhar as reações do mercado frente ao superávit global projetado para 2025/26 (2,6 milhões de t). Além disso, analisar as incertezas diante da oferta do adoçante na Índia e Brasil, que demostram um cenário de pressão nos preços a curto/médio prazo.
- Ficar de olho nas movimentações e preços do petróleo. Presidente Trump anunciou uma tarifa secundária de 25% sobre países que comprarem petróleo ou gás da Venezuela, mas há uma expectativa de que as tarifas recíprocas sejam menos rigorosas ou de flexibilizações nas negociações.
- No etanol, os estoques em março estão 14,6% menores do que o mesmo período de 2024 e 19,3% abaixo do registrado em fevereiro deste ano. É preciso seguir acompanhando a oferta do biocombustível e o comportamento das vendas, ainda mais no início da safra 2025/26.
- Continuar observando as movimentações no mercado internacional. Ajustes comerciais em açúcar e etanol estão em jogo entre Estados Unidos e Brasil, com o governo brasileiro disposto a ampliar a cota de exportação de açúcar em troca de melhores condições para o etanol americano.
Marcos Fava Neves é professor Titular (em tempo parcial) da Faculdade de Administração da USP (Ribeirão Preto – SP) e da Harven Agribusiness School (Ribeirão Preto – SP). Sócio da Markestrat Group. É especialista em Planejamento Estratégico do Agronegócio. Confira textos e outros materiais em DoutorAgro.com e veja os vídeos no Youtube (Marcos Fava Neves).
Vinícius Cambaúva é associado na Markestrat Group e professor na Harven Agribusiness School, em Ribeirão Preto – SP. Engenheiro Agrônomo pela FCAV/UNESP, mestre e doutorando em Administração pela FEA-RP/USP. É especialista em comunicação estratégica no agro.
Beatriz Papa Casagrande é consultora na Markestrat Group, aluna de mestrado em Administração de Organizações na FEA-RP/USP e especialista em inteligência de mercado para o agronegócio.
